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UFRN desenvolve plataforma digital que promete ampliar diagnóstico precoce de problemas auditivos pelo SUS

O projeto também busca realizar o acompanhamento de pacientes e a produção de dados epidemiológicos sobre problemas auditivos da população  |  Divulgação/Projeto

Publicado em 03/11/2026, às 13h37   Divulgação/Projeto   José Nilton Jr.

Uma pesquisa coordenada por professoras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade de São Paulo (USP) está desenvolvendo uma plataforma tecnológica para ampliar a identificação precoce da perda auditiva e melhorar o atendimento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Batizado de Ouvir Brasil, o projeto pretende reunir ferramentas digitais acessíveis por celulares e tablets, permitindo a realização de testes auditivos.

Além disso, o projeto também busca realizar o acompanhamento de pacientes e a produção de dados epidemiológicos sobre a saúde auditiva da população. A iniciativa integra o ecossistema Rede Reab.LITA e é coordenada pelas professoras Sheila Balen, do Departamento de Fonoaudiologia e do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN), e Deborah Viviane Ferrari, da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP.

O projeto recebe recursos do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, com gestão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A proposta é desenvolver soluções que possam ser utilizadas tanto pela população quanto por profissionais de saúde, incluindo agentes comunitários, equipes da atenção primária e trabalhadores que atuam em escolas.

Projeto Ouvir Brasil. Foto: Divulgação/Projeto
Projeto Ouvir Brasil. Foto: Divulgação/Projeto
Projeto Ouvir Brasil. Foto: Divulgação/Projeto

A tecnologia também deverá contribuir para identificar problemas individuais e reunir informações capazes de revelar a dimensão da perda auditiva em comunidades e diferentes regiões do país.

Aplicativo pretende mudar a identificação da perda auditiva

Um dos recursos centrais da plataforma será o teste de dígitos no ruído, método que permite identificar possíveis dificuldades auditivas por meio de um smartphone e fones de ouvido. A ferramenta teve como ponto de partida a adaptação científica do teste para o português brasileiro, que também foi incorporado ao aplicativo internacional hearWHO, disponibilizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O Ouvir Brasil, entretanto, foi concebido considerando as características da população brasileira e a organização do SUS. A intenção é oferecer uma tecnologia de fácil utilização, inclusive por pessoas com diferentes níveis de escolaridade e familiaridade com ferramentas digitais.

A professora Sheila Balen destaca que o desenvolvimento prioriza a compatibilidade com aparelhos celulares e tablets que utilizam o sistema Android. A escolha considera o custo mais acessível desses equipamentos, o que pode facilitar a utilização da plataforma em larga escala e ampliar o alcance da iniciativa.

O ecossistema também prevê outras soluções digitais. Entre elas estão o Ouvir Brasil Pro, direcionado a agentes comunitários de saúde e equipes da atenção primária, o Aud.it, voltado à triagem lúdica de crianças em idade pré-escolar, além das ferramentas Sonar e Analytics, destinadas à telemetria, ao acompanhamento e à gestão de informações epidemiológicas.

Números revelam desafios da saúde auditiva

A dimensão do problema ajuda a explicar a importância da iniciativa. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 430 milhões de pessoas vivem com perda auditiva incapacitante em todo o mundo. O custo global da perda auditiva não tratada ultrapassa US$ 981 bilhões.

No Brasil, estimativas epidemiológicas apontam que cerca de 6% da população apresenta perda auditiva incapacitante. Entre crianças em idade escolar, o índice pode chegar a 16%. Outro dado preocupante é que aproximadamente 60% das causas de perda auditiva na infância poderiam ser evitadas.

O atendimento também enfrenta dificuldades no encaminhamento de pacientes. Segundo os dados apresentados pelo projeto, pessoas que poderiam se beneficiar de aparelhos de amplificação sonora individual levam, em média, 7,6 anos para procurar ajuda especializada. Além disso, cerca de 25% dos indivíduos encaminhados para serviços de média e alta complexidade apresentam audição normal.

No Rio Grande do Norte, um levantamento realizado em serviços auditivos credenciados ao SUS identificou que 55% dos atendimentos anuais eram de pessoas com audição normal. A cobertura da triagem auditiva em escolares também permanece baixa em diversas regiões, enquanto apenas 47,7% dos recém-nascidos que não passam na triagem neonatal chegam efetivamente aos serviços especializados.

A plataforma pretende ajudar a reduzir essas distorções, qualificando os encaminhamentos e permitindo que gestores públicos tenham informações mais precisas para planejar ações de prevenção, diagnóstico e reabilitação.

Pesquisa chega a comunidades indígenas do RN

Além do desenvolvimento tecnológico, o projeto realiza atividades de campo para coletar dados e ampliar o acesso aos serviços de saúde auditiva. As ações incluem comunidades tradicionais e povos originários, onde parte da população tem dificuldades para chegar aos atendimentos especializados.

Entre setembro e outubro deste ano, professores e estudantes de pós-graduação vinculados ao Ouvir Brasil participaram de atividades humanitárias e capacitações com a professora visitante Fulbright na UFRN, King Chung, referência internacional em audiologia humanitária. 

Projeto Ouvir Brasil. Foto: Divulgação/Projeto
Projeto Ouvir Brasil. Foto: Divulgação/Projeto

Uma das ações ocorreu na Aldeia Tapará, também conhecida como Lagoa do Tapará, território do povo indígena Tapuia Tarairiú localizado entre Macaíba e São Gonçalo do Amarante, na Grande NATAL. Aproximadamente 60 pessoas, entre adultos e crianças, passaram por triagens auditivas.

Moradores receberam exames e aparelhos auditivos

Durante a ação, os pesquisadores realizaram exames, orientaram os moradores e identificaram pessoas com diferentes graus de perda auditiva. Por meio da parceria com a Fulbright Brasil, foram disponibilizados aparelhos auditivos para participantes que apresentaram necessidade de utilizar essa tecnologia. Eles também passaram a ser acompanhados pela equipe de pesquisa.

Rede reúne universidades e busca fortalecer o SUS

A Rede Reab.LITA reúne pesquisadores da UFRN, da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS), campus Lagarto. A iniciativa integra projetos vinculados à Rede SisAssistiva, com participação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Finep e do Ministério da Saúde.

Um dos objetivos é ampliar o rastreamento auditivo em escolas, unidades básicas de saúde e comunidades vulneráveis, contribuindo para melhorar os encaminhamentos e otimizar os recursos públicos. Além de oferecer testes, a plataforma deverá reunir informações que ajudem a compreender a realidade da saúde auditiva brasileira. 

Classificação Indicativa: Livre


TagsSaúdeSusUfrnOuvir Brasil