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Publicado em 25/11/2025, às 13h05 © Fernando Frazão/Agência Brasil Giovana Gurgel
O desembarque de Pedro Álvares Cabral pode ter ocorrido no litoral do Rio Grande do Norte, segundo um estudo publicado em setembro pelo Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge.
A proposta revisita a interpretação tradicional que situa a chegada da frota em Porto Seguro, na Bahia, e recoloca o RN no centro das discussões sobre o "descobrimento" do Brasil.
A pesquisa foi conduzida pelos físicos Carlos Chesman, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Carlos Furtado, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que analisaram dados presentes na carta de Pero Vaz de Caminha e os compararam com informações contemporâneas sobre navegação, ventos e correntes marítimas.
Para os autores, as descrições como o “grande monte, mui alto e redondo” e a foz de um rio se ajustam melhor ao monte Serra Verde, em João Câmara, e ao rio Punaú, em Rio do Fogo.
A distância percorrida pela frota desde Cabo Verde também reforçaria a hipótese potiguar. Segundo Chesman, os cerca de 4.000 quilômetros citados na documentação batem com o trajeto estimado pelos físicos, que consideraram variáveis ambientais como correntes e ventos.
Os pesquisadores argumentam que o desembarque mencionado no dia seguinte teria acontecido na região da atual praia do Marco, entre São Miguel do Gostoso e Pedra Grande, área que já possui registros históricos portugueses datados de 1501 e defendida por estudiosos potiguares há décadas.
Chesman afirma que a tradição intelectual do RN motivou o estudo, que começou durante a pandemia. Ele organiza um colóquio científico para o próximo ano, no estado, para ampliar o debate. A proposta, no entanto, não é consenso entre especialistas.
A historiadora Ana Hutz, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pondera que o estudo não dialoga com parte importante da literatura já consagrada, como pesquisas que reafirmaram Porto Seguro com base em cartografias e análises náuticas.
Entre as referências clássicas está o trabalho do almirante Max Justo Guedes, que refez a rota da frota em 1975.
Outra pesquisadora, Juliana Gesueli, da PUC-Campinas, avalia que ainda faltam evidências que justifiquem uma revisão do que é ensinado nas escolas. Ela afirma que mudanças dessa natureza costumam levar décadas e dependem de uma base de dados robusta.
A investigação catalogou dados numéricos da carta de Caminha e reconstituiu a trajetória da frota entre 23 de março, data de saída de Cabo Verde, e 21 de abril, quando terra foi avistada. No dia 22, os navegadores registraram ver uma “serra mui alta e redonda” a cerca de 30 a 40 quilômetros da costa.
Para testar a hipótese, expedições foram feitas no litoral potiguar, especialmente na região de Maxaranguape. Em uma das etapas, três montanhas foram visíveis a cerca de 30 quilômetros da costa, como relatado no século 16. O registro fotográfico permitiu um estudo topográfico que identificou o monte Serra Verde como provável Monte Pascoal.
O estudo conclui ainda que o primeiro contato com indígenas teria ocorrido na praia de Zumbi e que uma ventania posterior levou a frota ao norte, resultando em novo desembarque na área da atual praia do Marco.
Chesman destaca que a pesquisa mostra como diferentes áreas do conhecimento podem dialogar. Ele ressalta que, ao empregar métodos da física, o estudo amplia a interpretação de fatos históricos.
Para Hutz, o debate é positivo e necessário, já que a história deve estar aberta a revisões. Gesueli concorda que o diálogo interdisciplinar é bem-vindo, embora considere que a metodologia ainda precisa se aproximar mais das práticas historiográficas.
“Isso abre novas janelas”, afirma a pesquisadora, que também reconhece a necessidade de maior integração entre as áreas para avançar em debates como esse.
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