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Maior refúgio ambiental do RN nasce como esperança para bioma ameaçado

Missão do Refúgio de Vida Silvestre Serra das Araras é salvar a fauna e flora da Caatinga, ameaçadas pela desertificação e desmatamento  |  Reprodução/IDEMA

Publicado em 09/05/2026, às 06h00   Reprodução/IDEMA   Anderson Barbosa

O Rio Grande do Norte comemora a criação do Refúgio de Vida Silvestre Serra das Araras, que surge como uma esperança: salvar a fauna e a flora que compõem a Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro e que está severamente ameaçado de desaparecer por causa do avançado estado de desertificação e da extração desenfreada de madeira. 

Com uma área de mais de 12 mil hectares, o REVIS Serra das Araras é o maior do estado. É tão grande que abrange quase que por completo os municípios de Cerro Corá, São Tomé e Currais Novos, na região Seridó.

Mapa mostra a localização do REVIS Serra das Araras, no Seridó potiguar

A criação da unidade aconteceu no final do mês passado, em celebração pelo Dia da Caatinga (28 de abril). Nasceu de uma parceria do poder público, por meio do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (IDEMA) e UFRN, após proposta de pesquisadores do Projeto Caatinga Potiguar.

Sobre a impotância da unidade, o BNews RN falou com exclusividade com o professor Carlos Roberto, do Departamento de Ecologia (Decol) e integrante do projeto.

"A conservação da biodiversidade potiguar é nossa responsabilidade e temos que criar mecanismos para que ela seja efetivamente protegida".

"O fato de a proposta ter surgido dentro de projetos liderados pelo Departamento de Ecologia e Departamento de Botânica e Zoologia é uma indicação clara de que os pesquisadores e pesquisadoras das universidades públicas desenvolvem pesquisas de grande relevância para a sociedade", destacou.

Quanto à expectativa de recuperação das áreas afetadas pela desertificação e desmatamento da Caatinga, o professor falou que o REVIS é um tipo de unidade de conservação que permite a convivência de atividades econômicas das propriedades particulares com as atividades relacionadas à conservação da fauna e da flora. "Para isso, é importantíssimo um plano de manejo que organize quais atividades podem ser desenvolvidas e aonde. É claro que uma das atividades essenciais é a restauração vegetal de áreas fundamentais para assegurar a existência da ararinha-maracanã e o papagaio-verdadeiro", exemplificou.

Arara-maracanã / Foto: Divulgação/IDEMA

Unidade vai proteger mais de 230 espécies de aves e cactos 

Como já foi dito, a missão é a preservação da fauna e da flora que compõem e vivem na Caatinga. Entre os animais, a proposta é a conservação de mais de 230 espécies de aves, com destaque para o papagaio-verdadeiro e a ararinha-maracanã. O bioma também é habitat de diversos mamíferos. 

Na flora, a vegetação é rica em espécies de cactos, como o mandacaru, o facheiro, a palma e o quipá, além de árvores que perdem as folhas nos períodos de estiagem.

O raio-x da Caatinga e a realidade do bioma no RN

Carlos Roberto também falou sobre estudos realizados pela UFRN sobre a situação da Caatinga, em especial sobre o bioma em território potiguar. "Os estudos demonstram que a Caatinga foi bastante desmatada e as manchas de vegetação que sobraram encontram-se bastante alteradas pelos efeitos de extração de lenha, caça, fogo, rodovias, linhas de transmissão e aerogeradores", revelou.

Ainda segundo o professor, o Projeto Caatinga Potiguar demonstrou que diversas espécies de mamíferos não existem mais no RN ou que suas populações são extremamente pequenas.

"Onças pintadas não existem mais, enquanto onças pardas e porcos selvagens são praticamente inexistentes".

Apesar dos avanços recentes, Carlos Roberto ressalta o governo do Rio Grande do Norte e o governo federal ainda têm um grande caminho pela frente para que a rede de Unidades de Conservação do RN possa assegurar a conservação da biodiversidade potiguar.

Na flora da Caatinga, a vegetação é rica em espécies de cactos / Foto: IDEMA

RN está entre os estados mais afetados

Em meados de 2025, o BNews RN entrevistou o então superintendente do IBAMA no estado, o professor Rivaldo Fernandes. Na ocasião, ele já alertava quanto ao avançado estágio de desertificação da Caatinga no Rio Grande do Norte, em especial na região Seridó.

"No Brasil, temos cinco áreas em avançado estado de desertificação. Uma delas está no RN, com o clima igual do Saara”. 

De acordo com o MapBiomas -- rede colaborativa formada por ONGs, universidades e empresas de tecnologia que mapeiam o uso e cobertura da terra no Brasil desde 1985 -- todos os estados nordestinos continuam perdendo áreas naturais da Caatinga.

Os estados com maior proporção de áreas naturais são Piauí (82%), Ceará (68%), Pernambuco (60%), Bahia (58%) e Paraíba (56%). Os estados com menor proporção de áreas naturais no ano passado foram Minas Gerais (50%), Rio Grande do Norte (50%), Alagoas (27%) e Sergipe (24%).  

Apenas 10% do território da Caatinga está protegido por Unidades de Conservação (8,2 milhões de hectares).

Desertificação da Caatinga é preocupante

Desertificação no Seridó já foi destaque no ‘The New York Times’

A desertificação é um tema tão alarmante quanto conhecido. Em 2021, O Rio Grande do Norte foi destaque em um dos principais jornais do mundo, o americano The New York Times.

Na capa, a foto de uma olaria em Parelhas, no Seridó potiguar, como exemplo de uma transformação em câmara lenta de um "Nordeste fértil" em deserto, como citou o Instituto Humanas Unisinos.

The New York Times destacou a desertificação no Seridó potiguar

Município vizinho, Carnaúba dos Dantas também foi citado. Na reportagem, um correspondente pôde presenciar, nas duas cidades, um processo de desertificação que se agrava em todo o planeta. "É um desastre natural", afirmou.

A reportagem mergulhou na história da produção de telhas através das cerâmicas, explicando que o processo de fabricação, utilizando água, madeira e argila, todas matérias-primas escassas, contribui para a desertificação.

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