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Publicado em 21/12/2025, às 06h00 Imagem criada pela Meta IA Bnews Natal
A oferta cada vez maior de cursos de Medicina e uma consequente carência na oferta de vagas para a residência médica -- tão essencial para a formação de bons médicos -- vêm se tornando pautas recentes de artigos, pesquisas e reportagens na mídia. A discussão também tem sido tema recorrentemente de posicionamentos feitos por entidades de classes, como a Associação Médica Brasileira (AMB).
Para se ter uma ideia mais ampla do que está acontecendo, vamos a um dado preocupante: no Brasil, estimativas recentes apontam para quase 500 escolas médicas, oferecendo mais de 50 mil vagas anuais, o que fazem do Brasil o segundo país com mais cursos no mundo, atrás apenas da Índia.
No Rio Grande do Norte, que por décadas contou apenas com a Universidade Federal (UFRN), hoje são sete as portas de entrada para a formação médica. No estado, é possível estudar Medicina na UFRN, UERN, UFERSA, UnP, Facene/RN, Itpac e, mais recentemente, na Uni-RN.
O BNews Natal procurou o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern) desde a semana passada, quando solicitou um posicionamento a respeito do assunto, mas até o fechamento desta reportagem não houve resposta.
O crescimento acelerado das faculdades de medicina no Brasil vem produzindo um efeito colateral cada vez mais evidente: um sistema que forma mais médicos, mas que não garante a qualificação necessária para o exercício seguro da profissão.
O descompasso entre a expansão da graduação e a oferta limitada de vagas em programas de residência médica — etapa considerada essencial para a formação de especialistas — tem levado milhares de profissionais para o mercado de trabalho, mas sem o preparo adequado. Conclusão? Mais riscos aos pacientes e mais custos ao sistema de saúde.
Entre 2010 e 2023, o número de escolas médicas no país mais que dobrou, saltando de cerca de 180 para mais de 370.
Dados da Associação Médica Brasileira (AMB) indicam que apenas 27% dos médicos brasileiros completaram residência médica. A maioria ingressa diretamente no mercado após a graduação, muitas vezes sem a vivência hospitalar necessária para consolidar o raciocínio clínico e a tomada de decisão segura.
Com o acesso restrito à residência, cresce a procura por cursos de pós-graduação lato sensu, que não concedem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) e têm baixo nível de regulamentação. Esses cursos independem de aprovação do MEC, podem ser presenciais, híbridos ou a distância e exigem carga mínima de apenas 360 horas.
Até 2024, havia 2.148 cursos lato sensu ativos na área médica, sendo 41,2% na modalidade a distância.
O Brasil soma hoje mais de 240 mil médicos sem registro de especialização — o maior número da história.
César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), disse na semana passada, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, que médicos não especialistas que atuam em uma especialidade provavelmente não têm a formação necessária.
“Atuar sem a formação exigida expõe os pacientes a risco”, afirmou o presidente.
O problema se agrava diante da lentidão na expansão das vagas de residência. Entre 2018 e 2024, por exemplo, as vagas de graduação em medicina cresceram 25%, enquanto as oportunidades de residência avançaram apenas 9%.
Em 2024, ainda de acordo com dados da ABM, havia cerca de 50 mil vagas anuais autorizadas para a graduação, contra apenas 24 mil vagas para o primeiro ano da residência médica.
A última edição do Exame Nacional de Residência (Enare), realizado em outubro deste ano, registrou 87 mil inscritos para aproximadamente 6 mil vagas.
Em algumas especialidades, a concorrência é extrema: medicina esportiva teve 59 candidatos por vaga, seguida por otorrinolaringologia (51,3) e neurocirurgia (48). Outras áreas, como radioterapia, enfrentam baixa procura, com vagas ociosas.
Entre 1990 e 2019, o número de pacientes lesionados por falhas médicas cresceu 59% no mundo, segundo a revista BMJ Quality & Safety. Em países em desenvolvimento, até 83% desses danos seriam evitáveis com melhor capacitação profissional e protocolos adequados.
Erros diagnósticos também figuram entre os principais gargalos da medicina moderna. O Institute of Medicine, dos Estados Unidos, aponta a falta de conhecimento e experiência clínica como causa central de diagnósticos tardios. Quanto maior a demora no tratamento, maior o risco de complicações, sequelas e morte.
O custo do despreparo médico é elevado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 10% dos pacientes sofrem algum tipo de dano durante o cuidado hospitalar, e que cerca de 3 milhões de mortes por ano poderiam ser evitadas com práticas seguras.
No Brasil, a OMS divulgou um relatório alarmante sobre o aumento global de erros médicos. Segundo o Anuário de Segurança Assistencial Hospitalar, publicado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) em 2024, cinco pessoas morrem a cada minuto no país devido a erros médicos, totalizando quase 55 mil pacientes por ano.
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