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Publicado em 17/09/2026, às 17h19 Foto 1: Reprodução / Foto 2: Blog Professor Canindé Jussier Lucas
Uma cidade potiguar que desapareceu sob as águas de uma barragem ajudou a dar origem a uma história que agora pode chegar ao Oscar. A memória de São Rafael, no Oeste do Rio Grande do Norte, está entre as referências que deram forma ao roteiro de Feito Pipa, escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.
Por trás da história está o roteirista cearense André Araújo, de 35 anos, que teve contato com o episódio ainda durante a graduação em Comunicação Social na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em Mossoró. Foi naquele período que ele conheceu relatos sobre a antiga cidade e os impactos provocados pela construção da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves.
A experiência despertou no roteirista uma inquietação que permaneceu por anos. Em 2019, André retomou a lembrança da antiga São Rafael e começou a desenvolver o projeto que mais tarde se transformaria em Feito Pipa. O longa foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema na quarta-feira (16) para representar o país na seleção do Oscar.
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Durante a universidade, André e a colega Ceiça Guilherme produziram um trabalho de caráter documental sobre São Rafael. A pesquisa buscava compreender não apenas as mudanças provocadas pela inundação, mas também os efeitos subjetivos e simbólicos da perda da cidade para quem precisou deixá-la.
Os relatos colhidos durante esse período permaneceram na memória do roteirista. Entre as imagens que mais o marcaram estava a antiga igreja de São Rafael, posteriormente encoberta pelas águas.
A lembrança acabou encontrando espaço na ficção. Embora Feito Pipa seja ambientado no interior do Ceará, a narrativa trabalha justamente com temas como memória, perda e as marcas deixadas por transformações que atingem uma comunidade.
No filme, Gugu, um garoto de 12 anos criado pela avó, Dilma, vive uma relação de proximidade com a professora aposentada. A situação muda quando ela passa a enfrentar o avanço do Alzheimer e o menino corre o risco de voltar a morar com o pai, Batista, com quem mantém uma relação distante.
A própria transformação da paisagem se conecta à história de Dilma. Com a redução das águas de uma barragem, a antiga cidade volta a aparecer, despertando lembranças que se misturam ao processo de perda de memória enfrentado pela personagem.
Natural de Russas, no Ceará, André escolheu Mossoró para estudar pela proximidade entre as duas cidades. Durante a formação em Comunicação Social, com habilitação em Rádio, TV e Internet, concluída em 2010, ele começou a experimentar a produção audiovisual.
Além de ter vivido em Mossoró, o roteirista também morou durante alguns anos em Umarizal, no Oeste potiguar. A relação com o estado permaneceu ao longo dos anos, inclusive por meio da família, já que a avó que o criou vive em Mossoró.
A trajetória no cinema também inclui a parceria com o diretor Allan Deberton. Os dois trabalharam juntos em outros projetos, entre eles Pacarrete, filme premiado no Festival de Gramado.
Feito Pipa chega ao Oscar após conquistar reconhecimento internacional. O longa recebeu dois prêmios no Festival Internacional de Cinema de Berlim, incluindo o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus.
Agora, a produção será submetida à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que definirá os cinco filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional. A cerimônia do Oscar 2027 está marcada para 14 de março.
Antes disso, o público brasileiro poderá conferir o filme nos cinemas. Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton e estrelado por Lázaro Ramos, Yuri Gomes e Teca Pereira, tem estreia prevista para 5 de novembro.
A escolha para representar o Brasil não garante, por si só, uma indicação ao Oscar. O longa ainda precisa passar pela próxima etapa de avaliação da Academia.