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Cidades

UFRN explica riscos da bactéria do detergente Ypê; saiba como age o microrganismo e quais são grupos mais vulneráveis a infecção

Pesquisadores da UFRN estudam a bactéria Pseudomonas aeruginosa, encontrada em detergentes YPÊ, e suas implicações para a saúde  |  Agecom/Anvisa

Publicado em 19/05/2026, às 11h22   Agecom/Anvisa   Elí Bernardo

A polêmica envolvendo o uso de detergentes YPÊ e a bactéria presente em produtos com o lote final 1, alertados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que suspendeu, no último dia 7 de maio, a fabricação, comercialização, distribuição e venda de produtos da marca, continua repercutindo em todo o país, especialmente no Rio Grande do Norte, onde existe um suposto caso suspeito para a bactéria.

Pois bem, dessa vez a ciência entrou em ação e pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) estão estudando a bactéria Pseudomonas aeruginosa, encontrada pela Anvisa em produtos como detergentes, sabões líquidos e desinfetantes de todos os lotes com numeração final 1.

Bactéria Pseudomonas aeruginosa está presente em diversos ambientes, principalmente hospitalar e lugares úmidos e aquáticos - UFRN

A Agência informou que identificou falhas graves nas boas práticas de fabricação da Química Amparo, fabricante da marca, em sua unidade de Amparo, em São Paulo (SP).

Foram encontrados nos produtos a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa, um microrganismo bastante reconhecido no ambiente hospitalar, classificado como multirresistente a antibióticos e considerado uma ameaça à saúde pública pelo Ministério da Saúde (MS).

O que dizem as pesquisas da UFRN sobre a bactéria?

A Pseudomonasaeruginosa é um microrganismo presente em praticamente todos os lugares, especialmente os úmidos e aquáticos, como água, piscinas, torneiras e sistemas de abastecimento.

Ela carrega características que a tornam particularmente perigosa em determinadas condições.

O professor Rafael Wesley Bastos, integrante do Programa de Pós-Graduação em Biologia Parasitária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPGBP/UFRN) e vice-coordenador do Grupo de Estudo e Ações em Saúde Única (Geasu-RN), informou ao BNews RN, que o que torna essa bactéria especialmente preocupante é uma combinação de fatores raramente observada em outros microrganismos.

A bactéria desenvolveu mecanismos para escapar de um grande número de antibióticos, além da ação de desinfetantes e antissépticos.

A Pseudomonas é resistente a desinfetantes e, justamente por isso, a gente se preocupa dela estar presente nesses produtos, porque ela sobrevive — coisas que outras bactérias normalmente não conseguem”, afirmou.
Bactéria preocupa especialistas pela resistência a antibióticos e saneantes - AGECOM UFRN

Essa bactéria é amplamente estudada na UFRN. Em pesquisas recentes do professor Rafael Bastos, publicadas no periódico Frontiers in Fungal Biology, foi revelado que ela também pode inibir o crescimento do Candida auris, o superfungo multirresistente incluído pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na lista de patógenos fúngicos prioritários.

Esse duplo perfil, ao mesmo tempo, agente de infecções graves e potencial inibidor de outros patógenos, evidencia a complexidade do microrganismo e a relevância de seu estudo.

O docente ressaltou ainda que a Pseudomonas aeruginosa não é a única bactéria capaz de sobreviver ao contato com produtos de limpeza, mas é uma das principais, e por isso é monitorada de forma específica nesses produtos após a fabricação.

Riscos da Pseudomonas aeruginosa

O impacto da bactéria varia de acordo com o estado imunológico de cada pessoa.

Segundo o professor Rafael, embora pacientes imunossuprimidos, como pacientes com câncer, com HIV/Aids sem controle adequado ou em tratamento com corticoides sejam mais vulneráveis, isso não significa que pessoas saudáveis estejam livres de riscos.

Ela pode causar infecções em pessoas sem debilidade no sistema imunológico”, alertou.

As formas e vias de infecção são variadas. A bactéria pode penetrar por ferimentos ou lesões na pele e se multiplicar no local. Segundo o professor, até o contato com água quente contaminada pode abrir caminho para a infecção.

O calor pode causar microfissuras na pele, por onde o microrganismo encontra entrada. Nesse caso, ela pode provocar foliculite, que é uma inflamação nos folículos capilares, que são pequenos mini-órgãos em formato de bolsa na pele que produzem, protegem e impulsionam o crescimento dos fios.

Para além disso, se a bactéria atingir os olhos, especialmente em pessoas que usam lentes, pode causar infecção ocular. Assim como o contato com os ouvidos pode resultar em otite (infecção no ouvido).

Em pessoas imunossuprimidas, a Pseudomonas pode se alojar na bexiga ou nos rins, provocando infecção urinária. Nos casos mais graves, conforme explica o professor, a Pseudomonas pode levar a quadros de febre e até sepse, infecção generalizada potencialmente fatal.

Um dos maiores desafios impostos pela Pseudomonas aeruginosa é sua capacidade de persistência em ambientes industriais.

A bactéria também é conhecida pela formação de biofilmes, estruturas viscosas que aderem a tubulações, reservatórios e equipamentos, o que dificulta sua eliminação, mesmo após processos de limpeza e desinfecção.

O que o consumidor deve fazer ?

Após o recolhimento dos produtos, surge uma dúvida prática: o que fazer com as embalagens que já estão em casa?

O professor Rafael reforça que o descarte no lixo comum, na pia ou no vaso sanitário está fora de questão.

O produto pode contaminar esses locais com a bactéria. O correto é entrar em contato com o serviço de atendimento ao consumidor da empresa, requisitando o seu recolhimento”, orientou.

Os corpos d’água e ambientes úmidos são condições ideais para a bactéria sobreviver e se multiplicar. Em razão disso, o descarte inadequado de grandes volumes do produto contaminado poderia contribuir para a dispersão do microrganismo em rios, lagos e sistemas de abastecimento, ampliando o raio de exposição.

O que diz a YPÊ?

Em nota, a Ypê informou que “em alinhamento com a Anvisa e devido ao foco na satisfação dos nossos consumidores, a Ypê seguirá atendendo em seus canais oficiais todos aqueles que ainda preferirem efetuar a troca ou obter o ressarcimento pelos produtos adquiridos”.

Caso suspeito no RN

Uma menina de 10 anos, chamada Maria Clara, foi internada no Hospital Varela Santiago, com suspeita de infecção pela bactéria Pseudomonas, após ter lavado as mãos no último dia 6 de maio. Segundo a família, ela estava com um corte nas mãos no dia do suposto contato com o detergente YPÊ.

Classificação Indicativa: Livre


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