Cidades
Publicado em 08/12/2025, às 10h47 Homens jovens são os mais afetados, com 61,3% das internações por transtornos mentais, evidenciando a necessidade de apoio. - Agência Brasil Dani Oliveira
Um novo estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela um cenário crítico da saúde mental da juventude brasileira. Segundo o levantamento, jovens de 15 a 29 anos apresentam maior risco de suicídio que a média nacional: são 31,2 casos por 100 mil habitantes, contra 24,7 na população geral.
Entre os homens jovens, a taxa sobe para 36,8. Mas é entre os povos indígenas que a situação se torna dramática.
O relatório — o 2º Informe Epidemiológico sobre a Situação de Saúde da Juventude Brasileira — elaborado pela Agenda Jovem Fiocruz e pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, destaca que “o suicídio é um problema de saúde sobretudo entre a juventude indígena”, grupo que registra a maior taxa do país: 62,7 mortes por 100 mil habitantes.
Jovens indígenas enfrentam índices sem precedentes
O recorte por idade e gênero mostra números ainda mais graves:
• Homens indígenas entre 20 e 24 anos: 107,9 suicídios por 100 mil habitantes
• Mulheres indígenas entre 15 e 19 anos: 46,2 suicídios por 100 mil habitantes
Para a pesquisadora Luciane Ferrareto, aspectos culturais, discriminação e a demora no atendimento de saúde reforçam a vulnerabilidade desses jovens.
Ela ressalta:
Os indígenas hoje têm muito acesso à informação, mas ainda há muito preconceito contra eles na sociedade.”
Internações por saúde mental crescem entre jovens — especialmente homens
Entre 2022 e 2024, a pesquisa traçou o perfil de internações, mortalidade e atendimentos em saúde mental de jovens atendidos na Atenção Primária à Saúde (APS). Os números mostram que:
• 61,3% das internações por transtornos mentais envolvem homens jovens.
• A taxa masculina chega a 708,4 internações por 100 mil, 57% maior que a das mulheres (450).
• Menos da metade desses jovens mantém acompanhamento psicológico ou médico após alta hospitalar.
O abuso de substâncias psicoativas é o principal motivo das internações masculinas:
• 38,4% por múltiplas drogas
• 13,2% por cocaína
• 11,5% por álcool
Entre as mulheres, a depressão lidera as causas. A pesquisadora explica que fatores sociais e culturais alimentam o problema.
A pressão por uma masculinidade baseada em força, autocontrole e silêncio emocional impede muitos jovens de buscarem apoio.
A instabilidade financeira, empregos precários e a sensação de fracasso social levam ao uso de drogas como escape”, afirma Ferrareto.
Mulheres jovens adoecem pela violência e pela sobrecarga
O relatório também aponta fatores que agravam o adoecimento mental das mulheres:
• Violência física ou sexual na adolescência
• Abandono escolar e laboral para cuidados domésticos
• Falta de políticas públicas de acolhimento
• Relações abusivas e assédio no trabalho
As jovens, especialmente entre 22 e 29 anos, podem ter que abandonar estudo e trabalho para cuidar de filhos ou parentes, sem rede de apoio”, explica a pesquisadora.
Atendimentos em saúde mental ainda são insuficientes
Apesar da gravidade do quadro, apenas 11,3% dos atendimentos de jovens nas unidades de saúde são voltados à saúde mental — menos da metade da proporção registrada na população geral (24,3%).
A taxa de internação entre jovens chega a 579,5 por 100 mil habitantes, aumentando ainda mais nos grupos de:
• 20 a 24 anos → 624,8
• 25 a 29 anos → 719,7
Ambas superam a taxa da população adulta acima dos 30 anos (599,4).
Para André Sobrinho, coordenador da AJF, os jovens ficam desamparados:
Muitas vezes os jovens, a sociedade e o Estado agem como se eles tivessem que aguentar qualquer coisa exatamente por serem jovens.”
Metodologia do estudo
O informe analisou:
• Internações hospitalares
• Óbitos relacionados à saúde mental
• Atendimentos na APS
• Dados do Censo 2022 do IBGE
• Registros do SUS entre 2022 e 2024
Onde buscar ajuda
Qualquer pessoa com pensamentos suicidas deve procurar acolhimento imediato. O Ministério da Saúde reforça a importância de conversar com alguém de confiança e buscar atendimento profissional.
Centro de Valorização da Vida (CVV)
188 — atendimento gratuito e sigiloso, 24 horas
Chat, e-mail e VoIP disponíveis em todo o país
Serviços de saúde que prestam atendimento:
• Centros de Atenção Psicossocial (Caps)
• Unidades Básicas de Saúde
• UPA 24h, SAMU 192 e prontos-socorros
• Hospitais com atendimento em saúde mental