Cidades
Publicado em 20/10/2026, às 10h19 Reprodução: Internet Redação
O Rio Grande do Norte passou a contar com quatro novos bens reconhecidos como patrimônios estaduais, ampliando o conjunto de referências naturais, paisagísticas e culturais que representam a identidade potiguar.
A medida, publicada no Diário Oficial do Estado (DOE), contempla a Barra do Cunhaú, em Canguaretama; os Cânions dos Apertados, em Currais Novos; as Rendeiras de Bilros da Vila de Ponta Negra, em Natal; e o Carnaval da Cobra, em Parelhas. O reconhecimento entrou em vigor na última sexta-feira (16).
A iniciativa abre novas perspectivas para a valorização desses lugares e manifestações tradicionais, com potencial para fortalecer a preservação ambiental, a memória coletiva e o turismo em diferentes regiões do estado.
Representantes das comunidades, gestores municipais e órgãos estaduais destacam a importância da medida, mas também apontam a necessidade de transformar o reconhecimento oficial em ações concretas de conservação, divulgação e apoio às populações envolvidas.
Conheça os quatro novos patrimônios do Rio Grande do Norte
Os bens reconhecidos representam diferentes dimensões da riqueza natural e cultural potiguar. A lista inclui paisagens de interesse turístico, técnicas artesanais transmitidas entre gerações e uma manifestação popular ligada à identidade de uma comunidade.
A inclusão desses bens no patrimônio estadual reforça a diversidade de atrativos do Rio Grande do Norte e pode contribuir para ampliar a visibilidade de destinos e tradições que possuem importância para suas comunidades.
Rendeiras de Ponta Negra celebram reconhecimento da tradição
Em Natal, o reconhecimento das Rendeiras de Bilros da Vila de Ponta Negra foi recebido como uma conquista para a preservação de um saber tradicional que atravessa gerações. Jane Edna, vice-presidente da Associação das Rendeiras de Ponta Negra, destacou a relação entre a atividade artesanal, a ancestralidade das trabalhadoras e a história da antiga vila de pescadores.
“A gente recebe esse reconhecimento com muita alegria e satisfação. Cada rendeira tem uma história e ancestralidade próprias, ao mesmo tempo em que carrega a cultura da Vila de Ponta Negra desde a época em que éramos uma vila de pescadores. É uma medida que nos fortalece e ajuda a levar nossa tradição para todo o RN”, afirma.
Atualmente, 68 rendeiras estão em atividade na região. Desse total, sete vieram de outras áreas de Natal e até mesmo de municípios do interior. O grupo se reúne no Memorial das Rendeiras, localizado na Rua Vereador Manoel Coringa de Lemos, em Ponta Negra, onde a tradição artesanal permanece ligada à história e à identidade da comunidade.
Apesar da conquista, a associação espera que a medida também contribua para melhorar as condições de trabalho e de atendimento ao público. Entre as principais reivindicações estão a implantação de um espaço próprio, com acessibilidade e conforto térmico, e a criação de um ambiente permanente de preservação da memória das rendeiras.
“Na prática, nós esperamos conseguir, além do reconhecimento, um espaço adequado para nossas rendeiras, com acessibilidade e conforto térmico. Hoje esse espaço funciona na casa da minha avó, mas nós gostaríamos de um local que pertencesse, de fato, à associação. Nosso desejo é fazer do espaço atual um museu, um ponto de memória”, descreve Jane Edna.
Natal quer incluir artesanato de bilro nos roteiros turísticos
A Secretaria Municipal de Turismo de Natal considera que o reconhecimento fortalece a identidade cultural da capital e ajuda a preservar uma técnica artesanal transmitida entre gerações. Para o secretário de Turismo, Sanclair Solon, a medida também contribui para ampliar o vínculo entre a população e suas referências culturais.
“Na Setur Natal, entendemos que essa valorização representa uma oportunidade de desenvolver o turismo de forma sustentável, conectando os visitantes à história, à cultura e às pessoas que fazem parte da identidade do destino”, pontua.
Segundo o secretário, a pasta possui um projeto de Turismo de Base Comunitária em andamento para ampliar a presença das rendeiras nas iniciativas de promoção turística da cidade. A proposta é aproximar os visitantes das pessoas que mantêm viva essa tradição e criar oportunidades para integrar o artesanato às experiências oferecidas aos turistas.
“Nosso objetivo é integrar o artesanato de bilro aos roteiros e às experiências oferecidas aos visitantes. Queremos que o turista conheça a riqueza cultural e humana que torna Natal um destino único”, disse Sanclair Solon.
A iniciativa pode contribuir para dar maior visibilidade ao trabalho das artesãs, aproximando a produção cultural da atividade turística. Para a associação, no entanto, a valorização também depende de melhores condições de funcionamento e de um espaço que permita preservar e transmitir o conhecimento às próximas gerações.
Cânions dos Apertados podem ganhar mais visibilidade turística
Em Currais Novos, o reconhecimento dos Cânions dos Apertados é visto pela administração municipal como uma oportunidade de ampliar a divulgação do atrativo e estimular atividades econômicas ligadas ao turismo. A expectativa é associar a nova condição de patrimônio a iniciativas de preservação ambiental, educação e desenvolvimento sustentável.
Em nota, a Prefeitura informou que pretende intensificar a promoção do geossítio nas estratégias de divulgação turística do município. A gestão também pretende estimular parcerias com os governos estadual e federal, instituições e representantes do setor turístico para ampliar o fluxo de visitantes.
A partir dessa conquista, a Prefeitura pretende fortalecer as ações de divulgação do geossítio, ampliar presença nas estratégias de promoção turística de Currais Novos e incentivar iniciativas que integrem turismo, educação ambiental, preservação e desenvolvimento sustentável. A gestão também considera importante fortalecer parcerias com os governos estadual e federal, instituições e o setor turístico para estimular o fluxo de visitantes”, escreveu a Prefeitura em nota.
A perspectiva é que a valorização dos Cânions dos Apertados contribua para consolidar Currais Novos como destino de turismo de natureza, ao mesmo tempo em que estimule ações de proteção do patrimônio ambiental e de conscientização sobre sua importância.
Carnaval da Cobra reforça tradição cultural de Parelhas
Em Parelhas, o reconhecimento do Carnaval da Cobra representa um marco para uma manifestação popular que integra a identidade cultural do município. A Prefeitura atribuiu a conquista às ações de valorização desenvolvidas pela administração municipal nos últimos anos, especialmente durante a retomada das atividades após a pandemia de Covid-19.
Em comunicado, a gestão afirmou que o reconhecimento “coroa a política pública contínua de valorização implementada ao longo dos últimos seis anos, intensificada expressivamente no período de retomada pós-pandemia, a partir de fevereiro de 2023”.
A Prefeitura também ressaltou o compromisso de manter o apoio à manifestação, com previsão de aporte financeiro contínuo, suporte logístico, incentivo às atrações musicais e fomento às apresentações artísticas e culturais do povoado.
A oficialização como patrimônio cultural e imaterial reforça a importância de preservar manifestações populares que ajudam a contar a história das comunidades. A continuidade dessas iniciativas depende tanto da participação dos moradores quanto de políticas públicas capazes de garantir condições para a realização e a transmissão das tradições.
Setur/RN vê potencial para diversificar o turismo estadual
A Secretaria de Turismo do Rio Grande do Norte (Setur/RN) avalia que o reconhecimento dos quatro bens amplia as possibilidades de divulgação do estado e fortalece diferentes segmentos da atividade turística. Em nota, a pasta destacou que os patrimônios representam a variedade de paisagens, manifestações culturais e tradições que compõem a identidade potiguar.
Do ponto de vista turístico, esse reconhecimento amplia as possibilidades de diversificação da nossa oferta, fortalecendo segmentos como o turismo de natureza, o turismo cultural e de experiência”, informou a secretaria.
Para o órgão estadual, o desafio agora é transformar o reconhecimento oficial em benefícios efetivos para os locais e as comunidades contempladas. Isso envolve ações de estruturação dos atrativos, qualificação dos serviços turísticos e fortalecimento das iniciativas de divulgação.
“A estratégia passa pela articulação entre o poder público, os municípios, o trade turístico e as comunidades, com foco na estruturação dos atrativos, na qualificação dos serviços e na valorização das pessoas que mantêm vivas essas tradições. Também é fundamental ampliar a divulgação desses patrimônios nos canais de promoção turística do estado, em feiras, campanhas e ações voltadas aos mercados nacional e internacional”, esclareceu a Setur/RN.
A articulação entre os diferentes setores é considerada importante para que os novos patrimônios sejam incorporados às estratégias de promoção do destino Rio Grande do Norte, sem deixar de lado a preservação ambiental e o respeito às comunidades responsáveis pela manutenção dessas referências.
Fundação José Augusto destaca necessidade de preservação efetiva
O diretor-geral da Fundação José Augusto (FJA), Gilson Matias, avaliou que o reconhecimento representa um avanço para a valorização da memória, da identidade e da diversidade cultural e ambiental do estado. Ele ressaltou, porém, que a oficialização de um bem como patrimônio precisa ser acompanhada de medidas que garantam sua preservação ao longo do tempo.
Segundo o dirigente, o processo de reconhecimento deve estar fundamentado em pesquisas que demonstrem a relevância histórica e tradicional do bem, seja ele material ou imaterial.
“O reconhecimento precisa representar um valor efetivo para o estado e para suas comunidades. E para tanto, a aprovação de um bem material ou imaterial exige uma pesquisa prévia sobre sua relevância histórica e tradicional”, destacou Gilson Matias.
O diretor-geral também apontou que a condição de patrimônio oficialmente reconhecido pode fortalecer propostas apresentadas a editais culturais, conforme os critérios de cada seleção. Essa possibilidade pode ampliar o acesso a recursos para atividades de pesquisa, documentação, divulgação e continuidade das práticas culturais.
“A condição de patrimônio oficialmente reconhecido pode fortalecer sua apresentação em projetos e propostas submetidos a editais culturais, conforme os critérios de cada seleção, contribuindo para ampliar as possibilidades de acesso a recursos destinados à pesquisa, à documentação, à difusão e à continuidade das práticas culturais. Assim, o desafio é transformar o reconhecimento formal em uma política efetiva de preservação, com responsabilidades institucionais definidas, participação das comunidades envolvidas e condições concretas para que esses patrimônios permaneçam vivos e acessíveis às futuras gerações”, finalizou.
Reconhecimento abre caminho para novas ações de valorização
A inclusão da Barra do Cunhaú, dos Cânions dos Apertados, das Rendeiras de Bilros da Vila de Ponta Negra e do Carnaval da Cobra no patrimônio estadual reúne, em uma mesma iniciativa, referências ambientais, paisagísticas e culturais de diferentes regiões do Rio Grande do Norte.
O próximo passo é fazer com que a medida se traduza em ações de preservação, oportunidades para as comunidades e maior visibilidade turística. As iniciativas apontadas pelos gestores incluem a divulgação dos atrativos, a integração de tradições aos roteiros turísticos, o fortalecimento de parcerias e a busca por recursos para manter essas referências acessíveis às próximas gerações.