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Publicado em 19/10/2026, às 08h59 Reprodução: Internet Redação
Um exame de sangue capaz de identificar alterações biológicas associadas à doença de Alzheimer começou a ser oferecido no Brasil e pode ampliar as possibilidades de investigação de pacientes com sinais de comprometimento cognitivo.
O procedimento está disponível no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), desde 15 de outubro, custa R$ 3.200 na rede privada e utiliza uma amostra de sangue para medir a proteína p-tau217, biomarcador relacionado às alterações cerebrais características da doença.
A novidade representa um avanço na investigação do Alzheimer, especialmente por oferecer uma alternativa menos invasiva a procedimentos como a punção lombar, utilizada para coletar o líquido cefalorraquidiano, e exames especializados de imagem. O teste, entretanto, não é indicado como rastreamento indiscriminado da população nem confirma a doença isoladamente.
A recomendação é que seja utilizado em pacientes com 50 anos ou mais que apresentem sinais e sintomas de declínio cognitivo e estejam sob acompanhamento médico.
O exame recebeu registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em agosto de 2026. Até o momento, segundo o Ministério da Saúde, não houve solicitação formal para avaliar sua incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, o acesso ao procedimento aprovado permanece restrito à rede privada que o disponibiliza.
Como funciona o novo exame de sangue para Alzheimer
O teste, chamado Lumipulse G pTau 217 Plasma, mede a concentração da proteína p-tau217 no plasma sanguíneo. Trata-se de uma forma modificada da proteína tau, encontrada nas células nervosas e associada aos processos biológicos que ocorrem no cérebro de pessoas com Alzheimer.
Uma das características da doença é o acúmulo anormal de proteínas no tecido cerebral, incluindo placas de beta-amiloide e alterações relacionadas à proteína tau. Esses processos estão associados à deterioração progressiva dos neurônios e ao comprometimento de funções como memória, linguagem, raciocínio e orientação.
Ao identificar a p-tau217 no sangue, o exame fornece uma informação biológica que pode ajudar o especialista a avaliar a possibilidade de alterações relacionadas ao Alzheimer. Ele não mede diretamente a perda de memória nem determina, por si só, o grau de comprometimento cognitivo do paciente.
Estudos científicos têm investigado a capacidade dos biomarcadores sanguíneos de identificar alterações características da doença. Uma pesquisa publicada em 2025 na revista Nature Medicine, com 1.767 pessoas que apresentavam sintomas cognitivos, encontrou concordância de aproximadamente 89% a 91% entre o teste estudado e a análise de biomarcadores no líquido cefalorraquidiano quando utilizado um único ponto de corte.
Com dois pontos de corte, a concordância chegou a 92% a 94%, embora uma parcela maior dos resultados tenha ficado inconclusiva. Esses números se referem ao estudo e às condições avaliadas, não devendo ser interpretados como garantia de precisão idêntica para todos os pacientes.
Quem pode fazer o teste e quanto custa
O exame disponível no Hospital Moinhos de Vento é destinado a pessoas com 50 anos ou mais que apresentem sinais de declínio cognitivo e tenham suspeita clínica de Alzheimer. A indicação depende de solicitação médica e da avaliação do histórico e dos sintomas do paciente.
O preço informado é de R$ 3.200. A instituição gaúcha foi apontada como a primeira no país a oferecer o teste com registro na Anvisa.
A autorização sanitária não significa que qualquer pessoa possa realizar o procedimento como parte de um check-up de rotina. Pessoas sem sintomas não fazem parte da indicação aprovada para esse uso. Da mesma forma, queixas isoladas de esquecimento não significam necessariamente que exista Alzheimer.
A decisão de solicitar o exame cabe ao profissional responsável pela investigação. Antes disso, o médico pode avaliar o funcionamento da memória, a capacidade de executar tarefas cotidianas e a presença de outras condições que provoquem sintomas semelhantes.
O exame vai substituir a punção lombar e os exames de imagem?
A possibilidade de investigar alterações relacionadas ao Alzheimer por meio de uma coleta de sangue é uma das principais vantagens da tecnologia.
Tradicionalmente, a investigação de biomarcadores da doença pode exigir a análise do líquido cefalorraquidiano, obtido por punção lombar, ou exames especializados de imagem, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET).
Esses procedimentos têm indicações específicas e podem representar obstáculos para alguns pacientes, seja pela natureza da coleta, pelo custo ou pela disponibilidade dos equipamentos e serviços.
O teste sanguíneo pode simplificar etapas da investigação e ajudar a selecionar pacientes que precisam de exames adicionais. Isso não significa, porém, que todos os procedimentos anteriores serão dispensados. A necessidade de outras avaliações dependerá do quadro clínico, do resultado obtido e da interpretação do especialista.
O resultado também pode ser inconclusivo, situação em que o médico poderá considerar exames complementares ou outras estratégias de acompanhamento. Por isso, a principal contribuição do teste é ampliar as ferramentas disponíveis para a investigação, e não eliminar a necessidade de avaliação clínica.
O que é a doença de Alzheimer
A doença de Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo que compromete a memória e outras funções cognitivas. Com a evolução do quadro, a pessoa pode apresentar dificuldades para realizar atividades cotidianas, comunicar-se, reconhecer ambientes e manter sua autonomia.
A doença ocorre em decorrência de alterações no funcionamento do sistema nervoso central, que provocam a perda progressiva de neurônios em regiões importantes do cérebro. Entre elas está o hipocampo, estrutura relacionada à formação de novas memórias, além de áreas do córtex cerebral envolvidas na linguagem, no raciocínio e na percepção espacial.
O Alzheimer é a forma mais comum de demência associada ao envelhecimento. Embora seja mais frequente em pessoas idosas, não deve ser considerado uma consequência normal de envelhecer. Esquecimentos persistentes e mudanças progressivas na capacidade de pensar ou executar tarefas precisam ser avaliados por um profissional de saúde.
A causa exata da doença ainda não é completamente conhecida. Fatores genéticos, biológicos e relacionados ao envelhecimento estão entre os aspectos estudados pela ciência.
O Ministério da Saúde destaca que a doença pode provocar deterioração cognitiva progressiva e alterações comportamentais, com impacto também sobre familiares e cuidadores.
Quais são os principais sintomas do Alzheimer
A perda de memória recente costuma ser uma das manifestações mais características da doença. No início, a pessoa pode esquecer conversas, repetir perguntas ou ter dificuldade para lembrar compromissos e acontecimentos próximos.
Com a progressão, outros sinais podem surgir. A intensidade e a combinação dos sintomas variam de uma pessoa para outra.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
A presença de um ou mais desses sinais não confirma o diagnóstico. Problemas de memória e concentração também podem estar relacionados a depressão, alterações da tireoide, deficiência de vitamina B12, efeitos de medicamentos e outras condições clínicas. A investigação médica é necessária para identificar a causa dos sintomas e verificar se existe comprometimento cognitivo.
Como é feito o diagnóstico da doença
O diagnóstico do Alzheimer envolve a análise dos sintomas, do histórico clínico e das mudanças observadas na capacidade cognitiva do paciente. A avaliação pode incluir testes de memória, linguagem, atenção e orientação, além de exames físicos, neurológicos e laboratoriais.
O médico também precisa investigar outras doenças que podem provocar declínio cognitivo. Exames de sangue podem ajudar a identificar alterações metabólicas e deficiências nutricionais, enquanto exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética, podem contribuir para avaliar o cérebro e descartar outras causas.
Quando necessário, o especialista pode solicitar exames específicos para investigar biomarcadores relacionados ao Alzheimer. É nesse contexto que o teste de p-tau217 pode ser utilizado como ferramenta complementar.
A interpretação dos resultados deve considerar a probabilidade clínica de a pessoa apresentar a doença, os sintomas e os demais achados da avaliação. Um exame isolado, mesmo quando apresenta elevada capacidade de identificar alterações biológicas, não substitui esse processo.
A orientação é procurar atendimento médico diante de mudanças persistentes na memória ou no comportamento, especialmente quando elas começam a interferir na rotina. Neurologistas, geriatras e outros profissionais habilitados podem conduzir a investigação e indicar o acompanhamento necessário.
Existe tratamento para o Alzheimer?
Ainda não existe uma cura definitiva para a doença de Alzheimer. Os tratamentos disponíveis buscam aliviar sintomas, preservar a capacidade funcional pelo maior tempo possível e melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares.
Entre os medicamentos utilizados estão donepezila, galantamina e rivastigmina, indicados em determinados estágios da doença. A memantina também pode ser utilizada conforme o quadro clínico. Esses medicamentos podem contribuir para o controle de sintomas, mas não eliminam a doença.
A abordagem deve ser individualizada e pode envolver acompanhamento médico, estimulação cognitiva, atividade física adaptada, alimentação equilibrada, organização da rotina e apoio psicológico e social. O cuidado também precisa considerar a saúde e as necessidades dos familiares e cuidadores.
Novas terapias direcionadas a mecanismos biológicos do Alzheimer têm ampliado as pesquisas e as possibilidades de tratamento para grupos específicos de pacientes. No entanto, a indicação depende de critérios clínicos, disponibilidade, avaliação dos riscos e acompanhamento especializado. Não são tratamentos adequados para todas as pessoas diagnosticadas.
O diagnóstico em uma fase inicial pode ajudar a organizar os cuidados, avaliar as opções terapêuticas e orientar a família sobre a evolução da doença. Isso não significa que a detecção precoce garanta a interrupção da progressão do Alzheimer.
Exame de sangue para Alzheimer poderá chegar ao SUS?
A disponibilidade do teste na rede privada levanta a discussão sobre o acesso à tecnologia no sistema público de saúde. Segundo o Ministério da Saúde, ainda não foi recebido pedido formal para avaliar a incorporação do procedimento ao SUS.
A inclusão de uma nova tecnologia na rede pública depende de análise técnica. Entre os aspectos considerados estão as evidências de segurança e eficácia, os benefícios em comparação com as alternativas disponíveis, o custo-efetividade e o impacto financeiro para o sistema.
A avaliação de uma tecnologia pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) faz parte desse processo. Portanto, o registro na Anvisa, que autoriza a utilização do produto conforme suas indicações aprovadas, não significa incorporação automática ao sistema público.
Enquanto não houver uma decisão sobre a oferta pelo SUS, o teste de p-tau217 disponível no Hospital Moinhos de Vento permanece uma opção na rede privada. A investigação do Alzheimer, entretanto, não depende exclusivamente desse exame: o sistema público dispõe de serviços especializados, avaliação clínica e tratamentos previstos nos protocolos de atendimento.
A chegada da tecnologia representa mais uma ferramenta para investigar uma doença que afeta progressivamente a memória e a autonomia. O avanço poderá facilitar determinadas etapas do diagnóstico, mas o acesso, a indicação correta e a interpretação médica continuam sendo fundamentais para que o exame seja utilizado de forma segura e adequada.