☰
✕

Cidades

Chester existe mesmo? Saiba tudo sobre esse mito natalino e aprenda uma receita perfeita para sua noite de Natal

Descubra como a tradição do Chester foi criada a partir de uma história familiar e a busca por uma ave ideal para as festas natalinas  |  Reprodução internet

Publicado em 23/12/2025, às 07h08   Reprodução internet   Dani Oliveira

Ler resumo da notícia

Todo fim de ano, a mesma piada volta à mesa: “Mas afinal, alguém já viu um Chester vivo?”. O humor atravessou gerações e ajudou a criar uma aura quase lendária em torno de uma das aves mais tradicionais do Natal no Brasil.

Durante décadas, o mistério foi tão bem alimentado que muita gente chegou a acreditar que o Chester era um animal diferente de tudo o que se conhece — sem cabeça, exageradamente grande ou incapaz de se mover.

A realidade, porém, é bem menos fantasiosa — e muito mais interessante.

Chester não é uma espécie, é uma marca

Ao contrário do que muitos imaginam, o Chester não é uma espécie de ave, mas uma marca registrada. Ele pertence a uma linhagem especial de frangos desenvolvida a partir de melhoramento genético, com foco em maior volume de carne no peito e nas coxas — exatamente as partes mais valorizadas em datas festivas.

Essa característica não surgiu por acaso. Ela foi pensada como estratégia comercial e produtiva para disputar espaço com o tradicional peru natalino.

A rivalidade que deu origem ao Chester

Nos anos 1970, o mercado brasileiro de aves para o Natal era dominado pelo peru. A Sadia, à época, liderava esse segmento. Já a Perdigão buscava uma alternativa mais viável economicamente: o peru tem custo de produção mais elevado, ciclo mais longo e uma cadeia produtiva mais complexa.

A solução foi desenvolver uma ave diferente, mas que mantivesse a maciez do frango e entregasse um porte mais robusto.

Foi assim que, em 1979, a Perdigão enviou técnicos aos Estados Unidos em busca de uma linhagem que concentrasse carne exatamente onde o consumidor mais queria.

Dos ovos importados ao “Habemus Chester”

Os primeiros ovos chegaram ao Brasil vindos dos Estados Unidos e foram incubados no interior de Santa Catarina, na região de Videira. A adaptação não foi simples. No início, as aves demoravam até 84 dias para atingir o peso ideal e enfrentaram problemas estruturais, como fragilidade óssea.

Somente após anos de ajustes nutricionais, apoio técnico universitário e refinamento genético, o projeto ganhou estabilidade.

O lançamento oficial aconteceu em 1982, com uma campanha que entrou para a história da publicidade brasileira. O slogan “Habemus Chester” consolidou a ave como uma nova tradição natalina.

Por que o Chester é diferente do frango comum?

Apesar de ser um frango, o Chester apresenta diferenças claras em relação às aves convencionais:

• Maior porte e peso final
• Mais carne no peito e nas coxas
• Ciclo de criação mais longo
• Alimentação balanceada específica
• Abate em linhas separadas

Atualmente, o Chester é abatido com cerca de 55 a 58 dias, enquanto o frango comum costuma ser abatido por volta dos 40 dias. O peso final varia entre 4 e 4,5 kg.

Atualmente, o Chester é abatido com cerca de 55 a 58 dias, enquanto o frango comum costuma ser abatido por volta dos 40 dias. O peso final varia entre 4 e 4,5 kg.

Mito derrubado: não há uso de hormônios

Um dos boatos mais persistentes envolve o uso de hormônios para acelerar o crescimento das aves. Especialistas são categóricos: isso não acontece.

Além de proibida por lei no Brasil, a prática é biologicamente ineficaz e economicamente inviável.

Hormônios ingeridos seriam quebrados pelo sistema digestivo e aplicações individuais em milhares de aves tornariam o processo impraticável. O crescimento acelerado é resultado exclusivo de genética e nutrição balanceada.

O crescimento acelerado é resultado exclusivo de genética e nutrição balanceada.

Onde o Chester é produzido hoje?

Embora tenha sido desenvolvido em Santa Catarina, a produção atual do Chester se concentra principalmente no estado de Goiás, especialmente na região de Mineiros.

A BRF, controladora das marcas Perdigão e Sadia, não divulga dados detalhados sobre volumes e granjas específicas. Mesmo assim, mais de quatro décadas após seu lançamento, o Chester segue como presença garantida nas ceias brasileiras.

A produção atual do Chester se concentra principalmente no estado de Goiás, especialmente na região de Mineiros. Imagem: reprodução internet.

Tradição, curiosidade e mesa farta

Criar aves maiores para ocasiões especiais não é novidade na história da humanidade. Em diferentes culturas, frangos, perus e outras aves foram selecionados ao longo dos séculos para banquetes, celebrações religiosas e datas simbólicas.

O Chester é, essencialmente, a versão brasileira dessa tradição — combinando indústria, marketing e costume popular.


Receita especial: Chester assado com ervas e laranja

Receita clássica, fácil e perfeita para a ceia:

Chester Assado Natalino

Ingredientes:

• 1 Chester inteiro (4 a 5 kg)
• Suco de 2 laranjas
• 4 dentes de alho amassados
• 2 colheres de sopa de manteiga
• Sal e pimenta-do-reino a gosto
• Ramos de alecrim e tomilho
• 1 cebola grande cortada em quartos

Em diferentes culturas, frangos, perus e outras aves foram selecionados ao longo dos séculos para banquetes, celebrações religiosas e datas simbólicas. Imagem: reprodução internet.

Modo de preparo:

Descongele o Chester completamente.

Tempere com o suco de laranja, alho, sal e pimenta.

Espalhe a manteiga sob a pele do peito.

Recheie a cavidade com a cebola e as ervas.

Cubra com papel-alumínio e leve ao forno a 180 °C por cerca de 2h30.

Retire o papel nos últimos 30 minutos para dourar.

Sirva com farofa, arroz com castanhas ou legumes assados.


A família por trás do Chester: a viagem aos EUA e o nascimento da ave no Brasil

A criação do Chester não foi apenas uma decisão empresarial, mas também uma história familiar que atravessou fronteiras. No fim da década de 1970, a direção da Perdigão enviou dois técnicos aos Estados Unidos com uma missão clara: encontrar uma ave alternativa ao peru, que fosse mais viável economicamente e atendesse ao gosto do consumidor brasileiro.

A busca levou o diretor do setor agropecuário Edésio Brandalise e o veterinário Mário Ricciardi até o estado de Maryland, onde conheceram um geneticista que havia desenvolvido uma linhagem especial de frangos com maior deposição de carne no peito e nas coxas. Dali vieram entre 3 mil e 5,5 mil ovos, importados para o Brasil e incubados no interior de Santa Catarina.

Diretor do setor de agropecuária da Perdigão, Edésio Brandalise (primeiro à esquerda) foi enviado em uma visita a uma granja de frangos nos EUA para encontrar alternativa ao peru da Sadia (Foto: Vitor Hugo Brandalise, Arquivo pessoal)

O ponto de partida foi a localidade de Passo da Felicidade, hoje pertencente ao município de Tangará, na região de Videira — cidade que concentrava as operações da Perdigão naquele período. Coube ao veterinário Vitor Hugo Brandalise, sobrinho de Edésio, a responsabilidade por uma das etapas mais delicadas do projeto: a nutrição das primeiras aves.

Recém-formado e com apenas 28 anos, Vitor Hugo desenvolveu uma ração à base de milho e soja, ajustando cuidadosamente níveis de proteína, energia, vitaminas e minerais. O começo, porém, foi marcado por desafios. As aves demoravam até 84 dias para atingir o peso esperado e, em alguns casos, o crescimento muscular superava a resistência óssea.

O projeto quase naufragou após um surto da doença de Newcastle, que levou à eliminação de um dos primeiros lotes. A virada veio com a contratação de zootecnistas e o apoio técnico da Universidade Federal de Viçosa, que ajudaram a ajustar o programa de melhoramento genético.

Após cerca de quatro a cinco anos de testes e correções, a Perdigão conseguiu chegar a uma ave com cerca de 4 quilos de carne, abatida com pouco mais de 60 dias, mantendo boa conversão alimentar e custo competitivo. Estava criado, definitivamente, o Chester — um produto nascido de ciência, persistência e de uma história familiar que moldou a ceia de milhões de brasileiros.

Classificação Indicativa: Livre


TagsNatalProduçãoSanta catarinaNutriçãoCuriosidadeHistóriaGoiásGenéticaReceitaTradicionalMarcaFrangoPesoMitoHormôniosAvePerdigãoCeiaChesterSadia