Política
por José Nilton Jr.
Publicado em 22/10/2026, às 11h34
O histórico político do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, reúne homenagens a policiais que posteriormente foram processados ou condenados por crimes, nomeações de familiares de um miliciano para seu gabinete e a destinação de recursos públicos para um projeto cuja verba teria sido solicitada por um ex-assessor condenado.
O levantamento também aponta manifestações contrárias à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). De acordo com uma investigação publicada pela revista Piauí, entre 2003 e 2018, quando exercia mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio concedeu moções de louvor e outras honrarias a pelo menos 23 policiais militares e civis que, posteriormente, passaram a responder a processos judiciais ou foram condenados por diferentes crimes.
Os casos envolvem personagens investigados por participação em milícias e grupos criminosos, além de ex-integrantes da estrutura parlamentar do senador. As situações ocorreram em diferentes períodos e incluem episódios que também foram alvo de apurações do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) e da Polícia Federal.
Um dos casos mais conhecidos é o de Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Flávio concedeu a ele uma moção de louvor em 2003 e, em setembro de 2005, entregou pessoalmente a Medalha Tiradentes, principal honraria da Alerj. Na ocasião, Adriano estava sob custódia, acusado de envolvimento no assassinato do manobrista Leandro dos Santos Silva.
Posteriormente, após ser expulso da Polícia Militar, Adriano foi apontado pelo Ministério Público como chefe do chamado Escritório do Crime, grupo associado a execuções clandestinas, e como uma das lideranças da milícia de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Janeiro. Ele morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial na Bahia.
A relação entre Adriano e o gabinete de Flávio também entrou no radar das investigações sobre o esquema conhecido como "rachadinha". Raimunda Veras Magalhães, mãe do ex-capitão, e Danielle Mendonça da Costa, ex-esposa dele, ocuparam cargos comissionados no gabinete do então deputado estadual. Os pagamentos relacionados às nomeações foram investigados no contexto da suspeita de recolhimento de parte dos salários de servidores.
Em depoimento ao Ministério Público, em 2020, Flávio confirmou que havia recebido aulas particulares de tiro de Adriano. A equipe do senador, por sua vez, afirmou que as homenagens concedidas a policiais tinham como base relatórios operacionais apresentados por comandantes de batalhões e que ele não tinha conhecimento de eventuais investigações criminais futuras quando as honrarias foram aprovadas.
Outro nome citado no levantamento é Ronald Paulo Alves Pereira, que recebeu uma moção de congratulações aprovada pela Alerj em março de 2004. A homenagem ocorreu cerca de três meses depois de ele ter sido investigado por suspeita de participação na Chacina da Via Show, em dezembro de 2003, quando cinco jovens foram mortos na Baixada Fluminense.
Investigações posteriores apontaram Ronald como integrante do Escritório do Crime, ao lado de Adriano da Nóbrega. Em março de 2026, segundo as informações apresentadas no levantamento, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o ex-major a 56 anos de prisão por sua participação no monitoramento e na execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
A investigação também cita Fabrício Queiroz, ex-policial militar que trabalhou como assessor e motorista no gabinete de Flávio na Alerj. Em 2003, ele recebeu uma moção de louvor do então deputado, que destacou seu comportamento profissional.
Queiroz foi apontado pelo Ministério Público como responsável por coordenar a arrecadação de parte dos salários de servidores comissionados do gabinete. As investigações também o associaram à indicação e à facilitação das nomeações da mãe e da ex-esposa de Adriano da Nóbrega para cargos na Assembleia Legislativa.
As defesas de Flávio Bolsonaro e de Queiroz negaram a prática de rachadinha e sustentaram que as nomeações respeitaram as regras administrativas da Alerj.
Já no Senado, Flávio destinou, em 2023, R$ 200 mil em emenda parlamentar individual para financiar um projeto esportivo na Taquara, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro onde há atuação de grupos milicianos.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal durante investigações indicaram que Robson Calixto Fonseca, conhecido como "Peixe", teria solicitado a liberação dos recursos. Ex-policial militar e antigo assessor de Domingos Brazão, ele aparece nas conversas se referindo ao candidato como "nosso Senador".
Robson foi condenado a nove anos de prisão por integrar uma organização criminosa armada envolvida na elaboração do plano para assassinar Marielle Franco. A investigação sobre a emenda levantou questionamentos sobre a atuação do intermediário, embora a destinação de recursos, por si só, não comprove irregularidade por parte do parlamentar.
Em resposta, a assessoria de Flávio afirmou que as emendas são destinadas com base em critérios técnicos e voltadas a projetos sociais em comunidades carentes. A equipe negou relação com intermediários que solicitem recursos e declarou que a execução da verba ocorreu regularmente.
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