Política
Em entrevista concedida neste sábado (30) ao programa Politicando, da Rádio 98 FM, o vice-governador Walter Alves (MDB) quebrou o silêncio e revelou, com riqueza de detalhes, o verdadeiro motivo pelo qual recusou o plano de assumir o comando do Estado na reforma política desenhada pelo grupo da governadora Fátima Bezerra (PT).
Acompanhado pelo pai, o ex-governador e ex-senador Garibaldi Filho, Walter expôs uma severa crise de confiança interna, reclamou do isolamento político que o MDB sofreu na gestão petista e classificou a situação financeira herdada como uma verdadeira "bomba-relógio" fiscal que destruiria seu patrimônio político em poucos meses.
Walter Alves relembrou que aceitou compor a chapa com Fátima Bezerra de olho no futuro, sabendo que a petista não poderia se reeleger e que ele naturalmente assumiria o protagonismo. Contudo, o espaço dado ao seu partido foi irrisório.
"Eu era deputado federal à época, mas queria ser vice-governador porque sabia que a governadora não teria reeleição. Então, eu sonhei, lutei, trabalhei para isso. Mas ao assumir o governo, o que é que coube ao MDB? Apenas a Secretaria de Recursos Econômicos. Então, a gente já percebeu um pouco de distanciamento, de falta de atenção, de valorizar o MDB. O vice-governador do Estado não tem caneta cheia. Se o governador lhe der força, ele tem força. Se não der, não tem. Então, fui um governador sem prestígio", desabafou.
O ponto de virada na relação ocorreu no ano passado, quando Fátima Bezerra o chamou e perguntou se ele topava assumir o governo para que ela pudesse concorrer nas eleições. Walter aceitou, mas exigiu um diagnóstico real das finanças do Rio Grande do Norte. Foi quando os esqueletos no armário começaram a aparecer após um alerta vindo de Brasília.
"Eu tive uma reunião em Brasília com um parlamentar amigo meu, e o cara disse: 'Walter, você assume quando?'. Eu disse que em abril. O cara disparou: 'Você sabe que o consignado do Rio Grande do Norte deve 300 milhões de reais?'. Eu disse: 'Como é, homem?'. Depois ele me ligou e corrigiu: 'Não, é 360 milhões'", relatou o vice-governador.
Ao tentar confrontar a equipe econômica de Fátima Bezerra para testar a transparência do governo, Walter percebeu que estavam tentando mascarar a gravidade da situação.
"Tive uma reunião com a equipe econômica e perguntei: 'Me diga uma coisa, vi uma nota no jornal de que tem um problema de consignados aqui. Quanto é?'. Eles disseram: 'Ah, Walter, existe, mas está sob controle'. Eu perguntei se era uns 200 milhões e disseram que não. Aí eu vi que, infelizmente, não estava havendo confiança. Era uma bomba muito grande, como está se concretizando agora."
O vice-governador explicou que o colapso financeiro estouraria exatamente no primeiro mês de sua gestão, em abril. Além do rombo milionário dos consignados retidos dos servidores, o Estado enfrentava um reajuste salarial de 400% atrelado ao IPCA que o atual governo não tinha capacidade de pagar em parcela única — o que acabou sendo fatiado em seis vezes posteriormente.
"Se eu fosse o governador em abril, era greve geral na rua. O cidadão que estava assistindo ia passar por mim e dizer: 'Pô, seu pai [Garibaldi Filho] foi um grande governador, e você, meu amigo, foi um dos piores'. Porque é impossível você, em seis meses, conseguir reestruturar e organizar o Estado. É impossível", justificou Walter, justificando o voto de desconfiança que deu ao próprio sistema governista.
"Tive que tomar a decisão mais difícil da minha vida, que foi enfrentar o sistema. Em outubro nós tivemos uma reunião e eu bati o martelo: 'Eu não vou assumir o governo'", concluiu.
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