Política
Nas eleições de 2026, a religião entrou de vez na urna literalmente. Ao menos 404 candidatos registraram nomes de urna com alguma identificação religiosa, segundo dados das candidaturas já apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Pastor, pastora, irmão, mãe de santo, bispo e até nomes de orixás aparecem ao lado dos sobrenomes que o eleitor vai ver na hora de digitar o número.
O fenômeno não é novo, mas os números chamam atenção pela quantidade e pela distribuição. E, segundo especialistas, vai muito além de uma simples declaração de fé.
A grande maioria dos candidatos que usam título religioso optou por “pastor”, “pastora” ou a abreviação “PR”. São 295 nomes, o equivalente a 73% do total mapeado.
Em seguida vêm os que se apresentam como “irmão” ou “irmã”: 43 candidatos (10,5%). Embora não sejam títulos formais, esses termos são amplamente usados em comunidades evangélicas e também por freiras católicas.
Já as religiões de matriz africana aparecem com 28 candidatos (7%). Eles usam nomes de orixás ou as expressões “mãe” e “pai”, comuns em terreiros de umbanda e candomblé.
Outros títulos registrados:
Para Emanuel Freitas, professor de teoria política da Universidade Estadual do Ceará e pesquisador da relação entre religião e política, os números mostram apenas uma parte do fenômeno. Muitos candidatos religiosos não colocam o título no nome de urna, caso da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), candidata ao Senado no Distrito Federal e conhecida pela ligação com lideranças evangélicas.
Segundo o pesquisador, o uso desses termos revela mais uma estratégia eleitoral do que apenas uma identidade pessoal.
“Existe a oferta de candidatos que mobilizam a agenda religiosa como essencial para a proposição de candidaturas e de aprovação de governos, partidos e políticos, porque existe a demanda por propostas que seriam próprias da religião, à medida que se politizou a identidade religiosa”, afirma Freitas.
Em outras palavras: a religião virou plataforma política.
Dos 404 candidatos identificados, 389 (96%) concorrem a cargos no Legislativo. A distribuição é a seguinte:220 candidatos a deputado estadual
A disputa por vagas no Congresso e nas Assembleias Legislativas concentra quase a totalidade dos nomes com identificação religiosa.
O MDB é o partido com o maior número de candidatos que usam títulos religiosos no nome de urna: 37. Em seguida aparecem o Republicanos (30) e o DC (28).
No ranking dos estados, o Rio de Janeiro lidera com 50 candidatos, seguido de perto por São Paulo (49) e Pernambuco (31).
Apesar do uso intenso dos títulos, apenas 35 candidatos informaram como ocupação “sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa”. Desses:
Ou seja: a grande maioria dos que colocam “pastor” ou “pastora” na urna não declara oficialmente essa como sua profissão principal.
O levantamento mostra que a religião continua sendo um elemento forte na disputa eleitoral brasileira, seja como identidade autêntica, seja como ferramenta de comunicação com o eleitorado. Na urna eletrônica de 2026, o eleitor vai encontrar não só nomes, mas também títulos que carregam peso simbólico e político.
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