Política
por Anna Paula Andrade
Publicado em 08/09/2026, às 17h01 - Atualizado às 19h01
O escândalo do Banco Master já não é apenas uma história sobre o mercado financeiro. É uma história sobre poder.
Sobre homens poderosos, dinheiro, influência, relações políticas, suspeitas de suborno e uma engrenagem que parece ter misturado negócios, interesses privados e acesso aos centros de decisão do país.
E há ainda um capítulo particularmente perturbador: o material apreendido no celular de Daniel Vorcaro contém fotos e vídeos de prostitutas estrangeiras que, segundo as mensagens analisadas, teriam sido trazidas ao Brasil para festas do banqueiro. Especialistas ouvidos pela imprensa apontaram que os elementos podem justificar investigação por tráfico e exploração de pessoas.
É impossível olhar para tudo isso e não perceber uma coisa: o poder que produziu esse escândalo é profundamente masculino, diria até fálico. E talvez seja justamente aí que esteja uma das pistas para a solução.
Mais mulheres na política.Não porque mulheres sejam todas santas e benevolentes. Não são.
Mulheres também podem cometer crimes, praticar corrupção, abusar do poder e fazer escolhas tão ruins quanto qualquer homem.
Mas existe um dado que merece atenção: as mulheres continuam sendo minoria nas redes políticas envolvidas nos grandes escândalos. Um estudo recente sobre redes de escândalos políticos encontrou apenas 10% de participação feminina entre os agentes das redes brasileiras analisadas.
Isso não prova que mulheres sejam “naturalmente honestas”. Prova outra coisa: elas ainda estão muito menos presentes nas estruturas de poder onde os grandes negócios políticos são costurados.
E talvez seja justamente por isso que precisamos mudar quem ocupa esses espaços.
O caso Master oferece uma imagem quase caricatural de uma velha política: homens brancos, dinheiro, influência, festas, acesso privilegiado, favores e suspeitas de compra de apoio.
As investigações chegaram a apontar pagamentos relacionados a políticos e empresas ligadas a figuras públicas. Também surgiram suspeitas de pagamento de propina a um ex-presidente do Banco de Brasília, segundo a investigação da Polícia Federal.
Ao mesmo tempo, aparecem nas investigações relatos sobre festas com prostitutas estrangeiras e possíveis indícios de exploração sexual.
E aqui precisamos fazer uma distinção fundamental.
As pouquíssimas mulheres que aparecem neste capítulo não são as responsáveis pelo esquema.
Ao contrário, se houver confirmação dos indícios apontados pelos investigadores, elas podem ser justamente vítimas de uma estrutura de exploração.
É importante dizer isso porque existe uma tradição perversa de olhar para mulheres em situações de prostituição como parte do espetáculo do poder masculino, quando deveríamos perguntar quem tinha dinheiro, quem dava as ordens, quem organizava, quem pagava e quem se beneficiava.
A questão central não é a mulher que estava na festa sendo objeto de desejo e moeda de troca de decisões.
É o homem que tinha dinheiro e poder, defendia publicamente a família, e prefere transformar pessoas e relações em mercadoria.E isso nos leva de volta à política.
Durante décadas, o poder brasileiro foi ocupado majoritariamente por homens.
Homens que escolheram outros homens. Homens que fizeram alianças com outros homens. Homens que ocuparam os partidos, os governos, os grandes negócios e as estruturas institucionais. Não é coincidência que, quando grandes escândalos explodem, as fotografias e os nomes sejam tantas vezes predominantemente masculinos.
Talvez esteja na hora de experimentar outra coisa. De Damares a Erika Hilton. Sim: de Damares a Erika Hilton. Duas mulheres que estão em campos políticos completamente diferentes.
Damares representa uma ultra direita conservadora, Erika Hilton representa uma esquerda progressista, elas discordam sobre praticamente tudo. Mas existe algo maior do que essas diferenças: ambas representam mulheres ocupando espaços que historicamente foram reservados aos homens.
Damares, no caso Master, cobrou explicações e investigação sobre Daniel Vorcaro e chegou a questionar como um único homem conseguiu exercer tamanho poder sobre o sistema financeiro.
Erika Hilton, por sua vez, representa uma transformação ainda mais profunda da política brasileira: uma mulher trans, negra e de origem periférica ocupando um espaço institucional de poder que coloca na pauta o fim da escala de trabalho 6x1.
E talvez essa seja a verdadeira revolução.
Não precisamos de mulheres que pensem todas da mesma maneira.
Precisamos de mais mulheres diferentes.
Mulheres de direita.
Mulheres de esquerda.
Mulheres negras.
Mulheres periféricas.
Mulheres empresárias.Mulheres trans.
Mulheres trabalhadoras.
Mulheres conservadoras.
Mulheres progressistas.
Mulheres cis, heterossexuais ou não.
Porque o problema da política brasileira não é apenas quem está no poder. É quem sempre esteve no poder, talvez seja impossível construir uma política nova mantendo exatamente as mesmas pessoas, os mesmos grupos e as mesmas redes que dominaram a política velha.
Mais mulheres significa mais possibilidades de romper a lógica dos mesmos homens escolhendo os mesmos homens para controlar os mesmos espaços.
Não existe garantia de que uma mulher será honesta. Mas existe uma certeza: se continuarmos elegendo majoritariamente homens, continuaremos tendo uma política majoritariamente masculina.
E talvez já tenhamos visto demais do que esse modelo é capaz de produzir.
O Banco Master é um alerta, não apenas sobre fraude, sobre dinheiro, sobre possíveis subornos. Mas sobre uma cultura de poder em que dinheiro compra acesso, relações privadas se confundem com interesses públicos e pessoas podem ser tratadas como instrumentos de prazer, influência ou negócio.
A resposta não pode ser simplesmente trocar um homem por outro. Talvez seja necessário mudar a própria composição do poder. E isso começa na urna.
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