Polícia
Setembro é um mês histórico para a crônica policial potiguar. Há 15 anos, a maior unidade prisional do estado, a Penitenciária Estadual de Alcaçuz, na Grande Natal, era transformada em um cenário de angústia, tensão e medo. Na ocasião, 54 mulheres que realizavam visitas aos detentos — entre elas esposas, mães e filhas — foram impedidas de sair e se tornaram reféns em meio a uma rebelião. O caos durou mais de 24 horas.
Tudo aconteceu durante um motim, quando os presos se rebelaram para reivindicar melhores condições sanitárias. A situação chegou a um ponto crítico quando os detentos passaram a exigir a presença de autoridades para negociar, entre elas Rosalba Ciarlini, governadora do estado à época.
Um dos líderes do movimento, o detento João Maria Silva de Oliveira (João Cego), interno do Pavilhão 1 e apontado na época como um dos líderes do PCC, telefonou para um repórter e fez o alerta:
"Aqui a situação tá feia. Vai ficar pior se a governadora não vier negociar com nós. Queremos Rosalba e o corregedor".
"Avisa pro diretor (major Marco Lisboa) que tem gente aqui que vai morrer. Se não atenderem nossas reivindicações, vamos mandar um aviso pra eles verem que aqui ninguém tá de brincadeira", afirmou o detento, segundo matéria publicada pelo extinto Novo Jornal.
João Maria também afirmava que os presos não pretendiam ferir as mulheres. Porém, dizia que elas permaneceriam na unidade como forma de pressionar o governo.
A presença da imprensa passou a ser considerada pelos próprios presos uma espécie de garantia contra uma possível invasão policial. João Maria pediu que jornalistas entrassem na penitenciária e acompanhassem a negociação.
Na manhã seguinte, a situação ainda permanecia indefinida. Apenas policiais penais estavam dentro da unidade, enquanto a Polícia Militar fazia a segurança externa.
O repórter que havia conversado com João Maria relatou que chegou a Alcaçuz por volta das 8h, quando passou a acompanhar diretamente as negociações. O detento exigia falar com a direção da penitenciária.
Por volta das 8h20, o então agente penitenciário Wellington Marques, que ocupava a função de vice-diretor, entrou na unidade. Naquele momento, as mulheres já estavam havia praticamente 24 horas dentro do presídio.
A entrada do vice-diretor foi acompanhada por outros agentes públicos e por diversos profissionais de imprensa. A estratégia era tentar resolver a situação sem a necessidade de uma operação policial para a retirada das mulheres dos pavilhões.
Segundo Wellington Marques, a decisão de permitir que as mulheres permanecessem no presídio durante a noite havia sido tomada justamente para evitar um confronto.
“Decidimos permitir que elas passassem a noite lá dentro. Foi a melhor solução que encontramos. Ninguém sabe o que poderia acontecer se a polícia tentasse retirá-las de lá à força”, afirmou o então vice-diretor, conforme registrado pela reportagem da época.
A permanência dentro de Alcaçuz, entretanto, esteve longe de ser confortável.
As 54 mulheres passaram a noite dentro dos pavilhões sem energia elétrica, sem água e sem comida. Quando escureceu, a unidade ficou totalmente às escuras. Algumas mulheres recorreram a rádios de pilha para acompanhar o que acontecia do lado de fora.
Uma delas contou que o banheiro era precário e que o medo de uma eventual invasão policial impediu que muitas conseguissem dormir.
Para enfrentar o calor, colchões foram retirados das celas e colocados no meio da quadra, onde algumas tentaram descansar ao ar livre enquanto os presos faziam a vigilância.
Apesar da tensão, o ambiente também teve momentos de intimidade entre os casais. Como as mulheres normalmente tinham apenas algumas horas durante as visitas semanais para permanecer com os companheiros, algumas relataram que aproveitaram a situação excepcional para passar mais tempo ao lado deles.
A presença das mulheres dentro de Alcaçuz estava diretamente relacionada ao motim que havia tomado conta da unidade.
Naquele período, os presos estavam insatisfeitos com a situação estrutural da unidade, considerada bastante precária, e da má qualidade da alimentação. Foi quando aproveitaram o dia de visita para iniciar a rebelião.
Os detentos invadiram a ala de adaptação, onde ficavam presos que cumpriam castigo, e destruíram parte das instalações.
A situação também se repetiu na Penitenciária Estadual de Parnamirim (PEP), onde outros detentos se rebelaram e houve confrontos entre grupos rivais.
Em Alcaçuz, porém, havia um elemento que tornaria o episódio diferente de qualquer outro motim registrado até então: as mulheres que estavam na unidade não deixaram o presídio quando tiveram oportunidade.
De acordo com José Olímpio, então coordenador do sistema prisional, parte delas permaneceu dentro dos pavilhões depois que a guarda carcerária conseguiu fazer os presos retornarem às celas.
“Quando a guarda carcerária conseguiu fazer com que os rebelados retornassem às suas celas, elas já estavam lá dentro. E lá ficaram”, explicou.
Foi assim que uma rebelião inicialmente provocada por reivindicações dos presos terminou criando uma situação inédita: dezenas de mulheres passaram a noite dentro da penitenciária em meio a um motim, sob o risco de uma intervenção policial.
Depois de mais de 24 horas, prevaleceu a negociação. As mulheres deixaram Alcaçuz sem que fosse necessário qualquer confronto para retirá-las da unidade. O episódio, porém, deixou registrada uma das situações mais incomuns da história do sistema penitenciário potiguar.
Quinze anos depois, a história permanece como um retrato de um período de forte tensão dentro das penitenciárias do Estado — e como o primeiro registro de uma rebelião em que esposas, mães e filhas de presos dormiram dentro de Alcaçuz.
João Maria Silva de Oliveira continua vivo, mas não cumpre mais pena em Alcaçuz. Em 2023, após uma série de ataques contra a ordem pública no estado — ações coordenadas por facções criminosoas de dentro dos presídios — João Cego foi transferido para o sistema penitenciário federal, onde permanece atualmente.
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