Polícia
Publicado em 10/02/2026, às 07h00 Malu Machado
As investigações da Polícia Federal na Operação Mederi revelaram um esquema de corrupção na Saúde do Rio Grande do Norte, envolvendo o uso da conta de uma estudante menor para ocultar propinas e fraudes em licitações, com o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, como um dos principais alvos.
O esquema movimentou R$ 13,5 milhões em pagamentos a uma fornecedora de medicamentos, com a conta da filha do empresário Oseas Monthalggan, sócio da Dismed, sendo utilizada para armazenar e distribuir recursos, levantando suspeitas de sonegação fiscal.
A PF e a Controladoria-Geral da União identificaram uma estrutura de corrupção em três níveis, com o prefeito e o vice no topo, e as defesas dos envolvidos ainda não se pronunciaram oficialmente, enquanto a investigação abrange várias cidades da região.
As investigações da Polícia Federal sobre a Operação Mederi revelaram uma face ainda mais complexa do esquema de corrupção na Saúde do Rio Grande do Norte. Segundo a PF, os operadores da rede de fraudes utilizaram a conta bancária de uma estudante menor de idade para ocultar e distribuir dinheiro vivo proveniente de propinas e licitações fraudulentas.
A conta pertence à filha do empresário Oseas Monthalggan, sócio da empresa Dismed e apontado como o organizador do repasse de valores a agentes públicos. O principal alvo da investigação é o prefeito de Mossoró e pré-candidato ao governo do estado, Allyson Bezerra (União). De acordo com o relatório da PF, Oseas e Allyson mantinham um "vínculo social e político", o que facilitaria a articulação do esquema dentro da gestão municipal.
De acordo com a PF, o esquema movimentou R$ 13,5 milhões em pagamentos a uma fornecedora de medicamentos que, em troca, repassava "vultosas propinas" ao prefeito. Para não despertar o alerta dos órgãos de controle, a conta da filha menor de Oseas foi usada para armazenar e distribuir os recursos.
Somente entre julho de 2022 e junho de 2023, a conta da estudante movimentou R$ 427 mil. A PF é incisiva:
A cliente não aparenta possuir capacidade econômico-financeira para movimentar tal volume de recursos. Suspeita-se de movimentação de recursos de terceiros, notadamente de seu pai, para fins de sonegação fiscal.”
A investigação aponta que a maioria das saídas financeiras da Drogaria Mais Saúde (pertencente a Roberta Ferreira Praxedes da Costa, mulher de Oseas) era direcionada para a conta da filha.
Um dos pontos mais relevantes do inquérito é uma interceptação telefônica de maio de 2025 entre Oseas Monthalggan e José Moabe Zacarias Soares (PSD), ex-vice-prefeito de Serra do Mel e suposto sócio oculto da Dismed. No diálogo, eles detalham o que chamam de “Matemática de Mossoró”, explicando como a propina era fatiada antes mesmo da entrega dos produtos. Confira a transcrição do áudio interceptado:
Olhe, Mossoró, eu estudando aqui. Como é a matemática de Mossoró. Tem uma ordem de compra de quatrocentos mil. Desses quatrocentos, ele entrega duzentos. Tudo a preço de custo! Dos duzentos ele vai e pega trinta por cento, sessenta R$ 60.000,00, então aqui ele comeu R$ 60.000,00! Fica R$ 140.000,00 pra ele entregar cem por cento. Dos cento e quarenta ele R$ 70.000,00. Setenta com sessenta é meu, R$ 130.000,00. Só que dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil R$ 100.000,00 a Allyson e a Fátima, que é dez por cento de Fátima e quinze por cento de Allyson. Só ficou trinta mil R$ 30.000,00 pra a empresa!”, revelou Oseas.
Para a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU), o prefeito Allyson Bezerra e seu vice, Marcos Bezerra (PSD), operavam no “topo do esquema”, recebendo percentuais definidos sobre os contratos da Dismed. A estrutura era dividida em três níveis:
Em nota oficial divulgada logo após a deflagração da operação em janeiro, o prefeito Allyson Bezerra afirmou que “não há qualquer fato que o vincule pessoalmente” às suspeitas de fraudes. O vice-prefeito Marcos Bezerra também foi alvo de buscas, e as defesas de Oseas Monthalggan e Roberta Praxedes ainda não se pronunciaram oficialmente, embora o espaço permaneça aberto.
A decisão do desembargador Rogério Fialho Moreira (TRF5) destaca que as práticas ilícitas teriam sido “encabeçadas pelo alto escalão” das gestões municipais investigadas, que incluem Mossoró, Serra do Mel, Paraú, São Miguel, José da Penha e Tibau.
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