Polícia
Publicado em 01/02/2026, às 11h42 Mayane Lins
A Prefeitura de Mossoró destinou R$ 14,2 milhões a empresas investigadas na Operação Mederi, que apura irregularidades em contratos de saúde no Rio Grande do Norte, resultando em bloqueio de R$ 9,5 milhões dos cofres municipais.
Os repasses à empresa Dismed cresceram significativamente, totalizando R$ 13,6 milhões entre 2021 e 2025, com indícios de pagamentos por produtos não entregues e aquisições irregulares.
As investigações continuam, e a defesa do prefeito Allyson Bezerra nega vínculos com as irregularidades, destacando que um decreto municipal foi editado para controlar a distribuição de medicamentos pela rede municipal.
A Prefeitura de Mossoró destinou cerca de R$ 14,2 milhões, entre 2021 e 2025, a empresas investigadas na Operação Mederi, deflagrada pela Polícia Federal para apurar suspeitas de irregularidades em contratos da área da saúde no Rio Grande do Norte. Os dados constam em decisão judicial que autorizou medidas cautelares e em levantamentos do Tribunal de Contas do Estado do RN (TCE-RN).
Segundo os números, Mossoró é o município que mais repassou recursos à empresa Dismed no período analisado. Apenas entre 2021 e 2025, os pagamentos à fornecedora somam R$ 13,6 milhões. O maior volume foi registrado em 2024, quando os repasses se aproximaram de R$ 6 milhões. Em 2025, antes mesmo do encerramento do exercício, os valores já ultrapassam R$ 2,9 milhões.
Além da Dismed, Mossoró também aparece como o principal remetente de recursos à empresa Drogaria Mais Saúde em 2025, com pagamentos de R$ 684,1 mil. Considerando as duas fornecedoras, o montante movimentado chega aos R$ 14,2 milhões.
Na última quinta-feira (29), veio a público a informação de que o dano mínimo estimado aos cofres das cinco prefeituras investigadas é de R$ 13,3 milhões, valor que já foi bloqueado por decisão judicial. Desse total, R$ 9,5 milhões correspondem a recursos relacionados ao município de Mossoró.
Os repasses à Dismed cresceram de forma contínua ao longo dos anos. Em 2021, os pagamentos ficaram em torno de R$ 143 mil. No ano seguinte, saltaram para R$ 1,27 milhão. Em 2023, chegaram a R$ 3,4 milhões, até alcançar o pico em 2024, com R$ 5,86 milhões.
Na decisão que fundamenta o aprofundamento da investigação, a Justiça destaca que o volume de recursos públicos envolvidos, aliado ao saque de grandes quantias em dinheiro pelas empresas, levantou suspeitas sobre a regularidade da relação contratual com o município. O documento também menciona indícios como pagamentos por produtos não entregues, aquisição de medicamentos em quantidade incompatível com o consumo da rede pública e compras de itens com prazo de validade reduzido.
A investigação também aponta proximidade política entre um dos sócios da Dismed e o prefeito de Mossoró, citando interações públicas em redes sociais. Para os investigadores, esse conjunto de elementos reforçou a necessidade de adoção de medidas cautelares e de aprofundamento das apurações.

2021: R$ 143.985,00
2022: R$ 1.274.671,80
2023: R$ 3.401.155,73
2024: R$ 5.864.704,79
2025: R$ 2.920.640,16
Total: R$ 13.605.158,48

Mossoró: R$ 648.128,68
Dix-Sept Rosado: R$ 248.010,02
Triunfo Potiguar: R$ 182.100,16
Serra do Mel: R$ 110.346,56
Paraú: R$ 103.751,45
Fernando Pedrosa: R$ 63.258,91
Martins: R$ 38.991,50
Angicos: R$ 19.279
Jardim do Seridó: R$ 382,98
Um dos pontos detalhados nos autos é o funcionamento interno do suposto esquema, apelidado de “Matemática de Mossoró”. De acordo com a Polícia Federal, diálogos interceptados indicariam a existência de uma margem fixa de 25% sobre os contratos, que seria repartida entre diferentes pessoas mencionadas nas conversas. Os investigadores ressaltam, no entanto, que essas conclusões se baseiam em indícios colhidos ao longo do inquérito e não configuram, neste momento, juízo definitivo sobre a prática de crimes ou responsabilidades individuais.
A Operação Mederi apura contratos firmados por prefeituras potiguares com empresas fornecedoras de medicamentos e insumos de saúde, envolvendo recursos federais repassados aos fundos municipais de saúde de Mossoró, Paraú, São Miguel, Serra do Mel e José da Penha. As investigações seguem em andamento.
Em nota, a defesa do prefeito Allyson Bezerra afirmou que não há elementos que o vinculem pessoalmente às irregularidades investigadas. Segundo os advogados, as medidas judiciais se baseiam em diálogos envolvendo terceiros e não resultaram em qualquer restrição ao gestor, que teria colaborado com as autoridades desde o início. A defesa também informou que, em 2023, foi editado decreto municipal determinando que todos os medicamentos distribuídos pela rede municipal passassem a ser controlados pelo sistema federal Hórus.
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