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Elas no comando: as mulheres que estão fazendo história na aviação da segurança pública do RN

CIOPAER
A policial civil Paula Alessandra e a policial militar Natália Coutinho são as primeiras mulheres a pilotar helicópteros na segurança pública potiguar  |   BNews RN - Divulgação CIOPAER
Anderson Barbosa

por Anderson Barbosa

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Publicado em 01/11/2026, às 06h00



Uma decisão quase espontânea, a emoção de realizar algo que parecia distante e o desejo de resgatar vidas marcam a trajetória de Paula Alessandra. Para Natália Coutinho, o caminho até a cabine de uma aeronave começou durante a formação militar, passou pelo desafio de aprender os fundamentos da aviação e teve na disciplina e no exemplo do pai fontes de inspiração. Por caminhos diferentes, elas estão escrevendo um capítulo inédito no Rio Grande do Norte: são as primeiras mulheres a pilotar helicópteros a serviço das forças de segurança. São elas no comando!

Paula Alessandra e Natália Coutinho são as primeiras pilotos do CIOPAER
Paula Alessandra e Natália Coutinho são as primeiras pilotos da segurança pública potiguar

A conquista representa um marco para o Centro Integrado de Operações Aéreas (CIOPAER), unidade da Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social do Rio Grande do Norte (SESED), que amplia a presença feminina em uma das áreas mais especializadas das forças de segurança.

As duas já concluíram o curso de pilotagem e estão na fase de adaptação aos helicópteros Potiguar 01 e Potiguar 02, utilizados pelo CIOPAER. Em breve, além de integrar, também deverão comandar as operações aéreas da segurança pública.

Mais do que uma habilitação aeronáutica, a conquista reúne histórias de persistência, apoio familiar, superação de dificuldades e disposição para trilhar caminhos que, até então, não haviam sido percorridos por mulheres na pilotagem de helicópteros no RN. 

Uma frase, um helicóptero e uma mudança de rota

Paula Alessandra já acumulava experiência na área de Educação Física quando sua trajetória começou a tomar um rumo inesperado. Formada na área, ela buscava uma profissão que lhe permitisse estar em movimento, característica que sentia falta no trabalho cotidiano que passou a desempenhar depois de ingressar na Polícia Civil.

“Nos meus primeiros meses como agente da Polícia Civil eu estranhei muito o serviço, pois a maior parte do tempo eu estava na delegacia digitando relatórios e fazendo registros de Boletins de Ocorrência, um trabalho extremamente importante e de competência do cargo de agente, mas eu não estava me identificando, sentia falta de estar em movimento, como nas aulas de educação física”, relata.

Pouco mais de um ano depois de ingressar na instituição, ela teve a oportunidade de observar o Potiguar 01 em ação. A identificação foi imediata. Naquele momento, dentro de uma viatura com sua equipe, apontou para a aeronave e fez a declaração que se tornaria um divisor de águas em sua vida profissional.

“Eu vou trabalhar lá!”

No dia seguinte, Paula procurou o CIOPAER pelas redes sociais e manifestou interesse em integrar a unidade. Recebeu apoio, foi convidada a realizar um voo para avaliar se realmente desejava seguir aquele caminho e, a partir da experiência, começou a estudar para se tornar piloto.

Paula Alessandra
Paula Alessandra se prepara para comandar as aeronaves do CIOPAER

A coincidência que marcou essa etapa veio em 12 de fevereiro de 2025, dia de seu aniversário, quando foi publicada a portaria que a convocava para se apresentar e passar a compor o Centro Integrado de Operações Aéreas.

A oportunidade que começou com uma frase dentro de uma viatura transformava-se, assim, em um projeto profissional concreto.

O resgate que ficou na memória

Embora não tivesse planejado ser pilota desde criança, Paula já carregava uma referência que ajudaria a dar sentido à nova escolha.

Durante a tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, em 2019, um resgate chamou especialmente sua atenção. Um helicóptero pairava sobre uma área de lama para tentar retirar uma mulher que estava com boa parte do corpo soterrada. A complexidade da manobra e os riscos envolvidos fizeram com que o episódio ganhasse destaque na imprensa.

A piloto responsável pela operação era a bombeira Karla Lessa, de Minas Gerais.

A imagem ficou na memória de Paula, que se imaginou realizando uma missão semelhante, mesmo sem saber que, anos depois, teria a oportunidade de seguir carreira na aviação.

“Quando tive a oportunidade de ir para o CIOPAER na função de pilota, eu só lembrava dessa cena do resgate”.

O episódio ajuda a explicar por que a conquista tem um significado que vai além da realização profissional. Para Paula, a possibilidade de pilotar está ligada ao desejo de participar de missões que podem representar a diferença entre a vida e a morte.

A prova que transformou dúvida em confiança

O caminho, no entanto, não foi marcado apenas por certezas. Paula admite que, durante os estudos, chegou a duvidar de que conseguiria alcançar o objetivo.

"Confesso que não imaginava que daria certo porque era algo tão surreal, não era um sonho de criança ser piloto, mas sempre tive em mim um desejo muito forte de trabalhar resgatando pessoas”.

A rede de apoio formada por amigos e pessoas próximas teve papel importante para que ela continuasse. Quando o ritmo dos estudos diminuía, os incentivos ajudavam a recuperar a confiança.

A aprovação no exame teórico da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) foi um dos momentos mais emocionantes da trajetória. Paula não acreditava que conseguiria alcançar a nota necessária e, como o resultado saiu imediatamente após a prova, a surpresa veio acompanhada de lágrimas.

“Não foi uma prova fácil e imaginei que não passaria, mas o resultado sai na hora, e quando eu vi que tinha atingido a nota necessária, foi uma explosão de alegria e choro”.

Quando os planos dão errado, outros caminhos aparecem

A história de Paula também é marcada por uma sequência de escolhas que não seguiram exatamente o roteiro inicialmente imaginado.

Antes de ingressar na Polícia Civil do Rio Grande do Norte, ela estudou para concursos policiais e tinha a Polícia Rodoviária Federal entre seus objetivos. Foi reprovada duas vezes, continuou estudando e acabou aprovada para a Polícia Civil.

O ingresso na instituição abriu uma possibilidade que não estava nos planos originais: a aviação de segurança pública.

Paula
Paula Alessandra se orgulha da resiliência e da coragem de enfrentar as incertezas sem abandonar os objetivos

Ao refletir sobre a própria trajetória, Paula recorre a uma passagem do escritor Rubem Alves. No trecho que cita, um jovem admirador pergunta ao escritor o que ele havia feito para chegar aonde chegou. A resposta é:

“Eu cheguei aonde cheguei porque tudo o que eu planejei deu errado”.

A frase traduz a maneira como a agente enxerga o próprio percurso. O que inicialmente poderia ser interpretado como um desvio de rota acabou levando a uma oportunidade que ela sequer imaginava quando começou a estudar para as carreiras policiais.

Hoje, Paula se orgulha da resiliência e da coragem de enfrentar as incertezas sem abandonar seus objetivos. A formação como pilota representa, para ela, a possibilidade de unir a experiência na segurança pública ao desejo de atuar em missões de resgate.

Da formação militar à cabine do helicóptero

Para a tenente Natália Coutinho, a aproximação com a aviação aconteceu durante sua formação na Polícia Militar. O contato com instrutores que já atuavam como pilotos do CIOPAER foi decisivo para que ela passasse a enxergar a atividade como uma possibilidade profissional.

Natália Coutinho
Natália Coutinho precisou se familiarizar com os fundamentos técnicos da aviação

“O desejo surgiu depois que ingressei no Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar, quando tive instrutores que já eram pilotos no CIOPAER, e pela primeira vez, pareceu algo possível”, relata.

A partir daí, começou uma etapa de preparação que exigiu dedicação e disposição para aprender conteúdos completamente novos.

Formada em Direito, Natália precisou se familiarizar com os fundamentos técnicos da aviação, incluindo conhecimentos de física e mecânica. Antes de iniciar a etapa prática, foi necessário passar pelo exame teórico da ANAC, requisito para avançar na formação.

“Sou do Direito, então começar a estudar aviação, sua parte de física e mecânica do zero foi bem desafiador”.

Depois da aprovação, aguardou o início do curso prático e contou com orientações dos comandantes do CIOPAER ao longo da preparação.

Antes de ser designada para a unidade, Natália também acumulou experiências na formação de novos policiais, contribuindo com os cursos de formação de oficiais e de praças. Outra etapa importante foi a atuação como oficial de operações em Parnamirim, que, segundo ela, proporcionou uma bagagem significativa sobre o funcionamento da atividade policial.

“Mas sem dúvida, a experiência como oficial de operações proporcionou uma bagagem enorme, em termos de conhecimento da operação policial e afins”.

A experiência anterior nas atividades de segurança pública e a formação aeronáutica passaram a se complementar em uma nova etapa da carreira.

A disciplina como herança familiar

Se os instrutores da Polícia Militar ajudaram Natália a descobrir que pilotar um helicóptero era uma possibilidade concreta, a principal inspiração profissional veio de casa.

O pai, que não é piloto, ingressou na Força Aérea Brasileira ainda como soldado e, posteriormente, por meio de concurso interno, formou-se oficial. A trajetória dele, construída com disciplina e dedicação, tornou-se uma referência para a filha.

“Sem dúvidas, meu pai é minha grande inspiração profissional. Ele não teve muito direcionamento ou base familiar para estudo, mas sempre venceu através da disciplina e dedicação. Minha família é meu grande suporte”.
Natália Coutinho
Natália Coutinho diz que a principal inspiração profissional veio de casa

O relato revela uma dimensão pessoal da conquista. Assim como Paula encontrou nos amigos e nas pessoas próximas o incentivo para continuar estudando, Natália destaca o papel da família na construção de sua trajetória.

Em ambas as histórias, o apoio de outras pessoas aparece como um elemento importante para enfrentar as exigências da formação e persistir diante das dificuldades.

Ao ser questionada sobre o que diria à mulher que era no início da carreira, Natália resume a resposta em uma mensagem que reúne paciência, determinação e fé:

“Um dia de cada vez! sonhe grande, faça sua parte e confie em Deus”.

Mais pilotos e maior capacidade operacional

A formação de Paula e Natália ocorreu junto à de outros dois profissionais: o agente da Polícia Civil Eduardo Costa e o tenente da Polícia Militar Saimon Leão. Com os quatro novos pilotos, o CIOPAER passou a contar com 11 profissionais habilitados para pilotagem.

CIOPAER ganhou quatro novos pilotos
CIOPAER ganhou quatro novos pilotos

A unidade reúne atualmente 42 profissionais especializados em operações aéreas, entre integrantes da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar. 

O CIOPAER opera dois helicópteros: o Potiguar 01, modelo AS350 B2 Esquilo, e o Potiguar 02, modelo AW119Kx Koala.

As aeronaves são empregadas em operações policiais, buscas, salvamentos, transportes aeromédicos e outras ações integradas das forças de segurança. São atividades que exigem treinamento especializado, conhecimento técnico, planejamento e capacidade de tomar decisões em situações complexas.

De acordo com o comandante do CIOPAER, coronel bombeiro Hiparco Nicholas, a chegada dos novos pilotos amplia a capacidade de atuação da unidade nas missões aéreas de segurança pública.

"A presença de duas mulheres entre os novos pilotos também marca um momento histórico para a segurança pública potiguar, ampliando a participação feminina em uma área especializada que exige treinamento técnico, preparo operacional e qualificação para o comando de aeronaves", destacou o secretário da SESED, coronel Araújo Silva.

Paula e Natália
Paula e Natália representam um capítulo inédito na aviação potiguar

Em breve, nos céus do Rio Grande do Norte

A chegada de Paula e Natália à cabine dos helicópteros representa um novo capítulo para o CIOPAER e para a presença feminina nas operações aéreas de segurança pública. As duas conquistaram um espaço inédito, cada uma por uma trajetória própria, marcada por dedicação, aprendizado e perseverança.

Em breve, quando os helicópteros da segurança pública cruzarem os céus potiguares com Paula e Natália na cabine, o pioneirismo das duas estará associado à missão que escolheram abraçar: combater a criminalidade, salvar vidas e levar esperança a quem mais precisa.

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