Polícia
Neste sábado, dia 27 de junho, a Polícia Militar do Rio Grande do Norte celebra 192 anos de história. Responsável pelo policiamento ostensivo e pela preservação da ordem pública em todo o estado, a corporação reúne atualmente cerca de 9 mil homens e mulheres que atuam, direta e indiretamente, na missão de garantir a segurança e a tranquilidade da população potiguar.
Em meio a essa trajetória marcada por desafios, transformações e conquistas, um nome se destaca: o do coronel Alarico José Pessoa Azevedo Júnior. À frente da PMRN há quase oito anos, o oficial é o comandante-geral com mais tempo no cargo na história recente da corporação.
Em entrevista exclusiva ao BNews RN, o coronel Alarico falou sobre a responsabilidade de liderar uma instituição quase bicentenária em tempos de mudanças tecnológicas, novas modalidades de criminalidade e crescentes desafios para a segurança pública.
BNews RN: O senhor tem 60 anos, é natural de Recife, está há 39 anos na Segurança Pública e há 35 anos na Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Como se sente, nestes tempos modernos, sendo o coronel com mais tempo no comando-geral da Polícia Militar do RN?
Coronel Alarico: Primeiro, é um orgulho estar como comandante nestes tempos modernos de tecnologia, neste tempo de muitos desafios e de confiança por parte do Governo do Estado, da governadora Fátima Bezerra, nossa governadora, e de toda a cúpula da segurança, através do secretário da Segurança Pública, Coronel Araújo.
Temos um bom relacionamento e confiança mútua, e isso é muito importante para um gestor. Hoje, com a modernidade e com as atividades de grupos criminosos, que não atuam somente no Brasil e no Rio Grande do Norte, mas em todo o mundo, estar à frente de uma instituição com quase 200 anos de existência, contando com uma equipe que gosta de trabalhar, que aceita desafios e que se dedica, é algo muito importante. Então, para nós, para mim, como comandante-geral, é muito importante e, como eu disse, é uma honra estar há quase oito anos à frente da nossa instituição.
BNews RN: Em toda a sua carreira e trajetória profissional, quais os momentos mais difíceis? E, diante das dificuldades, o senhor pensou em desistir?
Coronel Alarico: Eu começo respondendo a segunda pergunta. Nesses 39 anos de serviços prestados à sociedade como policial militar, jamais pensei em desistir. Desde a época de cadete, eu tinha o objetivo de alcançar o mais alto posto da corporação, que é ser comandante-geral da Polícia Militar. Hoje estou aqui graças a Deus, graças à minha família e graças ao esforço dedicado à minha carreira militar. Foi na Academia que aprendi o lema: "Desistir jamais".
Um dos momentos difíceis aconteceu logo no início da trajetória, quando precisei ficar afastado da minha família por um ano. Mas eu trago essa experiência como uma grande lição. Esse afastamento ocorreu porque fui servir na Força de Paz da ONU, em 1994. Fomos os primeiros policiais militares do Rio Grande do Norte a integrar uma missão desse tipo, servindo o nosso país em Moçambique, na África. Naquele período, Moçambique enfrentava uma guerra civil, e nossa missão era ajudar na superação das dificuldades e colaborar para a realização de eleições democráticas daquele país. O distanciamento da família foi o primeiro grande desafio da minha carreira.
Mais recentemente, posso citar outros dois momentos muito marcantes. O primeiro foi a pandemia da Covid-19, que atingiu todo o planeta. Aqui no Rio Grande do Norte, a Polícia Militar atuou em apoio à Secretaria Estadual de Saúde. Nossos hospitais serviram de retaguarda para a população e toda a tropa ficou empenhada. Vivemos um desafio diário para ajudar a salvar vidas. Estávamos nas ruas protegendo a sociedade e apoiando todos os órgãos envolvidos no enfrentamento da pandemia. Havia dificuldades relacionadas à obtenção de materiais, álcool em gel, máscaras e equipamentos de proteção. Também enfrentamos algo muito doloroso: a perda de policiais militares. Tivemos companheiros que adoeceram e faleceram em decorrência da Covid-19. Uma das maiores tristezas para qualquer comandante é perder um militar, perder um comandado. Foi uma situação muito difícil e que nos marcou profundamente. Mas conseguimos superar aquele período, assim como o mundo inteiro superou a pandemia, e seguimos em frente.
Outro momento muito difícil ocorreu em 2023, durante os ataques promovidos por organizações criminosas no Rio Grande do Norte. Foram quase 30 dias de ações criminosas, período em que tivemos que empenhar toda a nossa tropa. Recebemos apoio do Governo Federal, por meio da Força Nacional, além da colaboração dos estados vizinhos, como Paraíba e Ceará, que enviaram equipes, viaturas e helicópteros. Foi realmente um período muito complicado, mas também conseguimos superar aquele desafio. Hoje seguimos no trabalho diário de proteger a sociedade.
BNews RN: Mais do que momentos difíceis, foram desafios?
Coronel Alarico: Exatamente. Desafios. Momentos difíceis existem o tempo todo. Todos os dias, toda hora, a todo instante, surgem situações que exigem calma, serenidade e capacidade para resolver problemas. Na segurança pública não existe calmaria. Eu gostaria que existisse, mas a realidade é outra. Dependemos também do comportamento das pessoas e de que crimes não sejam cometidos para que haja tranquilidade. Por isso, a prevenção e o combate à criminalidade são permanentes. É um trabalho constante, que exige dedicação todos os dias.
BNews RN: Qual é o legado, comandante? O que o senhor deixa para a corporação? Entre todas as realizações, do que mais se orgulha?
Coronel Alarico: Primeiro, da reestruturação da nossa Polícia Militar, tanto na área operacional quanto na administrativa. Destaco a criação dos comandos regionais, dividindo o estado em áreas sob o comando de coronéis. Hoje, temos coronéis da Polícia Militar em todas as regiões do Rio Grande do Norte. Isso facilita muito a gestão da instituição. Não é necessário, por exemplo, que eu me desloque para uma reunião no Alto Oeste se já existe um coronel representando o alto comando da PM naquela região.
Isso vale não apenas para reuniões, mas também para eventos, grandes operações e ações estratégicas. Neste ano, por exemplo, teremos a Operação Eleições, e os comandos regionais já estão estruturados com seus respectivos estados-maiores, cuidando da gestão operacional de cada área. O comando-geral permanece na capital coordenando todo o estado, mas os coronéis regionais conseguem resolver muitas situações localmente, o que torna a administração mais eficiente.
Outro ponto importante foi a criação das nossas diretorias. Implantamos a Diretoria de Proteção Social, responsável pela gestão previdenciária dos militares estaduais, de acordo com a legislação federal que rege os militares das Forças Armadas, as polícias militares e os corpos de bombeiros.
Também criamos a Diretoria de Gestão Estratégica, que atua no planejamento institucional e no assessoramento ao comando-geral em relação à gestão da corporação.
Além disso, foi criada a Diretoria de Tecnologia, Inovação e Comunicação. Vivemos em um mundo cada vez mais tecnológico, e a Polícia Militar não poderia ficar de fora desse processo de modernização. Outro avanço importante foi a implantação da nossa Sala de Comando e Controle. Durante grandes operações, ela é ativada e permite que o comando-geral acompanhe, em tempo real, qualquer ação realizada em qualquer município do Rio Grande do Norte. São realizações que fortalecem a gestão da instituição e contribuem diretamente para a melhoria dos serviços prestados à população.
Também destaco a realização de concursos públicos, as promoções dos policiais militares — foram quase 20 mil promoções ao longo desses quase oito anos — e os investimentos em formação e capacitação profissional.
A valorização do policial militar é fundamental. Quando o profissional se sente reconhecido e valorizado, ele trabalha melhor e presta um serviço ainda mais qualificado à sociedade.
Ampliamos os cursos de formação e aperfeiçoamento dos nossos oficiais. Hoje, há cursos de pós-graduação que integram a carreira e são requisitos para promoções aos postos de major e coronel.
Portanto, acredito que o legado está justamente na construção de uma Polícia Militar mais moderna, com uma gestão estratégica fortalecida, maior eficiência administrativa, avanços tecnológicos e valorização permanente do efetivo.
Mas nada disso seria possível sem o apoio integral do Governo do Estado, especialmente da governadora Fátima Bezerra. Sem esse apoio, não conseguiríamos desenvolver nenhum desses projetos.
Nós apresentamos as propostas, elas são analisadas e aprovadas pelo governo, e, a partir daí, conseguimos colocá-las em prática. Todas essas transformações e avanços que mencionei foram possíveis graças a essa parceria institucional.
BNews RN: O senhor falou em investimentos, equipamentos, reaparelhamento, falou em promoções, apoio do governo. E de material humano? O policial militar de hoje é melhor que o policial militar de anos atrás?
Coronel Alarico: Eu digo que o policial militar de hoje, ele acompanha a evolução do tempo. Nós estamos com 192 anos. Então, fazendo a retrospectiva de como era o ingresso da Polícia Militar desde o início da sua criação até hoje, hoje temos um policial militar mais qualificado. Hoje, todas as instituições de segurança pública admitem profissionais com o nível superior. Isso melhora a capacidade cognitiva da tropa, melhora o atendimento ao público, melhora as condições de avaliação do comportamento e da atuação da Polícia Militar. Hoje, o policial militar, para ingressar nas fileiras, o soldado precisa ter nível superior, o terceiro grau, qualquer que seja o curso. Para ser oficial da PM, tem que ser graduado em Direito. Isso faz com que a tropa melhore o seu nível de atendimento e o seu nível de trabalho dentro da corporação.
Com a criação dessas diretorias precisamos de pessoas capacitadas. Não estou querendo dizer que os que não ingressaram com nível superior não sejam capacitados. Todos, desde o início, recebem investimentos em capacitação, em formação. Também incentivamos a todos a melhorar cada vez mais o seu nível escolar, seu nível militar. A grande maioria, hoje, tem duas, três formaturas. Temos muitos pós-graduados, temos mestres e doutores em nossa instituição. E isso, como eu disse, vai melhorando cada vez mais o nível da nossa instituição. Hoje, as outras instituições como a Polícia Civil, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Científica, Polícia Penal, todas elas também têm um nível muito alto de capacitação e intelectual. E nós estamos inseridos neste meio, junto com eles. Quando você tem uma tropa boa, quando você tem uma tropa operacional, quando você tem uma boa tropa administrativa, quando você tem uma boa tropa capacitada, o atendimento ao público, a nossa finalidade melhora cada vez mais. Melhora em todos os sentidos.
BNews RN: Para concluir, comandante, como o senhor enxerga a Polícia Militar do Rio Grande do Norte no futuro? Como será a PM de amanhã?
Coronel Alarico: A Polícia Militar precisa evoluir constantemente, acompanhando os tempos, as transformações da sociedade e tudo o que acontece no mundo. É fundamental acompanhar os avanços tecnológicos, os novos equipamentos e os processos de capacitação profissional.
Hoje, deixamos um importante legado. Muitos procedimentos que, durante anos, eram conduzidos apenas pelo costume passaram a ser formalizados. Atualmente, temos tudo regulamentado por meio de portarias, diretrizes e normas, para que as novas gerações possam dar continuidade ao nosso trabalho, possam partir dessa base e aperfeiçoá-lo cada vez mais.
O que eu espero para o futuro é uma Polícia Militar ainda melhor do que a que temos hoje. E isso com um objetivo muito claro: servir cada vez melhor à população. Sempre reforço, em todas as minhas respostas, que a nossa missão principal é atender bem o cidadão, transmitir à sociedade a sensação de segurança que ela merece e fortalecer a confiança da população na Polícia Militar.
Para isso, precisamos estar próximos das pessoas, demonstrando, por meio das nossas atitudes, do nosso comportamento e do nosso conhecimento profissional, o compromisso que temos com a segurança pública.
Portanto, espero uma Polícia Militar cada vez mais capacitada, mais moderna, mais preparada e mais reconhecida pela sociedade. Isso será fundamental para o fortalecimento da nossa instituição e, consequentemente, para a melhoria do atendimento prestado à população.
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