A oferta de óleo diesel para distribuidoras brasileiras deve sofrer uma redução significativa em abril. Segundo representantes do setor de combustíveis, o volume fornecido pela Petrobras será menor em diversas regiões do país, o que já acende alertas sobre possíveis impactos na cadeia de abastecimento.
De acordo com Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial e diretor de Relações Institucionais da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), a redução média nacional no fornecimento de diesel às distribuidoras chega a aproximadamente 23% para o próximo mês.
Em Araucária, no Paraná, a diminuição seria ainda mais expressiva. O executivo afirma que o corte atinge cerca de 30% do combustível disponibilizado, afetando um dos maiores polos de combustíveis do país.
Redução em polo estratégico preocupa distribuidoras
Segundo Hammerschmidt, o impacto mais intenso ocorre no polo de Araucária, considerado o segundo maior centro de distribuição de combustíveis do Brasil. A diminuição nas cotas destinadas às distribuidoras altera diretamente contratos firmados com a estatal.
O executivo explica que as distribuidoras costumam firmar acordos prévios de fornecimento com a Petrobras, definindo volumes específicos que posteriormente são revendidos aos postos. Esses contratos funcionam como compromissos de entrega para garantir a oferta regular de combustíveis no mercado.
Com o corte anunciado para abril, parte dessas cotas teria sido reduzida, comprometendo a disponibilidade do produto em determinadas regiões.
Conflito internacional pressiona mercado de petróleo
A retração no fornecimento ocorre em meio a um cenário internacional turbulento no setor de energia. O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã provocou um choque na oferta global de petróleo.
A tensão se agravou após o fechamento do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária iraniana. Pelo corredor marítimo circula cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural transportado no mundo, o que torna qualquer interrupção um fator de instabilidade para o mercado internacional.
Mesmo sendo autossuficiente na produção de petróleo bruto, o Brasil ainda depende de importações de diesel. Estima-se que o país compre cerca de 17 bilhões de litros por ano no exterior, volume equivalente a aproximadamente um quarto do consumo nacional.
Biodiesel
Para o representante da indústria de biocombustíveis, ampliar a mistura de biodiesel no diesel vendido no país poderia reduzir riscos de desabastecimento e diminuir a exposição a oscilações internacionais.
Atualmente, o diesel comercializado contém 15% de biodiesel, percentual conhecido como B15. Segundo Hammerschmidt, a capacidade produtiva nacional permite ampliar esse volume com relativa rapidez.
A indústria brasileira tem capacidade para produzir cerca de 15 bilhões de litros por ano, porém apenas 9,5 bilhões foram comercializados no último período, indicando uma ociosidade próxima de 45%.
Agronegócio
Nesta quarta-feira (11), 43 entidades do agronegócio e da agroindústria divulgaram um manifesto defendendo a ampliação imediata da mistura de biodiesel no diesel.
O documento sugere elevar o percentual de 15% para 17%, modelo conhecido como B17. A proposta busca acelerar um cronograma que atualmente prevê mudanças graduais nos próximos anos.
Pela chamada Lei Combustível do Futuro, aprovada pelo Congresso Nacional em 2024, o percentual mais elevado estava inicialmente programado para entrar em vigor apenas em 2027.
Petrobras nega mudança no fornecimento
Procurada pela reportagem do portal Gazeta do Povo, a Petrobras afirmou que não houve alterações nas entregas de diesel realizadas por suas refinarias até o momento.
Em nota oficial, a companhia declarou que mantém uma estratégia comercial voltada para minimizar os impactos de conflitos internacionais e da volatilidade do mercado de energia.
A estatal acrescentou ainda que decisões sobre reajustes de preços ou operações comerciais não são divulgadas previamente por motivos estratégicos.
Governo anuncia medidas para conter alta do diesel
Em meio à pressão do mercado internacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou medidas para reduzir o impacto do conflito no Oriente Médio sobre os preços do diesel no Brasil.
Entre as ações está a isenção das contribuições Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), na produção e importação do combustível.
A iniciativa representa uma renúncia fiscal de aproximadamente R$ 0,32 por litro. O pacote inclui ainda uma subvenção adicional de R$ 0,32 por litro destinada a importadores e produtores.
Diferença de preços e falta de diesel no campo
Mesmo com as medidas anunciadas, especialistas do setor afirmam que a política adotada não resolve o problema de oferta do combustível. Segundo Hammerschmidt, a iniciativa tem caráter político e busca apenas reduzir o impacto no preço ao consumidor.
Dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis indicavam, na quinta-feira (12), uma defasagem de 41% entre o preço do diesel praticado no Brasil e o valor observado no mercado internacional.
Esse cenário abriria espaço para um reajuste de aproximadamente R$ 1,31 por litro pela Petrobras.
Produtores relatam dificuldades de abastecimento
Nas últimas semanas, produtores rurais de diversas regiões do país relataram problemas para abastecer máquinas agrícolas devido à falta de diesel entregue por Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs).
Apesar das queixas, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis afirma que não há indicativos de desabastecimento generalizado.
O órgão informou ter recebido relatos pontuais de dificuldade de compra de diesel por produtores rurais no Rio Grande do Sul, mas afirmou que, após consultas a fornecedores da região, constatou que os estoques existentes são suficientes para garantir o abastecimento regular.