Geral
O dia 13 de junho é uma data marcante para Mossoró. Há 99 anos, a segunda maior cidade do Rio Grande do Norte entrava para a história ao se tornar a primeira — e única — a derrotar o bando de Lampião, o mais temido cangaceiro do Nordeste.
O Rei do Cangaço exigia 400 contos de réis para não saquear a cidade, mas o prefeito Rodolfo Fernandes recusou o pagamento. Mais do que enfrentar os cangaceiros, o Batismo de Fogo, como ficou conhecida a Resistência de Mossoró, tornou-se um símbolo de coragem e determinação.
Quase um século depois, esse capítulo segue vivo na memória popular, sendo contado nas escolas, nos cordéis, nas canções e nas tradições culturais do Rio Grande do Norte, do Nordeste e do povo brasileiro.
Naquele 13 de junho de 1927, o então prefeito Rodolfo Fernandes recebeu um aviso sobre a aproximação do grupo liderado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Junto com a ameaça, veio a exigência de uma grande quantia em dinheiro para que a cidade fosse poupada.
A resposta foi imediata. Em mensagem enviada ao próprio Lampião, Rodolfo Fernandes deixou claro que Mossoró não se renderia. Os mossoroenses cumpriram a promessa. E eles resistiram.
Por volta das 17h30, a cidade parou. Mas o silêncio não tomou conta das ruas. O que se ouviu foi uma intensa troca de tiros. O confronto durou cerca de duas horas. De um lado, aproximadamente 80 cangaceiros. Do outro, mais de 200 homens organizados para defender a cidade, protegidos por trincheiras montadas em pontos estratégicos, como a localizada em frente à Igreja de São Vicente.
Resultado: um dos cangaceiros mais cruéis do bando acabou capturado, e um outro morto.
José Leite de Santana, o Jararaca, era ex-soldado do Exército. Havia trocado a farda pelo couro. Ficou para trás na tentativa de ajudar o comparsa Colchete, que acabou tombando no combate.
Julgado pelo povo, Jararaca foi arrastado pela cidade e levado à prisão. Reza a lenda que dias depois teria sido retirado da cela para ser levado para a capital, Natal. O que não aconteceu. Baleado, o cangaceiro teria sido obrigado a cavar a própria cova, sendo enterrado vivo no cemitério São Sebastião, lá mesmo em Mossoró.
Até hoje o túmulo de Jararaca é o mais visitado da cidade no Dia de Finados. Muita gente o vê como um santo popular. E existe uma crença: se a pessoa sonhar com o cangaceiro, ele aparece no sonho e revela os números da loteria.
E com Lampião, o que aconteceu a ele? Em meio ao tiroteio, durante a resistência dos mossoroenses, o Rei do Cangaço reuniu o que restou do bando, fugiu e nunca mais voltou.
A resistência ao bando de Lampião marcou o início de uma nova fase para Mossoró. O episódio rapidamente se espalhou pelo Nordeste como um exemplo de valentia. A partir dali, a fama de invencibilidade de Lampião sofria o seu maior abalo.
Por sua relevância histórica, o episódio também inspirou obras literárias e artísticas. Em 2002, por exemplo, o escritor potiguar Tarcísio Gurgel escreveu a peça teatral "Chuva de Bala no País de Mossoró". Desde então, todos os anos, o espetáculo é encenado como uma das principais atrações do Mossoró Cidade Junina, reunindo milhares de espectadores.
O cangaço é considerado por muitos estudiosos um fenômeno social característico do sertão nordestino. Ao mesmo tempo, também é definido como uma forma de banditismo armado que se desenvolveu entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
Os cangaceiros formavam grupos nômades que percorriam a caatinga praticando saques, extorsões e outros crimes. Em alguns casos, também eram vistos por parte da população como símbolos de oposição à opressão dos coronéis e à ausência do Estado.
A palavra “cangaço” deriva de “canga”, peça de madeira utilizada para unir os bois aos carros de tração animal.
O principal nome desse movimento foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, que dominou vastas regiões do sertão nordestino até ser morto em uma emboscada policial.
Mulheres também integraram os bandos, sendo Maria Bonita a companheira de Lampião e a mais famosa representante feminina do movimento.
Lampião, Maria Bonita e parte do bando morreram na madrugada de 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, localizada no município de Poço Redondo, em Sergipe.
Eles foram surpreendidos por uma volante policial comandada pelo tenente João Bezerra. Todos foram executados e decapitados, encerrando definitivamente um dos capítulos mais marcantes da história do cangaço.
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