Geral
A falta de integração entre bancos de dados públicos, falhas na fiscalização de medidas protetivas e o isolamento dos órgãos de acolhimento formam o principal obstáculo para conter a escalada da violência contra a mulher no Brasil. O diagnóstico foi apresentado por promotoras de Justiça e delegadas de polícia durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), no painel "Feminicídios e violência doméstica: por que seguimos falhando?".
De acordo com especialistas da área jurídica e policial, o Estado monitora apenas episódios isolados em vez de enxergar a trajetória contínua de ameaças e agressões que costuma anteceder os crimes letais. Dados do FBSP revelam um cenário de abandono estrutural: 72,9% dos municípios brasileiros com menos de 100 mil habitantes não contam com nenhum serviço especializado de atendimento à mulher.
A ausência de postos da rede de proteção no interior expõe vítimas a barreiras geográficas e institucionais, justamente onde se concentram índices elevados de violência de gênero com baixa capacidade de resposta estatal.
Autoridades presentes no debate destacaram a discrepância entre a concessão legal de proteção e a efetiva vigilância das decisões judiciais:
Descumprimento crônico: embora o país tenha concedido mais de 621 mil medidas protetivas de urgência em 2025, foram contabilizados cerca de 135 mil episódios de descumprimento por agressores no mesmo período;
"Ilhas de informação": a promotora Silvia Chakian (MP-SP) alertou que as instituições não compartilham inteligência estratégica: "A fragmentação institucional, em que cada instituição registra apenas parte do fenômeno, faz com que o Estado tenha uma visão de fragmentos, não da trajetória de violência";
Atendimento integrado em rede: o delegado e professor da Academia de Polícia Civil de SP, Julio Guebert, defendeu a unificação de canais: "Você tem uma porta na delegacia, uma porta no MP, uma porta na Defensoria, na saúde, na educação. Todas essas portas têm que chegar na mesma sala";
Subnotificação e dependência: fatores como vulnerabilidade financeira, medo de represálias, receio de perder a guarda dos filhos e descrença nos órgãos de segurança ainda barram a chegada das denúncias formais aos distritos policiais.
Enquanto os índices globais de homicídios dolosos apresentaram queda no cenário nacional, os assassinatos motivados pela condição de gênero seguiram trajetória inversa, registrando aumento de 4,7% em 2025:
Extrema violência: especialistas ressaltaram a crueldade atípica dos crimes recentes, associando o fenômeno ao avanço do ódio misógino e discursos de desvalorização feminina disseminados na internet que cooptam adolescentes e homens jovens;
Acolhimento no primeiro sinal: a delegada Cristine Costa, titular da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de SP, enfatizou que as forças de segurança precisam tratar ameaças e injúrias com máxima gravidade técnica, capacitando policiais para acolher relatos sem julgamentos morais que possam desestimular as vítimas a romper o ciclo violento.
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