A energia elétrica deve voltar ao centro das pressões inflacionárias em 2026, com reajustes previstos acima da inflação oficial. Projeções de consultorias e instituições financeiras indicam que a tarifa residencial poderá encerrar o ano com alta entre 5,1% e 7,95%, superando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
A estimativa mais recente do boletim Focus aponta inflação de 3,95% para o período, enquanto os cálculos para a energia consideram reajustes anuais das distribuidoras, encargos setoriais, tributos e eventual acionamento de bandeiras tarifárias.
O cenário envolve risco hidrológico, possibilidade de retorno do fenômeno climático El Niño e avanço dos subsídios incluídos na conta de luz, fatores que elevam a preocupação com o impacto no orçamento das famílias.
Reservatórios, clima e bandeiras no radar
Na última reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), o colegiado destacou que as chuvas no início do ano ficaram acima da média histórica, favorecendo a recuperação parcial dos reservatórios.
Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), mostram que o subsistema Sudeste e Centro Oeste atingiu 54,8% de armazenamento, o Sul 45%, o Nordeste 64,8% e o Norte 63,8%, níveis considerados satisfatórios no Sistema Interligado Nacional (SIN).
O Ministério de Minas e Energia informou que o ONS seguirá monitorando o período chuvoso, com atenção à bacia do Rio Paraná e à Região Sul, buscando ampliar a capacidade de armazenamento e reduzir a inflexibilidade hidráulica do sistema.
Apesar do quadro atual, especialistas alertam que o início do período seco pode exigir maior acionamento de usinas termelétricas, de custo mais elevado, o que tende a pressionar as bandeiras tarifárias e, consequentemente, a inflação.
Em 2025, o sistema operou entre junho e novembro sob bandeiras vermelhas nos patamares 1 e 2, este último com maior acréscimo tarifário. Atualmente vigora a bandeira verde, sem cobrança adicional.
A transição do fenômeno La Niña para o El Niño ao longo do ano pode alterar novamente o regime de chuvas, com risco de redução das precipitações nas regiões Norte e Nordeste.

Projeções apontam alta expressiva
Na estimativa da consultoria PSR, a tarifa residencial deve subir 7,95% em 2026, cerca de quatro pontos percentuais acima da inflação projetada para o período.
Segundo o diretor presidente da PSR, Luiz Augusto Barroso, o custo de acionamento das termelétricas, o risco hidrológico embutido nos contratos com hidrelétricas e o uso de bandeiras tarifárias são fatores determinantes, especialmente em cenário de demanda elevada e temperaturas mais altas.
Já o economista chefe do Banco BMG, Flávio Serrano, projeta alta de 5,1%, mas admite risco de deterioração. Caso o ano termine sob bandeira vermelha patamar 2, a energia poderá fechar com aumento próximo de 12%.
Para Serrano, o impacto não se limita ao índice de preços, pois a alta da energia encarece a produção e eleva o custo de vida das famílias.
Subsídios bilionários ampliam pressão estrutural
Outro vetor de encarecimento é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), fundo que reúne os subsídios do setor e é financiado majoritariamente pelos consumidores por meio da tarifa.
Para 2026, estão previstos R$ 47,8 bilhões em subsídios, alta de 17,7% em relação ao estimado para 2025. A CDE sustenta descontos para consumidores de baixa renda, produtores rurais e irrigantes, entre outros grupos.
Levantamento da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), mostra que, nos últimos 15 anos, a conta de luz acumulou alta de 177%, frente a inflação de 122% no mesmo período.
Em 2025, a energia elétrica residencial subiu 12,31%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tornando se o item de maior impacto individual no IPCA, que encerrou o ano em 4,26%.
O aumento só não foi mais intenso devido à aplicação de R$ 2,2 bilhões em descontos viabilizados por bônus da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Ainda assim, o custo do megawatt hora alcançou R$ 786,76, o maior valor desde 2011, conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).
Excesso de oferta e cortes de renováveis
O avanço das tarifas ocorre em meio a um cenário de capacidade instalada superior à demanda, o que tem levado o ONS a determinar cortes na geração de usinas eólicas e solares para evitar sobrecargas no sistema.
Cálculos da consultoria Volt Robotics indicam que cerca de 20% da energia solar e eólica potencialmente disponível foi descartada em 2025, gerando perdas estimadas em R$ 6,5 bilhões aos empreendimentos.
Segundo Barroso, o governo dispõe de instrumentos para mitigar a pressão tarifária, como a destinação de receitas da renovação antecipada de concessões de geração para reduzir a CDE.
Ainda assim, o cenário base traçado por consultorias e bancos aponta que a energia deve permanecer como um dos principais focos de atenção para a inflação e para o orçamento das famílias em 2026.