Cidades

Vacina contra o HPV enfrenta resistência e deixa Brasil longe da meta de imunização

EBC - Agência Brasil
Ministério da Saúde busca vacinar 300 mil jovens de 15 a 19 anos que não receberam a vacina na faixa etária recomendada  |   BNews RN - Divulgação EBC - Agência Brasil
Lavínia Manso

por Lavínia Manso

Publicado em 20/07/2026, às 07h56



O Ministério da Saúde intensificou, em 2025, a estratégia de vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) para recuperar adolescentes e jovens que não receberam as doses no período recomendado, mas o país ainda não conseguiu alcançar a meta de cobertura vacinal.

A campanha de resgate foi ampliada para pessoas de até 19 anos, enquanto cerca de 300 mil doses foram distribuídas aos municípios, em uma tentativa de conter o avanço de uma infecção associada a diversos tipos de câncer.

A vacinação contra o HPV é considerada uma das principais formas de prevenção contra tumores relacionados ao vírus. A infecção está associada a cânceres do colo do útero, vagina, vulva, pênis, ânus e orofaringe, além de outras complicações que podem ser evitadas com a imunização.

A estratégia de recuperação foi adotada porque a cobertura vacinal brasileira permanece distante do objetivo estabelecido pelas autoridades de saúde. Em 2024, a vacinação entre meninas de 9 a 14 anos chegou a 83%, enquanto a média nacional entre os meninos alcançou 93,6%. No Nordeste, entretanto, o índice ficou em 77,3%, evidenciando diferenças importantes entre as regiões do país.

Em 2025, até o último levantamento divulgado, a cobertura da primeira dose entre meninas de 9 a 14 anos chegou a 80,26%, enquanto a segunda dose atingiu 61,92%. Entre os meninos, os percentuais foram de 70,53% para a primeira aplicação e 59,7% para a segunda. A meta estabelecida é de 90% de cobertura.

A dificuldade de alcançar esse patamar não é recente. Segundo especialistas, a desinformação, o medo de eventos adversos, a falta de conhecimento sobre o HPV e a percepção de que a vacina não seria necessária estão entre os fatores que contribuem para a baixa adesão.

O professor de epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Fernando Wehrmeister, avalia que a cobertura entre meninos permanece especialmente preocupante. Em 2025, a vacinação entre eles ficou em 74,55% na primeira dose, abaixo da meta, com uma diferença ainda maior na segunda aplicação.

Campanha tenta alcançar quem ficou para trás

A estratégia de resgate foi incluída no Calendário Nacional de Vacinação de 2026. A vacina contra o HPV passou a ser oferecida rotineiramente para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, enquanto jovens de 15 a 19 anos que não receberam a imunização podem ser convocados para a vacinação.

A ampliação da faixa etária busca recuperar pessoas que perderam a oportunidade de receber a vacina no período recomendado. A medida também tenta reduzir desigualdades regionais e alcançar municípios que ainda apresentam índices de vacinação abaixo do esperado.

Para especialistas, a vacinação não deve ser vista apenas como uma forma de proteção individual. A imunização também reduz a circulação do vírus e contribui para diminuir a transmissão do HPV, inclusive entre pessoas que ainda não tiveram contato com a infecção.

Resistência de pais e adolescentes ainda preocupa

A adesão à vacina também enfrenta obstáculos dentro das próprias famílias. Muitos pais ainda acreditam que o início da vida sexual aconteceria apenas mais tarde e temem que a vacinação contra o HPV incentive o início da atividade sexual entre crianças e adolescentes.

A resistência também é alimentada pela falsa percepção de que a infecção seria rara ou pouco perigosa. Como o vírus pode permanecer silencioso durante anos, muitas pessoas não percebem a importância da prevenção até que surjam complicações.

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) alerta que a vacinação antes da exposição ao vírus aumenta a proteção. A entidade também destaca que a imunização não elimina a necessidade de acompanhamento médico e de outras medidas de prevenção.

Municípios buscam aumentar adesão à vacinação

A saída encontrada por algumas cidades tem sido aproximar a vacinação das escolas. A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) defende que a imunização em ambientes escolares pode ampliar o alcance da campanha e facilitar o acesso de crianças e adolescentes.

A estratégia, porém, enfrenta resistência em parte das famílias. Alguns responsáveis ainda se recusam a autorizar a aplicação da vacina, o que dificulta o avanço da cobertura e mantém milhares de jovens fora da proteção recomendada.

Para especialistas, a vacinação contra o HPV precisa ser tratada como uma política permanente de prevenção. A combinação entre campanhas de resgate, ações nas escolas, informação confiável e participação das famílias é apontada como essencial para que o Brasil consiga atingir a meta de 90% e reduzir, no futuro, a ocorrência de doenças relacionadas ao vírus.

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