Cidades
por Lavínia Manso
Publicado em 26/09/2026, às 10h00
Muito antes do surgimento das cidades e da chegada dos colonizadores europeus, diferentes grupos humanos já ocupavam áreas que hoje pertencem ao Rio Grande do Norte. Parte dessa história permanece registrada em paredões, abrigos e formações rochosas espalhadas pelo interior potiguar, onde pinturas e gravuras rupestres ajudam pesquisadores a compreender ocupações ocorridas há milhares de anos.
O Rio Grande do Norte possui diversos sítios arqueológicos cadastrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). De acordo com o órgão, enquanto no litoral potiguar predominam sítios de superfície, o interior concentra uma grande quantidade de arte rupestre, principalmente na região do Seridó.
Entre pinturas, gravuras, restos de antigas ocupações e sepultamentos, alguns sítios preservam evidências de presença humana com mais de 9 mil anos e ajudam a reconstruir parte da história dos primeiros grupos que viveram na região.
A região do Seridó é um dos principais destaques quando o assunto é arqueologia no Rio Grande do Norte. Segundo o Iphan, inúmeros sítios arqueológicos vêm sendo estudados na área, onde podem ser encontradas diferentes pinturas e gravuras rupestres.
Parte desse patrimônio está localizada dentro do território do Geoparque Seridó, que abrange cerca de 2,8 mil quilômetros quadrados e reúne seis municípios: Acari, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Currais Novos, Lagoa Nova e Parelhas. Desde 2022, a área integra a Rede Mundial de Geoparques da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Entre os locais de destaque está o Geossítio Xique-Xique, em Carnaúba dos Dantas. Nos paredões de quartzito podem ser observados registros rupestres que fazem parte do patrimônio arqueológico da região.
O próprio Iphan cita os sítios Xique-Xique I e II entre os locais que receberam ações voltadas à preservação e à aproximação do público com esse patrimônio, incluindo a implantação de estruturas para visitação e iniciativas de educação patrimonial.
Outro exemplo impressionante está em Parelhas. Próximo à Barragem Boqueirão fica o Sítio Arqueológico Mirador, integrante do Geoparque Seridó e conhecido pela presença de pinturas rupestres nas cores vermelha, amarela e branca.
De acordo com a página oficial de turismo do município, os registros incluem representações de seres humanos, cervídeos, felinos e aves. As pinturas são classificadas dentro da chamada Tradição Nordeste, Subtradição Seridó.
As descobertas no local, no entanto, não se restringem às pinturas. Também foram encontrados vestígios de uma necrópole indígena infantil, além de ossos de roedores, contas produzidas a partir de ossos e conchas e fragmentos de carvão.
Segundo as informações oficiais do município, alguns desses materiais permitiram obter datações superiores a 9,4 mil anos, evidenciando a antiguidade das ocupações humanas naquela região.
O Mirador também chama atenção pela própria formação rochosa. O local é conhecido como Pedra do Sorriso e apresenta marcas provocadas pela ação natural do tempo sobre as rochas.
A formação teria sido utilizada como abrigo por populações antigas, segundo o material turístico oficial de Parelhas. A presença de câmaras mortuárias e dos registros rupestres encontrados na área reforça a importância arqueológica do local.
Esses vestígios fazem parte de um conjunto maior de evidências da ocupação humana no Seridó. Para os pesquisadores, pinturas, objetos, sepultamentos e outros materiais encontrados em sítios arqueológicos ajudam a compreender aspectos da organização, dos costumes e da relação desses grupos com o território.
Apesar dos locais já conhecidos, parte desse patrimônio ainda continua sendo descoberta. O Iphan afirma que pesquisas arqueológicas realizadas durante processos de licenciamento ambiental têm possibilitado a identificação de novos sítios no Rio Grande do Norte.
Quando materiais arqueológicos são encontrados, eles podem ser encaminhados para instituições responsáveis pela guarda e pesquisa. Universidades também participam de estudos que ajudam a ampliar o conhecimento sobre as ocupações humanas ocorridas no território potiguar.
Pela legislação brasileira, descobertas de bens arqueológicos devem ser comunicadas ao Iphan. Cabe ao instituto realizar o reconhecimento e o cadastro desse patrimônio, que é protegido em âmbito federal.
As pinturas e gravuras preservadas nas pedras funcionam como testemunhos de épocas muito anteriores à formação do atual Rio Grande do Norte. Os sítios arqueológicos representam fontes de informação sobre grupos humanos que ocuparam o território por milhares de anos.
No Geoparque Seridó, essa relação entre história humana e paisagem natural é especialmente visível. Alguns geossítios reúnem, no mesmo espaço, elementos arqueológicos, geológicos e paleontológicos. Em Cerro Corá, por exemplo, a região de Serra Verde também possui vestígios associados à megafauna que viveu há milhares de anos.
Preservar esses locais é fundamental para que as marcas deixadas por populações antigas continuem disponíveis para pesquisa e para as próximas gerações. Mesmo após milhares de anos, parte da história do território potiguar segue registrada nas pedras do interior do estado.
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