Cidades
Mulheres da geração Z têm repensado a importância dos relacionamentos amorosos e escolhido, em muitos casos, deixar encontros, flertes e aplicativos de namoro em segundo plano.
A tendência ganhou visibilidade nas redes sociais, onde principalmente mulheres heterossexuais compartilham frustrações afetivas e relatam a decisão de dedicar mais tempo à carreira, aos projetos pessoais e à saúde mental.
Conhecido como "boy sober", o movimento propõe uma espécie de pausa nos relacionamentos com homens. A expressão, inspirada na ideia de sobriedade, descreve a decisão de se afastar temporariamente da busca por parceiros, sem que isso represente necessariamente uma rejeição definitiva ao amor ou à vida a dois.
A popularização do termo levanta uma questão: até que ponto as redes sociais influenciam a maneira como as mulheres jovens enxergam os relacionamentos? Para Carmita Abdo, psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex), essas plataformas desempenham um papel importante na construção das referências afetivas das novas gerações.
Segundo a especialista, os conteúdos compartilhados na internet podem influenciar percepções sobre namoro, casamento e relações entre homens e mulheres. Diferentemente de outras épocas, quando livros, filmes e novelas tinham maior protagonismo na formação dessas referências, as redes sociais passaram a ocupar um espaço central na circulação de experiências e opiniões sobre a vida amorosa.
O que significa boy sober?
A expressão boy sober pode ser traduzida livremente como uma fase de abstinência de relacionamentos com homens. A proposta é interromper, por determinado período, a busca ativa por parceiros e direcionar a atenção para outras áreas da vida.
Na prática, a decisão pode envolver deixar de usar aplicativos de namoro, evitar encontros casuais, interromper flertes que não despertam interesse genuíno ou simplesmente não colocar a vida amorosa entre as prioridades.
O movimento também ganhou força com relatos de mulheres que dizem estar cansadas de relações marcadas por expectativas frustradas, falta de reciprocidade ou desgaste emocional.
Ao compartilhar essas experiências, elas encontram outras pessoas que enfrentam situações semelhantes e passam a questionar padrões tradicionalmente associados à felicidade feminina.
A pausa, entretanto, não segue uma regra única. Para algumas mulheres, significa permanecer solteira por algumas semanas ou meses. Para outras, representa uma mudança mais ampla de comportamento, com menos disposição para investir energia em relações que não correspondam às suas necessidades.
O termo não designa um diagnóstico psicológico nem uma prática terapêutica formal. Trata-se de uma expressão popularizada nas redes sociais para descrever uma escolha pessoal relacionada à vida afetiva.
Da obrigação de casar à liberdade de escolha
Durante séculos, o casamento foi apresentado como uma das principais formas de realização social das mulheres. Em diferentes contextos históricos, as uniões também estiveram relacionadas a interesses econômicos, familiares e patrimoniais, enquanto a autonomia feminina para decidir sobre o próprio destino era limitada.
Embora as condições tenham mudado, ainda existem expectativas sociais que associam a realização feminina à formação de um casal, ao casamento e à constituição de uma família.
Para Carmita Abdo, a ampliação das possibilidades profissionais e pessoais contribui para transformar esse cenário. A especialista destaca que as mulheres têm encontrado mais espaço para construir projetos de vida que não dependam exclusivamente de uma relação amorosa.
A boa notícia é que, pouco a pouco, as mulheres têm vivenciado com mais intensidade a profissão ou outros aspectos da vida além dos relacionamentos. E isto vai mudando o pensamento socialmente instituído ao longo de séculos. Nós estamos no caminho de transformar essa ideia antiga em algo novo, dando à mulher a possibilidade de escolha tanto quanto o homem tem”, afirma a psiquiatra.
Essa mudança não significa que o casamento ou os relacionamentos tenham perdido importância para todas as mulheres. O que se transforma é a possibilidade de decidir se, quando e em quais condições uma relação fará parte da vida.
Carreira, autonomia e expectativas influenciam as escolhas
A decisão de não procurar um relacionamento pode ter diferentes motivações. Algumas mulheres preferem investir na carreira, nos estudos, nas amizades, nas viagens ou em projetos pessoais. Outras simplesmente não encontram, naquele momento, uma parceria que corresponda às suas expectativas.
De acordo com Carmita Abdo, quanto maiores forem as expectativas em relação a uma parceria e a necessidade de preservar a autonomia, mais difícil pode ser encontrar alguém considerado compatível.
Quanto mais altas forem as expectativas, a autoestima e a necessidade de autonomia, mais difícil é encontrar uma parceria à altura dessas expectativas. Então, muitas mulheres, fazendo a conta, preferem permanecer sem alguém, exatamente porque não foi atingido o nível mínimo de exigência que elas têm em relação a estabelecer uma parceria”, explica.
A avaliação envolve considerar o que uma relação acrescentaria à rotina e quais concessões seriam necessárias. Quando a experiência amorosa parece exigir mais energia do que oferece em termos de satisfação, algumas mulheres optam por permanecer solteiras.
Essa decisão pode estar relacionada à busca por equilíbrio entre vida pessoal e afetiva. Também pode refletir a disposição de estabelecer limites mais claros e não aceitar relações marcadas por desrespeito, desigualdade ou falta de reciprocidade.
Experiências negativas podem provocar afastamento
Relacionamentos anteriores também influenciam a disposição para conhecer novas pessoas. Decepções sucessivas, conflitos, desrespeito e expectativas frustradas podem reduzir o interesse em iniciar outra relação.
“Uma situação negativa ou várias situações negativas sucessivas, em termos de relacionamentos frustrados, acabam trazendo desinteresse e afastam a possibilidade de uma nova tentativa”, observa Carmita.
Nesses casos, o afastamento pode funcionar como uma oportunidade para reorganizar a vida emocional e compreender quais experiências não se deseja repetir.
A especialista também diferencia a escolha consciente de permanecer solteira das dificuldades persistentes para estabelecer vínculos. Algumas pessoas desejam se relacionar, mas encontram obstáculos recorrentes para criar ou manter conexões afetivas. Essas dificuldades podem aparecer em outros ambientes sociais, como na escola, no trabalho e nas relações de amizade.
Por isso, não é possível atribuir a mesma motivação a todas as mulheres que decidem interromper a busca por parceiros. O significado dessa escolha depende da história, das necessidades e das circunstâncias de cada pessoa.
Pausa nos relacionamentos pode favorecer o autoconhecimento
Afastar-se temporariamente da vida amorosa após experiências negativas pode abrir espaço para refletir sobre escolhas, expectativas e padrões de comportamento. Segundo Carmita Abdo, esse período permite avaliar as relações anteriores e identificar circunstâncias que contribuíram para situações insatisfatórias.
A pausa também pode ajudar a reconhecer limites pessoais e a compreender quais características são consideradas essenciais em uma futura parceria.
Entre as reflexões possíveis estão a forma como cada pessoa lida com conflitos, as expectativas sobre compromisso, a divisão de responsabilidades e o respeito à individualidade. A intenção é evitar que a necessidade de estar em um relacionamento se sobreponha ao bem-estar pessoal.
Isso não significa que toda mulher precise fazer um intervalo entre relacionamentos ou que permanecer solteira seja necessariamente a melhor escolha. A decisão depende da experiência individual e de como a pessoa se sente em relação à própria vida afetiva.
Também é importante distinguir uma pausa voluntária, que traz tranquilidade e liberdade, de um afastamento motivado por sofrimento intenso, medo ou dificuldades persistentes de relacionamento. Quando há sofrimento significativo, buscar apoio psicológico pode ajudar a compreender o que está acontecendo.
Redes sociais ampliam o debate sobre relacionamentos
A popularização do boy sober também está relacionada à maneira como as redes sociais permitem compartilhar experiências pessoais e transformar vivências individuais em discussões coletivas.
Vídeos, relatos e debates sobre encontros frustrados, divisão desigual de responsabilidades emocionais e expectativas sobre os homens encontram públicos interessados em discutir padrões afetivos. Ao mesmo tempo, a exposição constante a conteúdos semelhantes pode reforçar determinadas percepções sobre relacionamentos.
Carmita Abdo avalia que as plataformas digitais têm influência na formação das referências das novas gerações. O conteúdo consumido na internet pode contribuir para a maneira como as pessoas interpretam suas próprias experiências e definem o que esperam de uma parceria.
Essa influência, porém, não significa que todas as mulheres que aderem à tendência tenham sido convencidas pelas redes sociais. Para muitas, os conteúdos podem funcionar como um espaço de identificação e troca, no qual encontram palavras para descrever sentimentos que já existiam.
Também é importante considerar que as experiências compartilhadas on-line não representam necessariamente a realidade de todas as mulheres da geração Z. A decisão de permanecer solteira varia conforme fatores pessoais, culturais, econômicos e sociais.
Estar solteira não significa desistir do amor
A principal característica do movimento é a possibilidade de retirar o relacionamento amoroso do centro das prioridades sem considerar essa escolha um fracasso pessoal.
Para algumas mulheres, a pausa é temporária e termina quando surge o desejo de conhecer alguém. Para outras, permanecer solteira pode ser uma opção duradoura, sem que isso represente solidão ou insatisfação.
A decisão também não impede a construção de vínculos afetivos importantes. Amizades, relações familiares, convivência social e projetos compartilhados podem continuar ocupando um espaço significativo na vida de quem não está procurando um parceiro.
O boy sober reflete, assim, uma discussão mais ampla sobre autonomia e expectativas sociais. Em vez de tratar o relacionamento como uma etapa obrigatória da vida adulta, a proposta coloca em evidência o direito de escolher quando uma relação faz sentido.
A avaliação de Carmita Abdo aponta para uma transformação gradual das referências sociais sobre o papel feminino. Nesse contexto, a possibilidade de investir na carreira, no bem-estar e nos projetos pessoais sem a obrigação de encontrar um parceiro representa uma ampliação das escolhas disponíveis.
Mais do que uma rejeição ao amor, a tendência pode ser entendida como um questionamento sobre o lugar que a vida amorosa deve ocupar na trajetória de cada mulher.
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