Cidades
O solo de Marte voltou a surpreender os cientistas da NASA. O rover Curiosity encontrou uma série de cavidades incomuns espalhadas pelas rochas do Monte Sharp, uma formação geológica localizada dentro da cratera Gale.
As imagens mostram buracos largos e rasos que, segundo a equipe da missão, não se parecem com estruturas observadas anteriormente pelo robô.
Os registros foram divulgados pela NASA na quinta-feira (3) e mostram uma formação que ainda não tem uma explicação definitiva.
Os pesquisadores sabem que cavidades podem surgir quando pequenos nódulos ou pedras incorporados à rocha são desgastados e desaparecem, deixando espaços vazios. O que chamou atenção agora é o formato das novas estruturas.
Diferentemente de outros buracos identificados pelo Curiosity, as novas cavidades são mais largas e pouco profundas. Além disso, não há sinais evidentes de objetos ou materiais que tenham ocupado aqueles espaços antes de desaparecerem.
A descoberta abriu uma nova investigação sobre os processos geológicos que alteraram essa região de Marte ao longo de bilhões de anos.
Buracos são diferentes dos já encontrados
De acordo com a NASA, buracos em rochas marcianas não são necessariamente algo extraordinário. O Curiosity já encontrou estruturas semelhantes durante sua longa exploração do planeta.
Em situações anteriores, os pesquisadores observaram que nódulos ou pequenas pedras mais resistentes estavam presentes dentro das rochas. Com o passar do tempo, processos de desgaste podem remover esses materiais, deixando cavidades no lugar onde eles estavam.
O cenário encontrado agora, porém, apresenta características diferentes. As cavidades são mais amplas e rasas do que as estruturas normalmente observadas pelo rover e não aparecem acompanhadas por objetos evidentes que possam explicar sua origem.
Essa diferença fez com que a equipe passasse a estudar os buracos com maior detalhamento. A intenção é descobrir se eles representam apenas uma variação de processos geológicos já conhecidos ou se revelam um mecanismo que ainda não havia sido identificado nessa região de Marte.
Imagens foram feitas a poucos centímetros da superfície
Os registros foram produzidos pela Mars Hand Lens Imager (MAHLI), uma câmera instalada na extremidade do braço robótico do Curiosity.
O equipamento foi desenvolvido para obter imagens extremamente detalhadas das rochas e do solo marciano. A câmera utiliza diferentes posições de foco para registrar o mesmo alvo e, posteriormente, combina essas imagens em uma composição única, permitindo que uma área maior apareça com nitidez.
A imagem divulgada pela NASA mostra uma das cavidades identificadas pela equipe. O buraco fotografado possui aproximadamente 1 centímetro de diâmetro, dimensão pequena para os padrões do terreno marciano, mas suficientemente significativa para ser analisada em detalhe pela instrumentação do rover.
A fotografia foi produzida em 19 de agosto de 2026, durante o 4.989º dia marciano de atividade do Curiosity.
Além da MAHLI, outros instrumentos foram utilizados para investigar o terreno ao redor das cavidades. A equipe também empregou a Mastcam, câmera instalada no mastro do rover, para observar as estruturas em diferentes perspectivas.
Cientistas ainda não sabem a origem
A principal questão agora é entender qual processo produziu os buracos.
Uma das possibilidades é que eles estejam relacionados à erosão. Ao longo de bilhões de anos, o vento, as variações ambientais e outros processos físicos e químicos modificaram a superfície de Marte e desgastaram diferentes tipos de rocha.
Outra hipótese envolve a presença de materiais que se desprenderam da rocha em algum momento de sua história. Caso isso tenha acontecido, os espaços observados atualmente poderiam ser marcas deixadas por componentes que estavam incorporados ao leito rochoso.
O problema é que as imagens não apresentam evidências claras de quais materiais poderiam ter ocupado as cavidades. Por isso, a equipe ainda não considera nenhuma explicação como definitiva.
A NASA descreveu as estruturas como um novo “quebra-cabeça” para os pesquisadores que estudam os processos responsáveis pela formação e transformação das rochas do Monte Sharp.
Curiosity analisa uma região cheia de pistas sobre o passado de Marte
O local onde a descoberta ocorreu é especialmente importante para a missão. O Monte Sharp fica no centro da cratera Gale, uma enorme depressão formada pelo impacto de um asteroide no passado remoto de Marte.
O Curiosity chegou à cratera em 2012 e, desde então, vem subindo pelas encostas do Monte Sharp para analisar diferentes camadas de rochas. Cada camada funciona como uma espécie de registro geológico, permitindo aos cientistas reconstruir parte da história ambiental do planeta.
Ao longo da missão, o rover encontrou evidências de que a região já teve água líquida. Os pesquisadores identificaram antigas formações relacionadas a rios, lagos e outros ambientes aquosos, mostrando que Marte teve condições muito diferentes das atuais.
A análise das rochas também revelou elementos químicos importantes para a vida, incluindo carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo e enxofre. Essas descobertas não significam que o Curiosity tenha encontrado vida, mas mostram que Marte antigo apresentou condições potencialmente favoráveis à existência de microrganismos.
O que os buracos podem revelar
Embora as cavidades sejam pequenas, estruturas desse tipo podem fornecer informações importantes sobre a história geológica de Marte.
Isso acontece porque a composição e a textura de uma rocha podem registrar processos que ocorreram muito tempo depois de sua formação. Um pequeno buraco pode indicar, por exemplo, que determinados minerais ou materiais estiveram presentes no passado e posteriormente foram removidos.
A distribuição das cavidades também pode ajudar os pesquisadores a entender como diferentes camadas do Monte Sharp foram alteradas.
Por isso, a equipe não está apenas fotografando os buracos. Os instrumentos do Curiosity estão sendo utilizados para analisar a composição das rochas, sua textura e a relação entre as diferentes estruturas presentes no terreno.
Os cientistas também produziram imagens sobrepostas e mosaicos em estéreo. Esses registros podem ser transformados em modelos digitais de elevação, permitindo estudar a forma e a profundidade das cavidades em três dimensões.
Rover está há 14 anos explorando Marte
O Curiosity foi lançado pela NASA em 2011 e pousou na cratera Gale em agosto de 2012. Desde então, o rover percorreu uma extensa área da superfície marciana e analisou dezenas de formações geológicas.
O veículo tem aproximadamente o tamanho de um carro e foi projetado para estudar as rochas, o solo e a atmosfera de Marte. Entre seus equipamentos estão câmeras, espectrômetros, instrumentos para análise química e um sistema capaz de perfurar rochas e coletar amostras.
Em agosto de 2026, o Curiosity alcançou mais um marco importante: atingiu um ganho de elevação de 1 quilômetro desde o início de sua jornada a partir da cratera Gale, enquanto continua avançando pelas encostas do Monte Sharp.
A longevidade da missão permite que o rover investigue regiões que estavam fora de seu alcance nos primeiros anos de exploração. Ao mesmo tempo, cada nova camada de rocha pode revelar informações sobre diferentes períodos da história do planeta.
Marte continua surpreendendo
Depois de 14 anos de exploração, o Curiosity já encontrou evidências de antigos rios, lagos, minerais formados pela presença de água e moléculas orgânicas. Ainda assim, a superfície marciana continua apresentando estruturas que desafiam as interpretações dos cientistas.
As novas cavidades do Monte Sharp são um exemplo disso. Elas podem ter uma explicação relacionada a processos geológicos conhecidos, mas as características observadas até agora não permitem confirmar essa hipótese.
A equipe pretende continuar estudando as estruturas com diferentes instrumentos para determinar como elas surgiram e o que podem revelar sobre a evolução das rochas da região.
Mais do que uma curiosidade visual, os pequenos buracos podem funcionar como pistas de uma história que começou bilhões de anos atrás. E é justamente esse tipo de evidência que mantém o Curiosity em atividade: descobrir, em cada camada de Marte, novos elementos capazes de explicar como o planeta mudou ao longo do tempo.
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