Cidades
por Lavínia Manso
Publicado em 23/08/2026, às 10h00
Embora o Rio Grande do Norte seja conhecido pelo calor, pelas praias e pelo clima predominantemente quente, algumas regiões do estado fogem desse padrão. Em áreas serranas e de maior altitude, principalmente durante o inverno, as temperaturas podem cair para a faixa dos 12°C aos 16°C, criando paisagens e experiências bem diferentes das encontradas no litoral potiguar.
A altitude é um dos principais fatores que ajudam a explicar as temperaturas mais baixas. Dados disponíveis sobre o relevo mostram que esses municípios estão entre as áreas mais elevadas do estado.
É importante fazer uma distinção, não existe um ranking oficial único e atualizado do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) classificando as cidades mais frias do RN. Por isso, a lista considera registros e referências climáticas disponíveis, além da altitude e das características das áreas serranas. As temperaturas mínimas citadas como marcas de inverno não representam necessariamente a média anual de cada município.
Na região Agreste do Rio Grande do Norte, Serra de São Bento aparece entre os principais destinos para quem procura temperaturas mais amenas. O município está localizado em uma área do Planalto da Borborema e possui altitude de aproximadamente 400 metros na sede.
Dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB), antigo CPRM, apontam temperatura média anual de 25,6°C, com mínima média anual de 18°C. A máxima média chega a 32°C.
Apesar das médias relativamente elevadas, registros divulgados sobre o período de inverno apontam que a temperatura pode cair para cerca de 12°C em episódios de frio mais intenso. É justamente essa combinação de relevo, altitude e noites mais frias que ajudou a transformar Serra de São Bento em um dos destinos serranos mais conhecidos do estado.
A climatologia de longo prazo do Climatempo, calculada a partir de uma série de 30 anos, mostra que julho e agosto estão entre os períodos mais amenos, com mínimas climatológicas próximas de 20°C.
Vizinha de Serra de São Bento, Monte das Gameleiras também chama atenção pelas temperaturas mais baixas durante o inverno. O município está a aproximadamente 500 metros de altitude e ganhou fama justamente pelo clima serrano e pelas paisagens formadas por montanhas e grandes formações rochosas.
Em levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, o município é descrito como um destino de clima de montanha e já teve registros de 13°C durante o inverno.
Os dados climatológicos de longo prazo, entretanto, mostram uma realidade mais amena. Segundo o Climatempo, as menores médias de temperatura mínima ocorrem entre julho e setembro, quando ficam em torno de 20°C. Em julho, a média da máxima é de 27°C.
Isso significa que os 13°C correspondem a episódios de frio mais intenso, e não à temperatura habitual da cidade.
No Oeste potiguar, Martins é provavelmente a cidade mais associada ao frio no imaginário dos potiguares. Localizada em uma região serrana, o município possui áreas com altitudes entre 400 e 800 metros, enquanto o Serrote Jacu, ponto culminante local, chega a aproximadamente 820 metros.
Um estudo publicado na Revista de Geociências do Nordeste, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), analisou as características climáticas da Serra de Martins. A pesquisa encontrou temperatura média de 23°C para o município e identificou o trimestre formado por junho, julho e agosto como o período de menores temperaturas médias, em torno de 21°C.
Documentos da própria Prefeitura de Martins também descrevem o município como uma área de temperaturas médias amenas, em torno de 23°C, com possibilidade de chegar a 15°C no inverno. O material destaca ainda que julho é o mês mais frio, com média de 21,3°C.
É essa característica que rendeu à cidade o apelido de “Campos do Jordão do Rio Grande do Norte”, além de estimular o turismo de inverno, a gastronomia e a realização de eventos durante os meses mais frios.
No Seridó, Tenente Laurentino Cruz também se destaca quando o assunto é frio. O município está localizado na Serra de Santana e possui altitude superior a 700 metros, característica que influencia diretamente as temperaturas.
A cidade é apontada em levantamentos geográficos como o município de maior altitude do Rio Grande do Norte, com a sede situada em uma cota próxima de 752 metros.
Durante o inverno, temperaturas na faixa dos 15°C são associadas ao município. Em julho de 2025, por exemplo, um episódio de frio fez os termômetros chegarem a 17°C, enquanto a sensação térmica foi estimada em 12°C.
A climatologia de 30 anos do Climatempo mostra que julho e agosto possuem as menores temperaturas mínimas médias do ano, próximas de 20°C.
Assim como ocorre em Martins e Monte das Gameleiras, é importante diferenciar a média climatológica de um registro pontual. Uma noite com 15°C ou menos pode acontecer durante um episódio de frio, mas isso não significa que essa seja a temperatura média da cidade.
Outro destaque é Lagoa Nova, na Serra de Santana. O município está localizado em uma das áreas mais elevadas do Rio Grande do Norte, com altitude aproximada de 686 metros, de acordo com levantamentos de altitude dos municípios potiguares.
A posição elevada favorece temperaturas mais agradáveis, especialmente durante as noites e madrugadas do inverno. Levantamentos sobre os municípios serranos do estado apontam que Lagoa Nova pode atingir aproximadamente 16°C nos períodos mais frios.
A cidade, portanto, integra uma faixa do território potiguar em que o relevo provoca uma diferença significativa em relação às áreas mais baixas e quentes do estado.
Segundo o Inmet, a principal explicação está na altitude. Em geral, quanto maior a altitude, menor tende a ser a temperatura do ar. Por isso, municípios localizados em serras e planaltos podem apresentar noites mais frias mesmo estando em uma região de clima predominantemente quente.
No Rio Grande do Norte, esse fenômeno é especialmente perceptível em áreas do Planalto da Borborema, da Serra de Martins e da Serra de Santana. Martins, por exemplo, possui áreas que ultrapassam 800 metros de altitude, enquanto Tenente Laurentino Cruz está entre os municípios mais elevados do estado.
Outro fator importante é a atuação de massas de ar e condições atmosféricas específicas durante o inverno. Quando o céu permanece mais aberto e há menor presença de nuvens, o solo perde calor mais rapidamente durante a noite, favorecendo temperaturas mais baixas nas primeiras horas do dia.
A resposta depende do critério utilizado. Se o parâmetro for altitude da sede, Tenente Laurentino Cruz aparece no topo, com aproximadamente 752 metros. Martins também se destaca, com mais de 700 metros em sua sede e áreas ainda mais elevadas no território municipal.
Já quando o critério é menor temperatura registrada ou divulgada em episódios de inverno, aparecem relatos de marcas próximas de 12°C em Serra de São Bento, 13°C em Monte das Gameleiras e 15°C em Martins e Tenente Laurentino Cruz.
Por isso, em vez de apontar uma única campeã de forma absoluta, os dados mostram que existe um verdadeiro “corredor do frio” no Rio Grande do Norte, formado principalmente pelas áreas serranas do Agreste, Oeste e Seridó.
Para quem vive no litoral, onde as temperaturas costumam permanecer elevadas durante boa parte do ano, uma viagem para esses municípios pode representar uma mudança completa de cenário. É possível trocar praia e calor por mirantes, serras, neblina, gastronomia e noites que exigem até casaco, algo que parece improvável quando se pensa no Rio Grande do Norte.
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