Política
Publicado em 23/01/2026, às 11h05 Reprodução internet Redação
As apurações sobre o Banco Master, fraudes em consignados do INSS e a origem de carteiras de crédito que lastrearam operações bilionárias passaram a concentrar a atenção em um empresário baiano que não ocupava o centro do noticiário até então: Augusto Ferreira Lima, o “Guga” Lima.
Ex-sócio de Daniel Vorcaro, ele é apontado por investigadores como peça-chave por ligar o modelo financeiro utilizado pelo banco a políticas de crédito estruturadas na Bahia durante gestões do PT.
Ex-sócio do banqueiro Daniel Vorcaro, Lima é apontado como personagem central por conectar o modelo financeiro utilizado pelo banco a políticas públicas de crédito criadas na Bahia durante gestões do PT.
Ambos foram presos preventivamente na Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. Lima foi posteriormente solto, mas segue monitorado e deve prestar novo depoimento à PF no fim de janeiro.
A origem: o CredCesta e a antiga Cesta do Povo
Guga Lima foi um dos responsáveis pela formatação do CredCesta, programa de crédito consignado vinculado à antiga Cesta do Povo, política social do governo baiano.
O modelo, inicialmente apresentado como ação de cunho social, migrou para um sistema financeiro baseado em desconto em folha de servidores públicos, transformando-se em uma operação de alto volume.
Essa transição ocorreu em 2018, durante o governo Rui Costa (PT), quando Jaques Wagner (PT-BA) comandava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia.
Lima teria vencido a licitação da venda da Ebal (Empresa Baiana de Alimentos) e, a partir disso, estruturou o cartão consignado CredCesta com juros abaixo do mercado, voltado principalmente para servidores públicos.
A entrada do Banco Master e a expansão nacional
A partir de 2018, o CredCesta passou a operar em parceria com o Banco Master. Em 2020, Lima tornou-se sócio de Vorcaro e levou o modelo para dentro do banco, onde o produto passou a figurar como um dos principais ativos financeiros da instituição.
O que era um programa regional foi replicado em escala nacional. Segundo as investigações:
- Carteiras de consignados passaram a ser cedidas e revendidas
- Os contratos eram utilizados como lastro para fundos de investimento
- Operações financeiras complexas foram estruturadas a partir desses créditos
Relatórios preliminares apontam que o Master teria negociado cerca de R$ 12 bilhões em carteiras com lastro considerado questionável, incluindo contratos que não teriam sido apresentados às autoridades.
Parte relevante desses créditos teria origem em associações de servidores da Bahia sem capacidade comprovada para gerar os volumes bilionários apresentados.
Por que Guga Lima preocupa mais que Vorcaro dentro do governo
Para investigadores, é Lima — e não Vorcaro — quem tem potencial de ligar o caso Master diretamente ao núcleo político do governo Lula por sua trajetória anterior na Bahia.
A relação dele com o petismo, segundo essas fontes, é anterior à relação de Vorcaro com o Centrão.
Ao mesmo tempo, Lima também mantém relações com figuras da direita baiana, como:
- ACM Neto (União Brasil)
- João Roma (PL), presidente do partido na Bahia
Ele é casado com Flávia Peres, ex-ministra do governo Jair Bolsonaro.
O rompimento com Vorcaro e a saída do Master
Interlocutores de Lima relataram que foi ele próprio quem pediu para deixar a sociedade no Master, em maio de 2024.
O motivo, segundo relatos, seria o fato de descobrir por terceiros negócios feitos por Vorcaro, além do incômodo com o perfil ostentador do banqueiro. Lima é descrito como alguém discreto.
Após a saída, ele assumiu o controle do banco Voiter, que em agosto passou a se chamar Banco Pleno e hoje é responsável pela administração do cartão CredCesta.
A estratégia de defesa de Lima deve se apoiar justamente nesse ponto: o desligamento da sociedade um ano antes da tentativa de compra do Master pelo BRB.
CPIs, INSS e o padrão observado pelos investigadores
No Congresso, a oposição tenta avançar com CPIs para investigar as conexões entre o Banco Master, o INSS e governos petistas.
Investigadores observam um padrão recorrente:
- Uso de associações de servidores
- Utilização de benefícios públicos como base
- Transformação dessas estruturas em engrenagens financeiras de alto risco
A assessoria do senador Jaques Wagner enviou a seguinte nota:
“A assessoria do senador Jaques Wagner (PT-BA) esclarece que o parlamentar conheceu o empresário Augusto Lima em 2017, quando exercia o cargo de secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Naquele período, uma das atribuições da pasta era conduzir o processo de venda do Supermercado Cesta do Povo, ocasião em que o referido empresário apresentou proposta no processo licitatório e arrematou o ativo”.
Depoimento à PF e próximos passos
Guga Lima deve depor à Polícia Federal no fim de janeiro. Pessoas próximas afirmam que ele não considera a possibilidade de colaboração premiada por entender que não tem o que delatar.
Segundo aliados, Lima se considera injustiçado e atribui a operação ao incômodo de parte do setor financeiro com o sucesso do CredCesta.
Enquanto isso, investigadores mantêm o foco no papel dele como elo entre políticas públicas de crédito da Bahia e as operações financeiras que hoje estão no centro do caso Banco Master.