Política
Publicado em 11/08/2026, às 09h22 Reprodução: Internet Redação
Enviar dinheiro para outro país ou pagar uma compra internacional poderá, no futuro, funcionar de maneira mais parecida com um Pix comum. Essa é uma das possibilidades que estão sendo estudadas pelo Banco Central (BC), que avalia conectar o sistema brasileiro a plataformas de pagamentos instantâneos de outros países e também a redes multilaterais.
A proposta ainda não está disponível para os usuários. O que existe neste momento é um estudo sobre como criar uma infraestrutura capaz de permitir pagamentos e transferências internacionais com liquidação em moeda local e processamento em poucos segundos.
Na prática, a ideia seria criar uma conexão entre o Pix e sistemas equivalentes utilizados em outros países. Em vez de o dinheiro necessariamente percorrer o sistema bancário internacional tradicional, a operação poderia ser processada por uma infraestrutura integrada entre os sistemas de pagamentos instantâneos.
Imagine, por exemplo, uma pessoa no Brasil que precise enviar dinheiro para alguém em outro país. O usuário faria a operação por meio de uma instituição participante do Pix, enquanto o sistema conectado no país de destino receberia a ordem e permitiria que o beneficiário recebesse o valor em sua moeda local.
O ponto central da proposta é justamente permitir que a transferência seja realizada de forma rápida, mesmo quando as duas pessoas utilizam moedas diferentes.
E como acontece a conversão da moeda?
Uma das principais diferenças em relação a um Pix doméstico está justamente no câmbio. Uma transferência entre contas brasileiras normalmente ocorre em reais. Em uma operação internacional, seria necessário fazer a conversão entre as moedas envolvidas.
Nesse modelo, o usuário poderia iniciar a operação em reais, enquanto o destinatário receberia o equivalente em sua moeda local. A taxa de câmbio, os custos da conversão e eventuais tarifas dependeriam das regras definidas para o serviço e das instituições envolvidas.
Por isso, conectar o Pix a outro sistema não significaria simplesmente transformar o Pix brasileiro em uma ferramenta global.
Seria necessário criar mecanismos para fazer a comunicação entre os sistemas, estabelecer regras para o câmbio e definir responsabilidades entre os participantes.
Brasil poderia fazer acordos com outros países
O Banco Central informou que existem diferentes modelos em análise. Um deles seria estabelecer conexões diretamente com sistemas de pagamentos de outros países.
Outra possibilidade é participar de estruturas multilaterais, capazes de conectar diferentes sistemas nacionais em uma mesma infraestrutura.
Esse tipo de integração poderia facilitar pagamentos internacionais, remessas de dinheiro e outras operações, principalmente entre países que possuam sistemas de pagamentos instantâneos compatíveis.
O que poderia mudar para o consumidor
Se a iniciativa avançar, uma das principais mudanças para o usuário seria a possibilidade de realizar determinadas operações internacionais de maneira mais simples e rápida.
Hoje, dependendo do tipo de transferência, enviar dinheiro para outro país pode envolver bancos intermediários, diferentes sistemas financeiros, tarifas e prazos de processamento.
Uma infraestrutura conectada aos sistemas instantâneos poderia reduzir etapas e, potencialmente, diminuir o custo dessas operações. O Banco Central também avalia que a iniciativa poderia ampliar o acesso da população brasileira aos pagamentos internacionais.
É importante, porém, diferenciar velocidade de liquidação de custo final. Mesmo que uma transferência seja processada em segundos, a operação ainda poderá envolver câmbio, tarifas e outras cobranças definidas pelos participantes do sistema.
Pix internacional ainda não tem data para começar
A possibilidade de integração internacional faz parte da agenda de novos produtos e funcionalidades do Pix apresentada pelo Banco Central no Relatório de Gestão do Pix 2023-2025.
O BC informou que está analisando tanto acordos bilaterais quanto alternativas multilaterais. A autoridade monetária também acompanha soluções que já vêm sendo utilizadas por empresas brasileiras e estrangeiras para realizar operações internacionais com o uso do Pix.
Até o momento, portanto, não existe uma data anunciada para que o chamado Pix internacional esteja disponível de forma ampla para os brasileiros.
Pix poderá funcionar até sem internet
A expansão do sistema não está restrita às operações internacionais. O Banco Central também estuda novas formas de utilização do Pix dentro do país.
Uma delas é o Pix por aproximação mesmo quando o usuário estiver sem conexão com a internet. A proposta busca ampliar as possibilidades de utilização do sistema em situações nas quais o celular não esteja conectado à rede.
Outra novidade em estudo é a ampliação do Pix Automático, que poderá ser utilizado para pagamentos recorrentes, como alternativa a modalidades tradicionais de débito automático.
Movimentações futuras podem ajudar na obtenção de crédito
O Banco Central também avalia utilizar informações relacionadas às movimentações futuras pelo Pix como mecanismo de garantia em determinadas operações de crédito.
A ideia é que esse histórico possa ajudar instituições financeiras a avaliar a capacidade de pagamento de determinados clientes e empresas.
Segundo a proposta, uma melhoria na qualidade das garantias poderia contribuir para diminuir o custo do crédito, especialmente em empresas que utilizam o Pix de maneira intensa em suas operações.
Banco Central quer mudar uso das mensagens
Outro ponto identificado pelo BC envolve o campo de mensagens que acompanha algumas transferências Pix.
A ferramenta, criada para permitir o envio de informações junto à operação, vem sendo utilizada em determinados casos para encaminhar ofensas, ameaças e intimidações. Há registros de situações em que esse tipo de comportamento ocorre associado a transferências de valores muito baixos.
Diante disso, o Banco Central criou um grupo de trabalho para estudar alterações no recurso. A partir das conclusões, poderão ser estabelecidas novas regras para reduzir o uso inadequado das mensagens.
Segurança deve ganhar reforço contra fraudes
A agenda de evolução do Pix também prevê oito medidas voltadas ao combate a fraudes e operações suspeitas.
Uma das propostas é estabelecer critérios mínimos e objetivos para identificar possíveis transações fraudulentas. Atualmente, as instituições financeiras possuem seus próprios parâmetros para avaliar o risco de determinadas operações.
A intenção do BC é reduzir diferenças entre os critérios utilizados pelos participantes e tornar a identificação de comportamentos suspeitos mais eficiente.
Inteligência artificial poderá identificar operações suspeitas
Outra medida em estudo é a criação de um indicador de probabilidade de fraude calculado em tempo real.
A ferramenta poderá utilizar modelos de inteligência artificial para analisar as características das operações e estimar a possibilidade de uma transação ser fraudulenta.
A proposta é que esse indicador possa ser disponibilizado aos bancos e demais participantes do Pix, permitindo que as próprias instituições reforcem seus mecanismos de prevenção.
O Banco Central também pretende padronizar alertas de fraude e melhorar o compartilhamento de informações entre as instituições, com o objetivo de acelerar medidas como bloqueios cautelares.
Também estão em avaliação medidas preventivas para instituições que apresentem riscos ao funcionamento do sistema, incluindo possíveis restrições à criação de novas chaves Pix.
Por que o Pix chamou atenção dos Estados Unidos?
A expansão do Pix também ganhou uma dimensão internacional que vai além dos planos de integração com outros sistemas de pagamentos.
O mecanismo brasileiro entrou nas discussões comerciais entre Brasil e Estados Unidos depois que o governo norte-americano incluiu o Pix entre os argumentos utilizados para justificar medidas tarifárias aplicadas a produtos brasileiros.
A administração dos Estados Unidos considera o sistema uma prática que poderia representar concorrência considerada desleal no mercado financeiro brasileiro. O governo brasileiro contesta essa interpretação.
Especialistas consultados pela Agência Brasil apontaram, entre os fatores que ajudam a explicar o interesse norte-americano pelo Pix, o fato de o sistema funcionar fora da infraestrutura financeira controlada pelos Estados Unidos.
O que pode acontecer daqui para frente
O futuro do Pix aponta para um sistema que vai além das transferências instantâneas entre contas brasileiras. A possibilidade de conexão com sistemas estrangeiros, pagamentos sem internet, débito automático, novas ferramentas de crédito e mecanismos mais sofisticados de combate a fraudes fazem parte da próxima etapa de desenvolvimento da plataforma.
No caso das operações internacionais, entretanto, o caminho ainda depende de definições técnicas, regulatórias e comerciais. Se os projetos avançarem, o Pix poderá se transformar em uma das portas de entrada dos brasileiros para uma infraestrutura de pagamentos instantâneos conectada a outros países.