Política
Publicado em 31/10/2025, às 13h17 © Joédson Alves/Agência Brasil Giovana Gurgel
O presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, vai depor na próxima segunda-feira (3) à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.
O dirigente é apontado como um dos principais operadores de um esquema de fraudes em aposentadorias e pensões, que pode ter desviado mais de R$ 220 milhões de beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social.
Convocado por meio de oito requerimentos aprovados pelo colegiado, Abraão Lincoln será ouvido a partir das 16h. Ele, de 64 anos, disputou vaga de deputado federal pelo Rio Grande do Norte nas eleições de 2018, obtendo 42.431 votos.
Sua entidade, a CBPA, está entre as investigadas pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, deflagrada em abril deste ano. A ação apura descontos irregulares em benefícios do INSS entre 2019 e 2024.
Tanto Abraão quanto a Confederação tiveram bens bloqueados por determinação da Justiça, a pedido da Advocacia-Geral da União. A CPMI já aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do dirigente e requisitou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) o envio de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF).
De acordo com o senador Izalci Lucas (PL-DF), um dos autores do pedido de convocação, a CBPA seria “um dos eixos centrais da arquitetura criminosa desvelada pela Operação Sem Desconto”.
Segundo o parlamentar, a entidade provocou impacto financeiro estimado em R$ 221,8 milhões, desviados de forma “sistêmica e contumaz” de aposentados e pensionistas.
O nome de Abraão Lincoln já havia surgido em outras sessões da CPMI, citado pelo relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL). A Comissão considera o dirigente “uma das engrenagens centrais de um esquema predatório que drenou recursos de beneficiários do INSS”.
Um requerimento aprovado em setembro solicitou ao Coaf o detalhamento das movimentações financeiras de Abraão entre janeiro de 2019 e julho de 2025.
Levantamento do Coaf aponta que a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura movimentou R$ 409 milhões em uma agência bancária na periferia do Distrito Federal, entre 2024 e 2025.
As transações foram classificadas como “atípicas” e “incompatíveis” com a capacidade financeira da entidade.
Entre as operações suspeitas, constam repasses de R$ 12,8 milhões a duas empresas ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado pela Polícia Federal como um dos mentores do esquema.
Além disso, foram identificados pagamentos a fornecedores sem relação com a atividade-fim da confederação.
Abraão Lincoln já foi preso pela Polícia Federal em 2015, acusado de participar da venda ilegal de permissões para pesca industrial.
Em sua trajetória política, foi suplente de deputado estadual e duas vezes suplente de deputado federal. Atualmente, também é vice-presidente nacional da Força Sindical.
O dirigente manteve interlocução direta com o governo federal. Em janeiro de 2023, participou de reunião no Palácio do Planalto com o presidente Lula e outros sindicalistas.
No mês seguinte, teve audiência com o então ministro da Previdência, Carlos Lupi, posteriormente afastado em meio ao escândalo. Também se reuniu com ministros como Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e André de Paula (Pesca).
Segundo dados obtidos pela CPMI, a CBPA arrecadou R$ 57,9 milhões em 2023 e R$ 164,7 milhões em 2024 por meio de descontos automáticos em aposentadorias e pensões de idosos.
O total movimentado pela entidade, somando os repasses investigados, ultrapassa R$ 400 milhões.
Procurada pela comissão e pela imprensa, a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura não quis se manifestar sobre as investigações.
O depoimento de Abraão Lincoln, na segunda-feira (3), deve ser um dos mais aguardados da CPMI, que vê nele a peça-chave para entender o funcionamento e a amplitude do esquema fraudulento no INSS.
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