Política
Publicado em 23/08/2026, às 06h00 Arquivo pessoal Anderson Barbosa
Um ano depois de ser brutalmente agredida dentro do elevador de um condomínio na Zona Sul de Natal, Juliana Garcia dos Santos Soares transformou a violência sofrida em uma bandeira de luta contra a violência de gênero. O crime, que completou um ano no último dia 26 de julho, teve repercussão nacional e colocou o Rio Grande do Norte no centro do debate sobre violência contra a mulher.
Juliana foi atacada pelo então namorado, o ex-jogador de basquete Igor Eduardo Pereira Cabral. Em menos de um minuto, ela levou 61 socos. Igor está preso e aguarda julgamento por tentativa de feminicídio. Para a reconstrução facial, foram necessárias sete placas de titânio, presas com 31 parafusos.
Hoje, aos 36 anos, Juliana disputa uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Ela é candidata a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições deste ano.
A entrada na política, segundo Juliana, não foi uma decisão tomada de imediato. Ela afirma que recebeu convites de diferentes grupos e partidos, mas resistiu inicialmente. O que mudou sua posição foi, principalmente, a insistência de mulheres que passaram a procurá-la para pedir que ocupasse um espaço de representação política.
"As pessoas me sondaram, procuraram saber se eu tinha interesse. Eu sempre fui muito resistente. Inicialmente disse que não queria, que não queria de jeito nenhum. De fato eu não queria, mas as mulheres, elas me pediram para que eu ajudasse, para que eu tomasse alguma providência, para que eu ajudasse de alguma forma. Eu tentei como pessoa física, até eu realmente ter a noção da proporção e do tamanho do problema. Como pessoa física eu não vou conseguir ajudar. Só como pessoa física não. É uma situação estrutural que é complicada. Então eu resolvi lançar a minha candidatura. As mulheres pediram e eu vi a necessidade. Eu sofri muita política de gênero. Com a violência da política de gênero, quando eu me posicionei, quando eu posicionei o meu lado partidário. Então, os níveis de violência, eles foram aumentando com o passar do tempo. Por isso resolvi usar isso como forma, como gás, para lutar mesmo. Então, é converter essa energia, sabe? É mudança de energia mesmo", explicou Juliana Garcia.
Antes de se tornar uma das principais vozes do debate sobre violência contra a mulher no estado, Juliana Garcia já havia assumido responsabilidades muito cedo.
Ela tinha apenas 11 anos quando nasceu o irmão mais novo. Enquanto a mãe trabalhava, Juliana ajudava a cuidar dele durante o dia. A experiência, segundo sua trajetória, fez com que ela assumisse responsabilidades ainda na infância.
Mãe de uma menina de 10 anos, Juliana concluiu o ensino médio e iniciou diferentes cursos superiores ao longo dos anos. Tentou se formar em Serviço Social, fez Segurança do Trabalho, começou Educação Física e chegou ao oitavo período de Psicologia, mas não concluiu nenhuma das graduações.
Seu primeiro emprego foi no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, onde trabalhava no protocolo administrativo. Ela deixou o cargo porque precisava escolher entre trabalhar e estudar. Optou pelos estudos, embora posteriormente não tenha concluído a graduação.
Ao lembrar da decisão, admite que ficou frustrada com a instituição onde estudava Psicologia e acabou trancando o curso. Anos depois, reconhece que gostaria de ter concluído a formação.
"Mas, faz parte das experiências da vida, né?".
A experiência profissional, porém, aproximou Juliana de áreas ligadas à assistência social e à proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Ela trabalhou em casas de acolhimento para crianças de zero a sete anos que estavam sob medida de proteção judicial, enquanto aguardavam a definição de suas situações familiares. Também atuou no atendimento à população em situação de rua.
Na Secretaria de Estado do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social do RN (SETHAS), exerceu a função de subcoordenadora de qualificação profissional. Também foi Conselheira Estadual dos Direitos das Mulheres, cargo do qual precisou se afastar em razão da candidatura.
A violência contra a mulher passou a ocupar um lugar ainda mais central na trajetória de Juliana depois do crime que sofreu. Para ela, a sociedade ainda carrega uma estrutura que historicamente atribui às mulheres a responsabilidade pelos cuidados da família e da casa.
"Assim nós fomos ensinadas a cuidar, a sermos as cuidadoras. É tanto que dificilmente um homem, uma pessoa do gênero masculino, assume a posição de cuidador. Geralmente esse papel é feito por uma mulher. Cuidar de um idoso, de alguém que esteja acamado, essa responsabilidade sobre para a mulher, porque assim nós fomos ensinadas".
Na avaliação dela, essa sobrecarga também afeta a vida profissional. As mulheres acumulam funções domésticas e familiares que não são remuneradas e que, muitas vezes, dificultam a formação e a ascensão profissional.
Para Juliana, o objetivo é contribuir para que as mulheres tenham independência financeira e condições de construir seus próprios caminhos.
"Então, meu objetivo é que a gente consiga construir uma sociedade mais livre e mais justa para que as mulheres possam trilhar o seu caminho sem essa dependência financeira e com autoestima boa para que elas não precisem se submeter às situações de risco. Então, o meu sonho é uma sociedade mais igualitária mesmo", afirmou.
Um ano depois da agressão, Juliana afirma que a própria história passou a ser utilizada como instrumento de incentivo para outras mulheres que enfrentam situações de violência.
Ela conta que recebe relatos diariamente pelas redes sociais e pessoalmente. Segundo Juliana, saber que outras mulheres encontram força em sua trajetória tornou-se uma das principais razões para continuar falando publicamente sobre o que aconteceu.
"Totalmente, sem dúvidas. Esse é o meu combustível. Em uma agenda que eu participei, uma mulher muito emocionada me falou que eu sou inspiração para ela, e que ela luta todos os dias pensando que ela também, assim como eu, vai conseguir sair dessa situação. Recebo relatos diariamente através de redes sociais, pessoalmente. Saber que você, de alguma forma, a sua história, influencia a vida de outras mulheres positivamente para que elas tenham força para sair desse tipo de situação tóxica, é muito motivante. É bastante combustível para a engrenagem funcionar. Sem esse apoio todo, sem toda essa rede que se formou e se solidarizou comigo, não sei teria essa mesma garra de lutar. As mulheres realmente são meu combustível para poder seguir nessa luta, porque não é fácil. Todas as vezes que eu falo, que eu preciso dar o meu relato, eu trago a situação à tona. Eu não posso deixar de falar. Quando eu falo, ajudo outras mulheres, mas é difícil porque é uma ferida que está sempre aberta".
Ao completar um ano do crime, Juliana afirma que uma das principais lições foi aprender a não aceitar situações de desrespeito e a reconhecer sinais de risco.
"Passado um ano do crime, da violência, as lições que ficam são para que possamos nos amar em primeiro lugar, para que não suportemos mais situações que não nos cabe. Não devemos aceitar ser distratadas, não aceitar nada que realmente não mereçamos. É de não tolerar. Uma segunda chance que nós damos pode custar a nossa vida. Então, a partir do momento que alguém nos desrespeitar, que sentimos que fomos ameaçadas, que você achou que estava correndo risco, é hora de sair da situação sem nem pensar duas vezes. O amor ele é construído. A gente pode construir o amor de novo. Então, para não ficar presa nisso, se não der certo com uma pessoa, vai dar certo com outra em algum momento. E se não der, também está tudo bem. A gente não precisa de outra pessoa para ser feliz. Precisamos estar feliz conosco. Para que a gente seja feliz, precisamos buscar ocupar a mente, fazer atividade física, essas coisas".
Juliana também afirma reconhecer que teve acesso a condições que muitas outras mulheres vítimas de violência não possuem. O caso teve grande repercussão e foi registrado por câmeras de segurança, algo que, segundo ela, não acontece com a maioria das vítimas.
"Eu sei que mulheres passam por situações de violência e não têm câmeras de segurança para comprovar as agressões sofridas, como aconteceu comigo. Por isso, muitas vezes somos descredibilizadas. Não acreditam na nossa palavra e o nosso relato acaba não tendo a importância que deveria ter para a sociedade. Quero deixar claro que reconheço meus privilégios. Minha atuação política é para garantir que os direitos das mulheres sejam respeitados e sejam mantidos, não só por questão de privilégio, porque o meu caso teve repercussão nacional. Reconheço que através dessa repercussão eu acabei tendo privilégios. E que não seja só uma questão de privilégio por conta da repercussão da mídia. Que seja, sim, um direito de toda mulher."
Para ela, a repercussão do caso não pode ser o fator determinante para que uma vítima seja ouvida e tenha seus direitos garantidos.
A candidata a deputada estadual pelo PT também deixa um recado às mulheres que enfrentam violência e ainda têm medo de denunciar.
"Não fiquem envergonhadas de terem passado por esse tipo de situação. Muitas mulheres não denunciam porque têm vergonha, têm vergonha de como serão vistas pela sociedade, mas isso não é motivo para constrangimento. Quem é para estar constrangido é o agressor, é o abusador, não somos nós. Não deixar de falar de jeito nenhum, porque enquanto eles tiverem a certeza do silêncio, enquanto esse silêncio não for de fato rompido, eles continuarão fazendo as atrocidades que fazem sem que ninguém fale nada. A gente precisa mostrar através de denúncias, através das redes sociais, através dos amigos, através de todos os lugares e de todos os canais que podem ser usados como denúncia. E que você, mulher, possa ter visibilidade".
Ela reforça a importância da denúncia e afirma que o silêncio pode aumentar o risco para outras vítimas.
"A gente precisa usar esses canais, esses meios, para que todos saibam do que um agressor é capaz de fazer. A partir do momento que a gente começar a constranger, a gente começar a expor essas situações, as pessoas vão se preocupar mais. Então, é para não se calar, para falar sempre, denunciar sempre, por mais difícil que seja. A omissão, a falta de denúncia, ela pode custar a sua vida".
"Mensagem para Igor Cabral não tenho nenhuma. Eu não falo sobre ele em nenhuma entrevista, em nenhuma reportagem, nada. Não tenho nada a direcionar a ele. Aos homens, que eles repensem suas atitudes, que eles repensem se eles realmente tratam as companheiras da forma que elas merecem ser tratadas e que eles não têm o direito de achar que nós somos posse, propriedade deles. Então, que eles entendam que o fato de você estar num relacionamento com alguém não significa que você tem poder na vida dessa pessoa. Não. Nós somos livres e vamos continuar sendo, ocupando lugares e resistindo. Então, nós não somos propriedades. Esse é um dos maiores recados".
Um ano depois de sobreviver a uma agressão que chocou o Rio Grande do Norte, Juliana Garcia agora leva a própria experiência para o campo político. A candidatura a deputada estadual representa, segundo ela, uma tentativa de transformar uma história marcada pela violência em atuação pública em defesa de outras mulheres.
A mulher que precisou assumir responsabilidades ainda criança, que passou pelo serviço público, pela assistência social e pela defesa dos direitos das mulheres, agora tenta ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa com uma bandeira que, para ela, nasceu da própria experiência: construir uma sociedade em que as mulheres não precisem lutar pelo básico para ter seus direitos respeitados.
Juliana foi espancada por Igor Cabral na tarde do dia 26 de julho de 2025, após uma discussão no elevador do condomínio onde ela morava, na Zona Sul de Natal.
Em menos de um minuto, Juliana Garcia levou 61 socos. O vídeo abaixo mostra a violência:
Leia também