Política
Publicado em 28/10/2026, às 09h19 Reprodução: Internet Redação
Flávio Bolsonaro deixa o Brasil após derrota eleitoral e terá vistos para entrar nos EUA
Senador viajou com a esposa e as duas filhas após decisão do STF que o impedia de deixar o país; governo americano confirmou autorização de entrada, enquanto aliados dizem desconhecer os planos do parlamentar.
A saída de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, após a derrota na disputa presidencial de 2026, provocou uma nova crise política e jurídica. O senador viajou acompanhado da esposa, Fernanda, e das duas filhas, passando pela Argentina antes de seguir para o Equador, em um deslocamento que ganhou repercussão internacional diante de uma determinação judicial que o impedia de deixar o território brasileiro.
Em meio às dúvidas sobre o destino da família, o governo de Donald Trump anunciou, na terça-feira (27), que concederá vistos ao parlamentar e aos familiares, autorizando a entrada deles nos Estados Unidos.
A confirmação foi feita por um representante de alto escalão do Departamento de Estado à agência de notícias AFP. A medida, porém, não equivale à concessão de asilo político, nem esclarece quais serão os próximos passos do senador diante das questões judiciais no Brasil.
O episódio ganhou ainda mais relevância porque ocorreu após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou o cancelamento dos passaportes de Flávio Bolsonaro e proibiu sua saída do país.
A viagem, inicialmente cercada de informações contraditórias, passou a ser objeto de questionamentos sobre o cumprimento da ordem judicial e motivou pedidos de prisão preventiva apresentados por parlamentares.
Governo americano confirma autorização de entrada
A decisão dos Estados Unidos foi divulgada na terça-feira (27), quando um representante de alto escalão do Departamento de Estado confirmou à AFP que o senador e seus familiares receberiam vistos para ingressar no país.
A declaração ocorreu em meio às notícias de que Flávio havia deixado o Brasil sem entregar os passaportes à Polícia Federal, conforme determinado pelo STF. Naquele momento, ainda existiam dúvidas sobre o trajeto realizado pelo parlamentar e sobre sua localização exata.
A autorização americana representa uma medida migratória que permite a entrada da família, mas não significa que o senador tenha recebido asilo político. São procedimentos diferentes, com requisitos próprios, e não havia confirmação oficial de concessão de proteção dessa natureza.
A viagem também colocou em evidência os vínculos políticos entre integrantes da família Bolsonaro e o governo de Donald Trump. Aliados do senador afirmaram que a administração americana tinha conhecimento do deslocamento, enquanto outros chegaram a atribuir ao governo dos Estados Unidos participação no planejamento da saída do Brasil. Essas alegações, contudo, não foram confirmadas pela declaração oficial do Departamento de Estado.
Autoridades argentinas esclarecem a rota da viagem
As primeiras informações sobre o possível deslocamento internacional de Flávio Bolsonaro foram divulgadas pelo portal argentino Infobae, na madrugada de terça-feira (27). A publicação apontava que o senador teria atravessado a fronteira utilizando um documento de identidade e seguiria até Puerto Iguazú, na Argentina, de onde embarcaria em um avião particular com destino a Miami.
A aeronave citada nas reportagens era um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, operado pela empresa Baires Fly. O avião havia partido de Buenos Aires às 22h14 de segunda-feira (26) e pousado em Puerto Iguazú às 23h45. Dados de plataformas de monitoramento indicavam que o jato permanecia no aeroporto argentino, alimentando dúvidas sobre a realização do voo previsto.
O piloto Mauro Mattosinho afirmou ter recebido informações de que o nome do senador constava na lista de passageiros de um voo executivo que sairia de Puerto Iguazú. Segundo ele, a decolagem estava inicialmente programada para as 2h da madrugada, mas a aeronave ainda permanecia na pista às 7h.
Naquele momento, os registros disponíveis não permitiam confirmar se Flávio estava no aeroporto ou se havia embarcado. A situação contribuiu para a circulação de versões divergentes sobre o percurso escolhido pelo parlamentar.
O aeroporto de Puerto Iguazú fica a aproximadamente 22 quilômetros da fronteira brasileira. A cidade argentina é conectada a Foz do Iguaçu, no Paraná, pela Ponte Internacional Tancredo Neves. O trajeto de carro pode ser realizado em cerca de meia hora, sem considerar o tempo necessário para os procedimentos migratórios e aduaneiros.
Entrada na Argentina ocorreu na noite de terça-feira
A confirmação oficial sobre o deslocamento surgiu na manhã desta quarta-feira (28). A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que Flávio Bolsonaro, a esposa, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas entraram no país às 22h50 de terça-feira, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones.
Segundo o órgão argentino, os quatro apresentaram documentos válidos para a viagem e não havia impedimento legal para a entrada deles no território argentino. O procedimento migratório foi registrado sem incidentes.
Cerca de 40 minutos depois, às 23h30, a família embarcou em um avião particular operado pela empresa Baires Fly. De acordo com o plano de voo apresentado às autoridades, o destino informado era Guayaquil, no Equador. A rota foi apontada como parte do deslocamento internacional do senador, que, segundo fontes ouvidas pela imprensa, teria os Estados Unidos como destino final.
Antes dessa confirmação, veículos argentinos haviam divulgado que Flávio teria cruzado a fronteira a pé e desistido de embarcar no jato fretado. Outra versão sustentava que ele teria saído de um ponto diferente do território argentino e que a inclusão de seu nome na lista de passageiros do voo de Puerto Iguazú poderia ter sido utilizada para despistar a localização real da viagem.
Também houve divergências entre integrantes do grupo político do senador. Algumas pessoas próximas à família afirmavam que ele já estava a caminho dos Estados Unidos, enquanto outras negavam que tivesse passado pela Argentina. A confirmação das autoridades migratórias esclareceu parte dessas dúvidas, embora o destino final do voo registrado oficialmente fosse o Equador.
Viagem ocorreu após decisão de Alexandre de Moraes
A saída de Flávio Bolsonaro aconteceu após uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que ordenou a entrega dos passaportes do senador e o proibiu de deixar o Brasil.
A decisão foi tomada no domingo (25), dia do segundo turno das eleições presidenciais, no contexto de uma investigação envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro. O ministro determinou o recolhimento dos documentos de viagem e estabeleceu prazo para que fossem apresentados à Polícia Federal.
Na segunda-feira (26), Flávio afirmou, em um vídeo publicado nas redes sociais, que havia sido abordado por agentes da Polícia Federal ao deixar a residência do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o senador, os agentes informaram que ele estava proibido de sair do território brasileiro.
Na ocasião, o parlamentar classificou a medida como uma tentativa de intimidação e declarou que entregaria os documentos para se defender das acusações.
A entrega, entretanto, não ocorreu dentro do prazo estabelecido, que terminou às 11h de terça-feira (27). Diante do descumprimento, a Polícia Federal cancelou os passaportes brasileiros comum e diplomático do senador, conforme informações divulgadas pela imprensa.
O caso passou a levantar questionamentos sobre as circunstâncias da saída do país e sobre os documentos utilizados na travessia da fronteira argentina. O comunicado oficial da Direção Nacional de Migrações confirmou a entrada de Flávio e de seus familiares na Argentina, mas não especificou qual documento cada integrante apresentou.
A existência de uma eventual documentação estrangeira também foi mencionada em reportagens sobre o caso. Flávio possui cidadania italiana, e cidadãos dos países do Mercosul podem utilizar documentos de identidade válidos em determinadas viagens regionais. Essa possibilidade, porém, não elimina automaticamente os efeitos de uma ordem judicial brasileira que proíba a saída do território nacional.
Senador é investigado em dois inquéritos no STF
Flávio Bolsonaro é investigado em dois procedimentos que apuram suspeitas de irregularidades financeiras e possíveis relações com empresários.
Um dos casos envolve o advogado e empresário Willer Tomaz e apura suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a operações financeiras e ao setor de apostas. A investigação busca esclarecer a origem de recursos e possíveis vínculos entre os envolvidos.
O segundo inquérito trata do financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A apuração envolve negociações para levantar recursos destinados ao projeto e possíveis relações financeiras entre o senador e empresários ligados ao setor bancário.
As duas investigações ainda dependem do trabalho das autoridades responsáveis pela apuração. A existência de inquéritos não significa condenação, e os envolvidos negam as irregularidades atribuídas a eles.
A decisão sobre os passaportes acrescentou um novo componente ao caso, uma vez que a Polícia Federal apontou risco de evasão do território nacional. O deslocamento internacional do senador passou, assim, a ser acompanhado também sob a perspectiva do cumprimento das determinações judiciais.
Parlamentares pedem prisão preventiva e inclusão na Interpol
A repercussão sobre a possível saída de Flávio Bolsonaro levou parlamentares a solicitar novas medidas ao Supremo Tribunal Federal.
Os deputados federais Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG), além da deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), pediram ao ministro Alexandre de Moraes a decretação da prisão preventiva do senador.
Os parlamentares também solicitaram que o nome de Flávio fosse incluído na difusão vermelha da Interpol, caso fosse expedido um mandado de prisão. O mecanismo permite comunicar às autoridades policiais de outros países que uma pessoa é procurada para localização e eventual prisão provisória com vistas à extradição, conforme a legislação de cada país.
A difusão vermelha não equivale automaticamente a um mandado internacional de prisão com execução obrigatória em todas as jurisdições. A aplicação de medidas depende dos procedimentos legais e da avaliação das autoridades nacionais.
Até o momento das primeiras notícias sobre o caso, não havia confirmação de decisão de Moraes a respeito dos pedidos apresentados pelos parlamentares. A confirmação posterior da passagem de Flávio pela Argentina e do embarque para o Equador acrescentou informações à apuração, mas não significou, por si só, a decretação de prisão ou a adoção de medidas internacionais contra o senador.
Aliados afirmam que não conheciam os planos do senador
A viagem provocou surpresa entre integrantes da campanha presidencial e pessoas próximas à família Bolsonaro. Segundo relatos divulgados pela imprensa, parte dos aliados não sabia que Flávio pretendia deixar o país e só tomou conhecimento da possibilidade após a circulação das primeiras notícias.
Alguns interlocutores afirmaram que o governo de Donald Trump estava ciente do deslocamento e que o senador poderia receber asilo nos Estados Unidos. Um aliado chegou a atribuir à administração americana participação no planejamento da viagem.
A manifestação oficial do Departamento de Estado, entretanto, limitou-se à confirmação de que Flávio e seus familiares receberiam vistos e poderiam entrar nos Estados Unidos. Não houve anúncio oficial de concessão de asilo político.
Integrantes do núcleo da campanha e advogados também afirmaram ter sido surpreendidos com as informações. Segundo esses relatos, a possibilidade de saída do país contrariava declarações feitas pelo próprio senador na segunda-feira (26), quando afirmou que nunca havia pensado em deixar o Brasil.
Na mesma ocasião, Flávio anunciou que pretendia organizar a oposição ao próximo governo Lula no Congresso Nacional. A declaração indicava que ele pretendia continuar atuando politicamente após a derrota eleitoral.
A mudança de cenário, em menos de dois dias, ampliou as dúvidas entre aliados sobre a estratégia adotada pelo senador e sobre a participação de pessoas próximas no planejamento da viagem.
Rogério Marinho relata última conversa com Flávio
O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador político da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, foi um dos aliados que mantiveram contato com o parlamentar antes de seu paradeiro se tornar motivo de especulação.
Segundo relato feito a um auxiliar, Marinho enviou uma mensagem pelo WhatsApp para perguntar se estava tudo bem. Flávio respondeu que estava “esfriando a cabeça”, sem apresentar, naquele contato, informações que esclarecessem seus planos de viagem.
A resposta contribuiu para aumentar a surpresa entre integrantes do grupo político, que esperavam que o senador permanecesse no país para conduzir a reorganização da oposição após o resultado eleitoral.
Em entrevista à imprensa, Marinho afirmou que não tinha informações precisas sobre o paradeiro do candidato derrotado e relatou que a equipe política estava surpresa com os acontecimentos. Segundo ele, a expectativa era que Flávio assumisse um papel de liderança entre os parlamentares de oposição.
A equipe jurídica também afirmou que não tinha conhecimento prévio de uma eventual saída do Brasil. De acordo com advogados, durante uma reunião realizada na tarde de segunda-feira, o senador havia assegurado que participaria de um encontro com a bancada do PL previsto para a semana seguinte.
Os relatos indicam que a viagem não havia sido comunicada a parte dos aliados políticos e integrantes da defesa. A falta de informações prévias, somada à decisão judicial sobre os passaportes e às versões inicialmente divergentes sobre a rota, ampliou a repercussão do episódio.
Com a confirmação da entrada da família na Argentina e do embarque para o Equador, parte das dúvidas sobre o deslocamento foi esclarecida. O caso, entretanto, continua ligado aos desdobramentos judiciais sobre a ordem de entrega dos documentos e à análise dos pedidos apresentados ao Supremo Tribunal Federal.