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Política

Documentário de Lula teria recebido pagamento de Vorcaro em troca de privilégios no governo; apura a revista Veja

Daniel Vorcaro alega que pagamentos de R$ 30 milhões foram feitos ao Instituto Lula e a um documentário, com envolvimento de figuras do PT  |  Reprodução: Internet

Publicado em 09/10/2026, às 09h48   Reprodução: Internet   Redação

O ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou às autoridades que teria destinado recursos ao Instituto Lula e financiado a produção de um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma negociação que, segundo sua versão, envolvia investimentos de fundos de pensão de empresas estatais na instituição financeira.

As informações foram divulgadas pela revista VEJA, com base em relatos e materiais apresentados pelo banqueiro em uma proposta de delação premiada.

De acordo com o relato atribuído a Vorcaro, o suposto acordo previa o pagamento de aproximadamente R$ 30 milhões em dinheiro vivo para cobrir despesas de um documentário sobre Lula gravado no exterior, além de repasses ao Instituto Lula.

A negociação teria sido intermediada pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, com participação do então CEO do Master, Augusto Lima, e de pessoas ligadas ao ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha.

O ex-banqueiro também teria relatado a cobrança de uma comissão de 10% sobre os valores que o Master conseguisse captar junto a fundos de previdência de servidores públicos. Segundo a reportagem, a proposta de colaboração foi encaminhada à Procuradoria-Geral da República (PGR) em junho de 2026, mas não avançou. O órgão teria apontado a ausência de provas dos pagamentos, supostamente realizados em espécie.

A defesa de Vorcaro, por sua vez, sustentou que haveria mensagens, registros de saques e informações sobre as pessoas envolvidas e os trajetos utilizados nas entregas do dinheiro. As informações divulgadas integram a versão apresentada pelo banqueiro e não devem ser tratadas, por si só, como comprovação das acusações.

Relato menciona ex-tesoureiro do PT e documentário sobre Lula

Conforme o material atribuído à proposta de delação, a aproximação entre o Banco Master e integrantes do PT teria sido articulada por Augusto Lima, com participação de pessoas ligadas ao partido na Bahia.

O primeiro contato teria ocorrido com João Vaccari Neto, que, segundo Vorcaro, condicionou o acesso aos fundos de pensão a pagamentos antecipados.

No documento, o banqueiro descreveu a suposta negociação nos seguintes termos:

O meu então sócio, Augusto Lima, através dos caciques do PT da Bahia, se reuniu com João Vaccari Neto. Nesse primeiro encontro ficou aventado que, para que houvessem votos suficientes para o nosso credenciamento junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa Asset e Previ, deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao Instituto Lula”

O filme citado é Lula, dirigido por Oliver Stone, que reúne depoimentos de amigos e aliados do presidente, entre eles o advogado Walfrido Warde.

Além dos valores relacionados ao documentário e ao Instituto Lula, Vorcaro afirmou que Vaccari teria exigido uma comissão de 10% sobre os recursos captados pelo Master junto aos fundos de previdência da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios.

Na estimativa apresentada pelo banqueiro, caso a operação fosse concluída, os repasses ao grupo político poderiam alcançar R$ 1 bilhão, enquanto o banco obteria R$ 9 bilhões.

Na estimativa apresentada pelo banqueiro, caso a operação fosse concluída, os repasses ao grupo político poderiam alcançar R$ 1 bilhão, enquanto o banco obteria R$ 9 bilhões.

Áudios citam financiamento de filmes sobre Lula e Bolsonaro

Outro trecho do material divulgado pela VEJA aborda o financiamento do documentário sobre Lula e faz uma comparação com Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro que, segundo o relato, teria recebido mais de R$ 60 milhões do banqueiro.

Em um dos áudios atribuídos a Vorcaro, ele menciona a articulação com Vaccari e o repasse de recursos ao Instituto Lula:

“Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele (Vaccari). É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara (Vaccari) pede para colocar dinheiro no filme do Lula”

Ao comparar os dois financiamentos, Vorcaro teria afirmado:

O filme do Lula eu coloquei acho que até mais (que o filme de Bolsonaro). Eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”

As declarações integram os relatos atribuídos ao ex-banqueiro e não constituem, isoladamente, comprovação dos supostos pagamentos ou da participação dos citados nas irregularidades descritas.

Vorcaro aponta suposta participação de auxiliares de Alexandre Padilha

A documentação também menciona Alexandre Padilha, então ministro da Secretaria de Relações Institucionais, o secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e dois operadores que, conforme a versão de Vorcaro, teriam atuado para aproximar o banco dos gestores dos fundos de pensão.

O banqueiro afirmou que, entre o fim de 2023 e o início de 2024, organizou uma equipe no Master para buscar negócios com fundos de previdência federais. Nesse processo, disse ter recebido propostas que classificou como cobranças de propina.

Em um trecho do relato, ele descreveu o início das tratativas:

“No fim de 2023 e início de 2024, formei uma equipe interna no Banco Master para captação institucional junto a novos produtos financeiros através dos fundos de pensão do Governo Federal… Com isso, eu logo passei a receber propostas espúrias (“as mordidas”) de políticos e emissários desses”

Segundo Vorcaro, um operador identificado como Júlio, que teria acesso ao gabinete de Padilha no Palácio do Planalto, foi responsável por aproximá-lo de Olavo Noleto. Mensagens encontradas no celular do banqueiro pela Polícia Federal ajudariam, conforme a reportagem, a sustentar parte desse relato.

Em uma das conversas mencionadas, o empresário Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula e parceiro de Vorcaro em outros negócios, teria elogiado o contato entre os envolvidos:

“Olavo me enviou mensagem falando que gostou muito de você”

Vorcaro também afirmou ter se encontrado pessoalmente com Padilha no Palácio do Planalto e participado de pelo menos dois jantares com o ministro durante as tentativas de viabilizar operações com os fundos de pensão.

Ao descrever um desses encontros, o banqueiro declarou:

“Nesse dia, estavam também o assessor Olavo, Fernando, o primo desse Olavo, e o próprio Júlio. Nessa conversa, Padilha mais ouviu do que falou, mas afirmou que ‘o que eu tratasse com Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha’”

O ex-controlador relatou ainda que recebeu Júlio, Olavo e Fernando em sua residência para uma conversa reservada. Segundo ele, na ocasião teria sido informado de que o acesso aos fundos dependeria do pagamento de comissões.

“Júlio, Olavo e seu primo Fernando foram em minha casa para uma conversa aberta: ‘só haveria um jeito de entrar na Previ, Petros e Postalis: mediante pagamento de propina também na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse’”

Mensagens registram tentativas de captar recursos de fundos de pensão

De acordo com o material divulgado pela VEJA, as conversas entre Vorcaro e Júlio registrariam tentativas de aproximação com dirigentes da Previ, da Petros e do Postalis, fundos de previdência vinculados, respectivamente, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios.

Em 8 de abril de 2024, o banqueiro teria cobrado informações sobre os contatos com a Petros. A conversa começou, segundo a reportagem, com a seguinte mensagem:

“O e-mail que pediram Petros”

Júlio respondeu:

“Já repassei. Agora é o amigo com dever dele. Ontem estive com ele”

Na sequência, Vorcaro voltou a questionar o andamento da operação:

“O da Petros já foi? Cobrando?”

O operador respondeu:

“Já sim”

Em seguida, o banqueiro insistiu na liberação dos investimentos e perguntou sobre as negociações com o Postalis:

“Vamos pressionar pra boletar (liberar o investimento). Postalis evoluiu?”

Júlio afirmou que as tratativas continuavam e mencionou a expectativa de avançar com o Banco do Brasil:

“Evoluiu. Mandando e-mail também. Do BB essa semana resolve. Semana que vem reunião lá. Aí alinho contigo na sua agenda”

Vorcaro encerrou a sequência com outra cobrança:

“Vamos tentar concluir os que abrimos”

Naquele período, o Master precisava ser incluído na chamada “lista exaustiva”, documento oficial que relaciona as instituições financeiras autorizadas a receber recursos dos fundos de previdência estatais.

Segundo a reportagem, a inclusão ocorreu em 29 de abril de 2024. Augusto Lima comunicou a novidade ao sócio:

“Entramos na lista exaustiva. Resolvido”

Vorcaro respondeu:

“Você é foda”

Operador teria solicitado R$ 500 mil após autorização do banco

Mensagens atribuídas a Júlio e divulgadas pela VEJA indicariam que o operador solicitou R$ 500 mil no mesmo dia em que o Master passou a integrar a lista de instituições autorizadas. Conforme a reportagem, o valor seria um adiantamento da comissão negociada.

Após o suposto pagamento, Vorcaro teria cobrado resultados concretos da articulação e indicado que esperava captar pelo menos R$ 500 milhões junto aos fundos de previdência.

“Quero ver agora você virar uma boleta de verdade (o que no caso significaria obter junto aos fundos pelo menos 500 milhões de reais para o Master)”

Júlio respondeu:

“Pode deixar. É empenho de vida, Daniel, isso”

Em outra mensagem, o operador teria justificado a solicitação do dinheiro e demonstrado preocupação com um jantar previsto para os dias seguintes:

“Daniel, desculpa tá apertando, mas é que você é a única pessoa que eu possa falar isso!! Preciso ver se você consegue me ajudar… Quero ir pro jantar tranquilo”

O encontro mencionado nas mensagens teria ocorrido dois dias depois, na residência de Vorcaro, com a presença de Padilha, Olavo Noleto e Júlio.

Apesar da autorização para operar com os fundos, o Master não teria conseguido avançar como pretendia. Em julho de 2024, uma tentativa de investir R$ 500 milhões em letras financeiras do banco na Caixa Econômica Federal veio a público.

Reportagem do jornal O Globo, publicada em 12 de julho daquele ano, informou que dois gerentes da Caixa haviam sido afastados após emitirem parecer contrário à operação.

Vorcaro atribuiu a esse episódio a interrupção das negociações com os fundos federais. No relato apresentado às autoridades, afirmou:

“Com as matérias difundidas na imprensa em julho de 2024 sobre a suposta perda de cargo de gestores da Caixa Asset que teriam sido contrários ao investimento em LFs do Banco Master, o grupo de Padilha e os dirigentes da Petros, Postalis e BB preferiram segurar a decisão de fazer o investimento”

Vorcaro relata outros pagamentos e tentativa de reunião com Lula

Mesmo após o recuo nas negociações envolvendo fundos federais, Vorcaro afirmou que manteve contato com interlocutores ligados ao grupo de Padilha e conseguiu captar recursos de fundos municipais nos quais o operador teria influência.

Segundo a versão apresentada pelo banqueiro, a mesma comissão de 10% teria sido aplicada nessas operações, gerando pelo menos R$ 6 milhões para o ministro e seus operadores. A afirmação faz parte das acusações relatadas por Vorcaro e não deve ser interpretada como comprovação de recebimento dos valores pelos citados.

Em outubro de 2024, o banqueiro teria organizado outro jantar com Padilha, Olavo Noleto e os demais interlocutores. Na véspera do encontro, Júlio enviou uma mensagem com os detalhes da reunião:

“Daniel, acertado!!!! Padilha e Olavo amanhã, às 22 horas, um jantar contigo em bsb (sic)… Vai 5 pessoas… Padilha, Olavo, o Fernando (primo), um assessor do Padilha e eu”

No dia seguinte, as conversas passaram a mencionar a possibilidade de uma reunião entre Vorcaro e Lula. Júlio teria enviado a seguinte mensagem:

“Daniel, liga pro Olavo… O PR vai te receber…”

Em outra mensagem, o operador insistiu na articulação e afirmou que o presidente teria demonstrado interesse na conversa:

“Daniel, tô insistindo aqui porque já conversaram com PR e ele gostou da conversa! Olavo pediu pra retornar para ele para fazer agenda contigo”

Como Vorcaro não teria respondido imediatamente, Júlio voltou a cobrar uma posição:

“Daniel, não esquece do Olavo. Ele vai te passar informações. E fazer agenda. Porque semana que vem é sua reunião importante”

Apesar das mensagens, o material divulgado não comprova que o encontro entre Lula e Vorcaro tenha efetivamente ocorrido.

Conforme a reportagem da VEJA, a única reunião confirmada no Palácio do Planalto aconteceu em 4 de dezembro de 2024, fora da agenda oficial. O encontro teria sido articulado pelo advogado Walfrido Warde com Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola, então chefe de gabinete da Presidência, e teve como pauta a situação do Banco Master junto ao Banco Central.

Negociações com fundos federais não avançaram em 2025

Apesar das tentativas descritas no relato, Vorcaro afirmou que não conseguiu concretizar os investimentos nos fundos federais. Em junho de 2025, o banqueiro teria demonstrado insatisfação com a demora para obter resultados.

“Estamos já há mais de 12 meses tentando uma boleta (investimento). Não dá pra mobilizar a equipe para novos temas sem concluir nenhum”

Na sequência, questionou:

“Falhou de novo o negócio?”

O operador teria atribuído as dificuldades à divulgação de informações negativas sobre o banco. No início de agosto, depois de emprestar um avião para que Júlio tentasse avançar nas negociações, Vorcaro decidiu que encerraria a relação caso não houvesse resultados.

“Cara, essa é a última chance. Se não entrar nada até final da semana que vem, eu gostaria que você encerrasse o trabalho. Já consumiu muito tempo, dinheiro e recursos nossos”

Júlio respondeu:

“Concordo!”

Vorcaro concluiu:

“Sexta que vem — não entrando — vida que segue. Lá na frente bolamos outra coisa juntos”

Lula, Padilha e Olavo Noleto negam envolvimento

Procurado pela reportagem, Lula negou ter solicitado ou recebido vantagens financeiras relacionadas ao banqueiro. Em declaração reproduzida pela publicação, o presidente afirmou que “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome”.

Olavo Noleto também negou ter qualquer relação com o banqueiro ou ter recebido dinheiro dele. Alexandre Padilha, por sua vez, negou relação com Vorcaro. Os demais citados não haviam se manifestado até o fechamento da reportagem.

Segundo a publicação, Vorcaro afirmou ter apresentado às autoridades conversas de WhatsApp, registros de entrada no Palácio do Planalto, e-mails, atas de reuniões nos fundos, comprovantes de pagamentos e dados de voos que, em sua avaliação, sustentariam as acusações.

O banqueiro também teria incluído no material relatos sobre supostos pagamentos ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e a integrantes do Judiciário.

Ex-banqueiro tenta novo acordo de delação

A primeira tentativa de delação de Vorcaro não avançou após questionamentos sobre a omissão de informações aos investigadores. Uma segunda proposta também foi descartada.

Atualmente, segundo a reportagem, o ex-controlador do Banco Master trabalha em uma terceira tentativa de acordo de colaboração com as autoridades.

Classificação Indicativa: Livre


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