Política
Publicado em 20/01/2026, às 13h23 © Rosinei Coutinho/STF Giovana Gurgel
O fundo que adquiriu R$ 20 milhões em ações do resort Tayayá, pertencente a irmãos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, encerrou suas atividades e transferiu todos os ativos para uma offshore registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, cujo controle societário é desconhecido. A informação passou a circular nesta terça-feira (20).
A operação apresenta semelhanças com o padrão identificado pela Polícia Federal nas investigações envolvendo o Banco Master, marcado por supervalorização de ativos em curto espaço de tempo e dificuldade de rastrear o destino final dos recursos.
O procedimento resultou na transferência de aproximadamente R$ 33,9 milhões em cotas para a offshore Egide I Holding, incluindo ações do resort ligadas à família do ministro.
A liquidação do Arleen Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia ocorreu em duas fases. Em assembleia realizada em 5 de novembro de 2025, foi aprovada a entrega dos ativos do fundo à Egide I Holding por meio de cotas avaliadas em R$ 1,51 cada, totalizando R$ 11,5 milhões.
Em 4 de dezembro, menos de um mês depois, o fundo decidiu reajustar o valor unitário das cotas em quase 45.000%. O preço saltou para R$ 679,13, elevando o montante transferido para R$ 33,9 milhões.
Após essa reavaliação, 100% dos recursos do fundo passaram para a administração da offshore sediada no paraíso fiscal, encerrando definitivamente as atividades do Arleen.
Por estarem sediadas nas Ilhas Virgens Britânicas, as empresas registradas no território enfrentam baixo nível de transparência. Informações básicas, como identidade de sócios e beneficiários finais, não são facilmente acessíveis. Segundo o portal i-BVI, a Egide I Holding foi aberta em março de 2025.
Dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), não indicam com precisão quando a offshore passou a integrar a carteira do fundo. O primeiro registro disponível mostra a compra, pela Arleen, de ações da própria Egide no valor de R$ 11,5 milhões.
Na época, o valor de mercado estimado dos ativos da offshore era de apenas R$ 1,9 milhão, o que levantou questionamentos sobre a precificação adotada na operação.
A Egide I Holding era a única empresa detentora de cotas do fundo Arleen. Na prática, conforme registros da CVM, a offshore recebeu valores acima dos praticados no mercado e ficou com todos os ativos do fundo após sua liquidação.
A supervalorização acelerada de ativos é um dos elementos centrais da investigação da Polícia Federal sobre a fraude financeira atribuída ao Banco Master. Os investigadores apuram a compra de ativos sem valor e posterior revenda com preços artificialmente inflados.
No caso do Arleen, não é possível identificar, pelos canais oficiais, quem foi o beneficiário final da valorização das cotas da Egide I Holding.
O Arleen Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia era administrado pela Reag Investimentos, empresa investigada pela Polícia Federal por suspeita de atuar em esquema financeiro ilícito em parceria com o Banco Master. Em 15 de janeiro, o Banco Central decretou a liquidação da Reag.
Segundo as investigações, com apoio de informações do Banco Central, o Banco Master teria estruturado uma rede de fundos da Reag para adquirir ativos problemáticos e simular rápida valorização dos investimentos do grupo.
Criado em junho de 2021, o Arleen realizou como primeiro investimento a compra de 65.850 ações da Tayayá Administração e Participações Ltda., resort localizado em Ribeirão Claro, no Paraná.
Seis meses antes da operação, irmãos de Dias Toffoli haviam adquirido 33% do Tayayá, conforme revelado pela imprensa.
Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo apontou que o empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, também teve participação indireta no empreendimento por meio de fundos de investimento.
Além dos irmãos José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, o primo do ministro, Mario Umberto Degani, também teve participação no resort. Atualmente, o controle do empreendimento está com o advogado Paulo Humberto Barbosa, que não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Dias Toffoli é relator do caso Banco Master no STF, e tem sido alvo de críticas por decisões consideradas obstáculos ao avanço das investigações. Procurados, o ministro, seus familiares e a Reag Investimentos não enviaram resposta. A defesa de Daniel Vorcaro afirmou, em nota, que ele não tem conhecimento nem envolvimento com as operações citadas.
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