Polícia
Publicado em 26/07/2026, às 06h00 Reprodução Anderson Barbosa
Um dos casos mais impactantes de violência contra a mulher no Rio Grande do Norte está sendo relembrado neste domingo (26). Estamos falando do brutal espancamento da promotora de vendas Juliana Garcia dos Santos Soares. Há um ano, dentro do elevador de um condomínio na Zona Sul de Natal, ela levou 61 socos do então namorado, o ex-jogador de basquete Igor Eduardo Pereira Cabral. Agora, ele tenta anular o processo.
O crime foi registrado pelas câmeras de segurança. Tudo aconteceu em menos de um minuto. Tudo foi filmado. As imagens chocaram o país e rodaram o mundo. Preso antes mesmo de sair do prédio, o acusado permanece atrás das grades. Ele aguarda julgamento na Cadeia Pública Dinorá Simas, em Ceará-Mirim, cidade da região metropolitana da capital potiguar.
A decisão de levar Igor Cabral a júri popular foi do juízo da 1ª Vara Criminal de Natal, que o denunciou por tentativa de feminicídio, com destaque para a gravidade do crime:
“A gravidade concreta do crime, evidenciada pelo modus operandi de extrema violência e crueza — traduzido no espancamento contínuo de sua namorada em ambiente confinado, desfigurando-lhe a estrutura óssea facial e impondo-lhe severa sequela neurológica permanente —, demonstra a acentuada periculosidade social do agente e o risco real de reiteração delitiva caso restituído à liberdade”.
O processo segue em sigilo e ainda está na fase de recursos. Segundo o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, o julgamento somente poderá ser marcado quando não houver mais possibilidade de recursos contra a decisão de pronúncia ou, caso eles sejam apresentados, após a confirmação da decisão pelas instâncias competentes.
A estratégia da defesa sofreu um revés após a 1ª Vara Criminal rejeitar o pedido para desclassificar a acusação de tentativa de feminicídio para lesão corporal.
Os advogados alegaram que as lesões ocasionadas “embora graves, não geraram um perigo de vida clínico, concreto ou imediato sob a ótica estritamente pericial”. Em resposta, o juízo entendeu que "o ato de desferir múltiplos golpes concentrados na cabeça e na face da vítima, utilizando-se, inclusive, de apoio em barra do elevador para conferir maior potência mecânica aos impactos, impede a rejeição sumária do intento homicida".
Com a negativa, os advogados passaram a concentrar os esforços na tentativa de anular o processo. E para isso apresentaram um recurso.
O recurso sustenta que houve irregularidade processual porque o juízo de primeiro grau teria concedido prazo para a assistente de acusação apresentar alegações finais após a manifestação da defesa.
Em informações encaminhadas ao TJRN, o juízo da 1ª Vara Criminal afirmou que a assistente de acusação não apresentou alegações e esclareceu que a decisão previa a possibilidade de a defesa ratificar ou retificar seus argumentos caso houvesse manifestação da assistente. O recurso será analisado pela Câmara Criminal do Tribunal de Justiça, e somente após a conclusão dessa etapa será possível definir quando Igor irá ao banco dos réus.
No dia 4 de agosto, já detido na Cadeia Pública de Ceará-Mirim, Igor Cabral quebrou o silêncio e se pronunciou. Por meio de seu advogado, o ex-atleta tornou pública uma nota. Ele disse:
"Embora as circunstâncias ainda estejam sendo apuradas, sinto a necessidade sincera de expressar meu pedido de perdão a todos que, de alguma forma, foram afetados".
E prosseguiu:
"Não tenho intenção de justificar nada, tampouco minimizar o impacto dos fatos. Apenas desejo que Juliana consiga encontrar força para seguir em frente, com serenidade, coragem e paz. A ela, sua filha e sua família, envio minhas orações e meu mais genuíno respeito".
Ainda segundo a nota, Igor Cabral disse enfrentar o momento atual "com humildade e esperança de que, com o tempo, todas as partes envolvidas possam encontrar caminhos de cura, reflexão e recomeço".
Há poucos dias, em suas redes sociais, Juliana postou:
"Que possamos juntas construir um Rio Grande do Norte com mais mulheres qualificadas profissionalmente e que com isso diminua a permanência em relações tóxicas, que elas sejam financeiramente independentes e possam escolher ficar apenas onde estão seguras, amadas e felizes. Pela autonomia feminina e oportunidade de escolha".
Juliana decidiu disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte nas eleições deste ano pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
A proposta é transformar a experiência como sobrevivente da violência em uma atuação política voltada à defesa dos direitos das mulheres e ao fortalecimento das políticas públicas de proteção.
Juliana também afirmou que pretende atuar em pautas relacionadas à prevenção da violência de gênero, à ampliação da rede de acolhimento, ao atendimento psicológico e ao incentivo à autonomia econômica das mulheres.
Em agosto de 2025, Juliana foi homenageada pela Uninassau, em Natal, durante cerimônia de formatura em Direito. Ela recebeu a Medalha Maurício de Nassau, a maior honraria da universidade, por sua coragem.
A história de Juliana ainda inspirou a criação de Projetos de Lei focados na proteção de mulheres vítimas de violência doméstica. A primeira foi a Câmara Municipal de Natal, que aprovou legislação obrigando os condomínios da cidade com 10 ou mais unidades habitacionais a instalarem câmeras de segurança nas áreas em comum.
"No caso de Juliana, graças à câmera no elevador, o agressor foi preso e ela pôde ser socorrida. Então, fica claro que a presença de câmeras pode salvar vidas, serve como prevenção, prova e reação rápida em casos de violência doméstica e de gênero”, afirmou a autora, vereadora Samanda Alves (PT).
A Câmara Municipal de Parnamirim seguiu o exemplo e aprovou a "Lei Juliana Soares", de autoria de vereador Michael Borges (PP). A proposta prevê a vedação de acesso a cargos públicos para pessoas condenadas por feminicídio, abrangendo toda a administração municipal.
O mesmo fez a Câmara Municipal de Nova Cruz, que também homenageou Juliana Soares aprovando lei que proíbe pessoas condenadas pelo crime de feminicídio, de forma tentada ou consumada, de assumirem cargos públicos no município. O autor foi o vereador Valmir Bernardino de Oliveira Júnior (PT).
O caso
Juliana Garcia dos Santos Soares, de 35 anos, foi espancada por Igor Cabral na tarde do dia 26 de julho de 2025, após uma discussão no elevador do condomínio onde ela morava, na Zona Sul de Natal.
Em menos de um minuto, Juliana leva 61 socos. O vídeo abaixo mostra a violência:
Ao ver as imagens, o porteiro do prédio acionou a Polícia Militar. Quando o elevador chegou ao térreo, Igor Cabral foi contido pelos moradores até a chegada dos policiais.
Juliana foi levada para o Pronto-Socorro Clóvis Sarinho. Na ocasião, ela apresentava fraturas no rosto, deslocamento da mandíbula e perda parcial da visão.
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