Polícia
Publicado em 24/09/2026, às 08h42 Reprodução: Internet Redação
Uma mulher chamada apenas de “Fátima” em gravações analisadas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Mederi foi relacionada pelos investigadores a Maria de Fátima Dantas dos Santos, empresária que também chegou a ocupar um cargo comissionado na Prefeitura de Mossoró.
A identificação aparece em relatório da PF que examina conversas entre sócios da DISMED Distribuidora, empresa investigada por contratos de fornecimento de medicamentos ao município.
A referência ganha dimensão política porque o nome de “Fátima” foi utilizado pelo candidato Cadu de Lula (PT) durante o debate promovido pela TV Tropical na segunda-feira (21). Na ocasião, o petista questionou o candidato Allyson (União Brasil), ex-prefeito de Mossoró e investigado no âmbito da Operação Mederi, sobre a identidade da mulher mencionada nas gravações.
A documentação analisada pela Polícia Federal, entretanto, não apresenta a identificação como uma conclusão definitiva.
O relatório aponta Maria de Fátima Dantas dos Santos como provável destinatária dos valores, mas ressalva que novas diligências ainda seriam necessárias para confirmar a relação.
Investigadores chegaram ao nome a partir das próprias gravações
O caminho percorrido pela Polícia Federal começa nas escutas ambientais realizadas durante a investigação. Nos arquivos analisados, os investigadores encontraram diversas menções ao nome “Fátima” associadas, segundo o relatório, a valores que seriam pagos pelos sócios da DISMED.
A apuração procurou identificar quem era a pessoa mencionada pelos empresários. Para isso, os investigadores cruzaram o conteúdo das conversas com informações disponíveis em bases públicas e registros relacionados à Prefeitura de Mossoró.
Foi nesse levantamento que surgiu o nome de Maria de Fátima Dantas dos Santos, identificada como titular de uma empresa cuja atividade principal está relacionada à organização de feiras, congressos, exposições e festas.
A empresa, registrada em 27 de junho de 2022, possui endereço declarado em Mossoró e tem como atividade econômica principal os serviços de organização de eventos, conforme o CNAE N-8230-0/01.
O relatório da PF relaciona esses dados ao conteúdo de uma das gravações, especialmente a um trecho em que os interlocutores fazem referência ao cantor Gustavo Lima e a um evento que seria realizado em Mossoró.
Segundo a interpretação registrada pelos investigadores, os empresários afirmavam que o cantor não se apresentaria no município caso determinados valores relacionados às licitações da DISMED, descritos na investigação como comissões ou propinas, não fossem repassados.
A partir desse conjunto de elementos, a PF registra que havia indícios de que a pessoa chamada de “Fátima” nos diálogos seria Maria de Fátima Dantas dos Santos.
O relatório, porém, faz uma ressalva expressa sobre o estágio da apuração e afirma que a identificação ainda precisaria ser confirmada por novas medidas investigativas.
Documento cita valores e menciona show de Gustavo Lima
A associação entre o nome de “Fátima” e Maria de Fátima aparece em um trecho específico do relatório policial.
Segundo o documento, as escutas registram referências à mulher como possível destinatária de valores pagos pelos sócios da DISMED. Os investigadores consideraram especialmente relevante a parte da conversa em que os empresários mencionam o cantor Gustavo Lima e um evento em Mossoró.
Na avaliação registrada pela PF, a conversa indicaria que o pagamento dos valores mencionados pelos interlocutores estaria relacionado à realização do show.
O relatório descreve que os valores negociados nas licitações da DISMED seriam utilizados também para o pagamento de supostas comissões ou propinas a terceiros. Nesse contexto, a “Fátima” mencionada nos diálogos foi associada à empresária.
O documento registra:
“Há nos arquivos da escuta ambiental várias referências feitas ao nome ‘FÁTIMA’ como sendo destinatária de valores pagos pelos sócios da DISMED a título de supostas propinas ou comissões.”
Na sequência, os investigadores explicam que consultas ao Portal da Prefeitura de Mossoró e a fontes abertas permitiram localizar Maria de Fátima Dantas dos Santos e sua empresa.
A PF então relaciona as informações cadastrais ao conteúdo dos áudios, principalmente à conversa que trata do show de Gustavo Lima.
O próprio relatório, contudo, evita apresentar a identificação como definitiva e registra que a confirmação dependeria da realização de novas diligências.
“Entretanto, essa confirmação demandará a realização de novas diligências para tal”, afirma o documento.
Empresária foi nomeada para cargo na Prefeitura
Além das informações empresariais, outro elemento chamou a atenção dos investigadores: Maria de Fátima Dantas dos Santos foi posteriormente nomeada para um cargo comissionado na Prefeitura de Mossoró.
A nomeação está registrada na Portaria nº 157, de 26 de março de 2024, assinada pelo então prefeito Allyson Bezerra. O ato oficial determinou que Maria de Fátima exercesse o cargo de Assessora de Comunicação, símbolo CC11, com lotação na Secretaria Municipal de Comunicação Social.
A publicação oficial do município confirma a nomeação e estabelece que o cargo seria exercido na estrutura da Secretaria Municipal de Comunicação Social.
Esse vínculo com a administração municipal é citado no relatório da Polícia Federal dentro do conjunto de elementos utilizados para tentar esclarecer quem seria a mulher chamada de “Fátima” nas conversas entre os empresários da DISMED.
A existência do cargo comissionado, por si só, não constitui comprovação de participação em eventual irregularidade. A própria investigação registra que ainda seriam necessárias novas diligências para esclarecer a relação entre a pessoa identificada e os valores mencionados nas gravações.
Empresários detalharam uma suposta divisão de dinheiro
Outro arquivo analisado pela Polícia Federal apresenta uma conversa entre os sócios da DISMED Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares.
No diálogo, um dos empresários apresenta aos interlocutores uma conta envolvendo uma ordem de compra no valor de R$ 400 mil. A conversa descreve como, segundo ele, o dinheiro seria dividido depois da operação.
É nesse momento que aparecem, de maneira mais direta, os nomes de Allyson e “Fátima”, associados a percentuais dos valores.
O empresário começa a explicar o que chama de uma espécie de “matemática de Mossoró”:
Como é a matemática de Mossoró: Mossoró tem uma ordem de compra de R$ 400 mil, desses R$ 400, ele entrega R$ 200, tudo a preço de custo. Dos R$ 200, ele pega 30%, então aqui ele comeu R$ 60, fica R$ 140 para ele entregar 100%. Dos R$ 140, ele ganha R$ 70.”
A conversa prossegue com a divisão do restante do dinheiro e a indicação dos percentuais que, segundo o interlocutor, seriam destinados a Allyson e à mulher chamada de “Fátima”.
“R$ 70 com R$ 60, é meu, R$ 130; só que dos R$ 130, nós temos que pagar R$ 100 mil a Allyson e a Fátima. É 10% de Fátima e 15% de Allyson; só ficou R$ 30 mil para a empresa.”
O empresário também compara o cenário descrito na gravação com uma forma de negociação que, segundo ele, teria ocorrido anteriormente.
“Antigamente, a gente vendia R$ 400, nós ‘estava’ ganhando R$ 200; que é 100%. Dava os R$ 100 de Fátima e ficava os R$ 100 da empresa.”
A conversa integra o conjunto de elementos utilizados pelos investigadores para reconstruir a suposta divisão dos recursos relacionados aos contratos públicos.
“Quem é a sua Fátima?”, perguntou Cadu de Lula
A identidade da mulher mencionada nas gravações passou a ter repercussão também na campanha eleitoral para o Governo do Rio Grande do Norte.
Durante o debate da TV Tropical realizado na segunda-feira (21), Cadu de Lula questionou diretamente Allyson sobre a pessoa chamada de “Fátima” nos materiais relacionados à Operação Mederi. O encontro reuniu Allyson, Cadu e Robério Paulino; Álvaro Dias não participou.
Cadu afirmou que queria dar ao adversário uma nova oportunidade para explicar ao eleitorado quem seria a personagem mencionada nas gravações.
Eu nunca tive a Polícia Federal na minha casa. Eu queria dar mais uma oportunidade para ele (Allyson), de explicar para o povo do Rio Grande do Norte, ele que diz que tem coragem, que diz que tem ‘mãos limpas’, quem é a personagem ‘Fátima’, citada nos áudios, e inclusive agora vídeos que estão vazando por aí, que é citada no suposto escândalo de corrupção da Operação Mederi, em Mossoró?”
O candidato do PT também fez referência ao fato de ser chamado de “Cadu de Fátima”, em alusão à ex-governadora Fátima Bezerra, e afirmou que não teria problema com o apelido.
Na sequência, voltou a direcionar a pergunta a Allyson:
“Quem é a sua ‘Fátima’? Responda, enfrente essa questão”, questionou Cadu de Lula.
Allyson não identificou a mulher durante o debate
Durante o período destinado à resposta, Allyson Bezerra não apresentou publicamente o nome de Maria de Fátima Dantas dos Santos como sendo a mulher citada nas gravações.
O candidato respondeu às críticas de Cadu dizendo que o adversário estaria “baixando o nível” do debate e voltou a afirmar que tem “as mãos limpas”.
A investigação da Polícia Federal, por sua vez, segue em outra esfera: o relatório que identifica Maria de Fátima como provável “Fátima” deixa registrado que a relação ainda precisa ser confirmada por diligências complementares.
Operação Mederi investiga contratos da área da saúde
A Operação Mederi foi deflagrada pela Polícia Federal em janeiro de 2026 para investigar suspeitas relacionadas a contratos públicos de fornecimento de medicamentos e outros insumos de saúde. A apuração alcança contratos firmados por administrações municipais e tem a DISMED entre as empresas investigadas. Fontes que acompanham o caso descrevem a investigação como ainda em andamento.
Em Mossoró, parte dos elementos reunidos pela investigação envolve contratos de fornecimento de medicamentos firmados durante a gestão de Allyson Bezerra, então prefeito do município.
As gravações dos sócios da DISMED passaram a integrar o material analisado pela Polícia Federal. Nelas, os investigadores encontraram referências a uma divisão de valores, a percentuais atribuídos a diferentes pessoas e ao nome de “Fátima”.
A partir desses diálogos, a PF cruzou as informações com registros públicos e chegou ao nome de Maria de Fátima Dantas dos Santos.
Identificação ainda depende de novas diligências
Embora o relatório policial estabeleça uma ligação entre a “Fátima” das gravações e Maria de Fátima Dantas dos Santos, o documento utiliza termos como “provavelmente” e “provável destinatária” e determina a necessidade de aprofundamento da apuração.
Essa ressalva é relevante porque a investigação ainda busca confirmar a identidade da pessoa mencionada nas conversas e esclarecer a participação individual dos envolvidos.
Também é necessário diferenciar o conteúdo das gravações da comprovação judicial de qualquer crime. As falas registradas pelos investigadores constituem elementos de uma investigação e ainda precisam ser confrontadas com os demais documentos, contratos, dados financeiros e outras provas reunidas pelas autoridades.
O relatório da PF, portanto, apresenta Maria de Fátima Dantas dos Santos como a provável “Fátima” mencionada pelos sócios da DISMED, mas ressalva que a confirmação dessa hipótese dependerá de novas diligências.
A informação ganha relevância no contexto eleitoral porque o nome foi levado diretamente ao debate entre Cadu de Lula e Allyson Bezerra poucos dias antes da divulgação do relatório que tornou pública a identificação feita pelos investigadores. A documentação oficial também confirma que Maria de Fátima ocupou cargo comissionado na Prefeitura de Mossoró durante a gestão de Allyson.