Polícia
Publicado em 23/01/2026, às 08h47 Reprodução internet Redação
A Polícia Civil do Distrito Federal revelou um dos detalhes mais perturbadores da investigação sobre as três mortes ocorridas na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga; o técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, tentou matar a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, em três ocasiões diferentes.
Em todas elas, a paciente sofreu parada cardíaca, mas foi reanimada pela equipe médica. Somente na quarta tentativa ele teria conseguido provocar a morte, ao injetar desinfetante diretamente na veia da vítima entre 10 e 13 vezes. Miranilde morreu no dia 17 de novembro de 2025.
O caso veio à tona após a deflagração da Operação Anúbis, no último dia 11, quando a Polícia Civil prendeu dois suspeitos. Uma terceira envolvida foi presa no dia 15. Os três são ex-técnicos de enfermagem do hospital.
Quem são os suspeitos presos
As identidades foram confirmadas pela Polícia Civil do DF:
- Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24 anos
- Amanda Rodrigues de Sousa, 28 anos
- Marcela Camilly Alves da Silva, 22 anos
Marcos é apontado como o principal executor. Ele confessou em depoimento na segunda-feira (19). Marcela também confessou. Amanda é investigada por dar suporte e cobertura às ações.
O passo a passo da tentativa até conseguir matar
O inquérito policial, ao qual o portal Metrópoles teve acesso, descreve a sequência:
• Marcos se apodera de um medicamento de uso comum em UTIs;
• njeta a substância diretamente na veia de Miranilde;
• A paciente entra em parada cardíaca;
• A equipe médica consegue reanimá-la;
• Ele repete o procedimento mais duas vezes, com o mesmo resultado;
• Na quarta tentativa, sem o medicamento, ele usa desinfetante.
Segundo o delegado Wisllei Salomão:
Quando o medicamento acabou, ele pegou um desinfetante […] o colocou no copinho plástico, sugou o desinfetante numa seringa e injetou [o conteúdo] por mais de dez vezes em uma das pacientes.”
Como ele conseguia retirar o medicamento sem levantar suspeitas
A investigação revelou uma falha crítica no protocolo interno da UTI.
O sistema de prescrição ficava aberto, logado em nome de médicos. Marcos se aproveitava disso para:
- Emitir prescrições indevidas em nome de médicos
- Ir à farmácia buscar o medicamento
- Preparar a seringa
- Escondê-la no jaleco
- Aplicar o conteúdo nas vítimas
As câmeras da UTI, os prontuários e os depoimentos de funcionários confirmaram a dinâmica.
Constatamos que um técnico de enfermagem aproveitou que o sistema estava aberto, logado em nome de médicos, e, em ao menos duas ocasiões, receitou o medicamento [indevido], foi até a farmácia, pegou o medicamento, o preparou, escondeu a seringa no jaleco e a aplicou em três vítimas”, afirmou o delegado.
As três vítimas e como os crimes foram distribuídos
Segundo a Polícia Civil, os investigados respondem por:
- Morte de Miranilde Pereira da Silva: os três respondem por homicídio qualificado
- Morte de João Clemente Pereira: Marcos e Amanda respondem por homicídio qualificado
- Morte de Marcos Raymundo Fernandes Moreira: Marcos e Marcela respondem por homicídio qualificado
As mortes ocorreram nos dias 19 de novembro e 1º de dezembro de 2025.
O papel de Amanda e Marcela
De acordo com a investigação:
→ Amanda auxiliava na retirada do medicamento na farmácia;
→ Marcela estava presente no momento das aplicações;
→ As duas davam cobertura à ação de Marcos dentro da UTI.
“Uma delas o auxiliou a buscar essa medicação na farmácia e também estava presente no momento em que o medicamento foi ministrado.”
Médicos também prestaram depoimento sobre uso de senhas
Dois médicos intensivistas foram ouvidos para esclarecer como suas senhas eram utilizadas no sistema.
A polícia apura:
- Se havia compartilhamento informal de senhas
- Se a senha foi obtida de forma ilegal
- Se houve negligência no controle da retirada de medicamentos
A retirada desse tipo de medicação deveria ter acompanhamento médico.
Hospital identificou “circunstâncias atípicas”
O Hospital Anchieta informou que um comitê interno percebeu um padrão incomum nas mortes em menos de 20 dias na mesma UTI. Os três foram demitidos e o caso comunicado à polícia.
“Em menos de 20 dias, a investigação célere e rigorosa resultou na identificação de evidências envolvendo os ex-técnicos de enfermagem.”
“O hospital, também vítima da ação destes ex-funcionários, se solidariza com os familiares das vítimas.”
Marcos continuou trabalhando em UTI infantil após a demissão
Mesmo após ser demitido, Marcos passou a trabalhar em uma UTI infantil. Ele também é estudante de fisioterapia. A polícia agora investiga se pode haver ocorrências semelhantes em outras unidades onde ele atuou.
Defesas se manifestam
A defesa de Amanda pediu prisão domiciliar.
Já a defesa de Marcos afirmou que as informações divulgadas podem estar formando um “juízo público equivocado” sobre o técnico.
O que ainda será investigado
Os três estão presos temporariamente por 30 dias. A Polícia Civil vai:
- Analisar celulares e computadores apreendidos
- Verificar mortes com padrão semelhante em outros hospitais
- Tentar esclarecer a motivação dos crimes
- Apurar possível participação de outras pessoas
O Ministério Público do DF informou que analisará as medidas cabíveis quando receber o inquérito.
Enquanto isso, a investigação expõe uma sequência de falhas de protocolo, acesso indevido a sistemas médicos e a ação deliberada de profissionais que, segundo o delegado, “mataram pela ação de quem deveria estar cuidando deles”.
Amanda Rodrigues de Sousa, Marcos Vinícius Silva e Marcela Camilly Alves são os três técnicos de enfermagem suspeitos de matarem pacientes na UTI do Hospital Anchieta.