Polícia
Publicado em 24/09/2026, às 12h13 Reprodução: Internet Redação
A Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) concluiu que a estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, morreu após uma queda classificada tecnicamente como “precipitação voluntária”.
A conclusão foi apresentada nesta quarta-feira (23), durante uma coletiva realizada pela Polícia Civil do Ceará (PCCE) e pela Pefoce para detalhar os resultados dos exames realizados desde a morte da jovem, registrada em 13 de setembro, no bairro Aldeota, em Fortaleza.
Segundo o perito-geral da Pefoce, Júlio Torres, os elementos técnicos reunidos indicam que Isabelle caiu em posição predominantemente vertical e que a dinâmica observada nas imagens é compatível com uma queda provocada pela própria vítima. A perícia também descartou, com base nos vestígios analisados, a hipótese de que ela tenha sido empurrada ou arremessada por outra pessoa.
A conclusão pericial sobre a dinâmica da queda, porém, não encerra a investigação policial. As autoridades continuam apurando o que aconteceu nas horas que antecederam a morte e a possível participação do namorado de Isabelle, João Munhoz Neto, de 34 anos, que permanece preso preventivamente. Ele é investigado por possíveis crimes de violência psicológica, induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio e obstrução da investigação.
Imagens ajudaram a reconstruir a dinâmica da queda
Um dos principais elementos utilizados pelos peritos foi o sistema de monitoramento do condomínio onde Isabelle morava. Mais de 700 vídeos foram analisados pelas equipes, e, segundo as autoridades, não foram identificados sinais de adulteração ou manipulação dos arquivos.
Embora o rooftop de onde ocorreu a queda não tivesse câmeras, equipamentos instalados em outras áreas do edifício registraram parte da trajetória. Uma câmera localizada no hall da área da piscina captou o momento da queda, informação que foi utilizada pelos peritos para reconstruir a dinâmica do episódio.
As imagens dos elevadores também mostraram Isabelle entrando sozinha no equipamento e acionando o botão correspondente ao 23º andar, onde fica o rooftop. Segundo as informações apresentadas pela investigação, não foi identificado o acesso de outra pessoa ao local naquele intervalo, embora as escadas de emergência também não fossem monitoradas por câmeras.
A análise da Pefoce calculou ainda o tempo aproximado da queda. Os dados indicam que a trajetória levou cerca de três segundos até o impacto contra o solo. O cálculo da velocidade e da posição do corpo foi utilizado para reforçar a conclusão técnica de uma precipitação voluntária.
Isabelle permaneceu no rooftop por cerca de 1h28
A cronologia reconstruída pela Polícia Civil indica que Isabelle chegou ao rooftop depois de entrar sozinha no elevador às 19h12. O local fica no 23º andar do condomínio.
A estimativa apresentada pelos investigadores aponta que a morte ocorreu por volta das 20h40. Com base nesses horários, a estudante teria permanecido aproximadamente uma hora e 28 minutos na cobertura antes da queda.
Durante esse intervalo, Isabelle continuou utilizando o celular e trocando mensagens. O conteúdo das conversas passou a fazer parte do material analisado pela investigação para tentar esclarecer o estado das circunstâncias que antecederam a morte.
O aparelho estava no bolso da estudante quando ela caiu. Apesar dos danos provocados pelo impacto, o celular foi recolhido e encaminhado para análise pericial, com preservação da cadeia de custódia.
A análise do conteúdo do telefone é considerada uma das frentes importantes da investigação, ao lado dos depoimentos, dos registros das câmeras e dos demais dispositivos eletrônicos apreendidos.
Apartamento não apresentava sinais de luta
Antes de estabelecer a dinâmica da queda, a Pefoce realizou uma série de procedimentos no condomínio e no apartamento onde Isabelle vivia com João Munhoz e familiares dele.
Os peritos não encontraram sinais de arrombamento, desordem ou luta corporal no imóvel. Também não foram identificadas lesões de defesa, marcas de esganadura ou sinais de agressão física que tivessem ocorrido antes da queda.
Outro vestígio analisado foi encontrado na cortina de vidro do apartamento. Segundo as informações apresentadas na investigação, as impressões digitais localizadas naquele ponto foram atribuídas exclusivamente a João.
A perícia também examinou o local onde Isabelle foi encontrada e realizou procedimentos técnicos no apartamento, nas áreas comuns e no ponto relacionado à queda. Ao longo dos trabalhos, foram produzidos 11 laudos periciais em aproximadamente dez dias, incluindo exames de local, necropsia e análises laboratoriais.
Exames descartaram álcool, drogas e gravidez
O exame necroscópico apontou politraumatismo grave como causa da morte, compatível com o impacto provocado pela queda.
A Pefoce informou ainda que uma das lesões provocadas pelo impacto resultou na amputação da perna direita da estudante após o choque com o gradil da estrutura.
Os exames toxicológicos e alcoólicos não identificaram álcool nem drogas ilícitas no organismo de Isabelle. Segundo as informações divulgadas, foi encontrado apenas carisoprodol, um relaxante muscular que, conforme relato da família, já fazia parte da medicação utilizada pela estudante.
A perícia também descartou a possibilidade de gravidez. A informação havia sido levantada anteriormente no curso das investigações, mas o exame realizado pela Pefoce não confirmou a gestação.
Prisão de João está relacionada às circunstâncias anteriores
A conclusão de que a queda ocorreu de maneira voluntária não significa que a Polícia Civil tenha encerrado a apuração sobre o relacionamento entre Isabelle e João Munhoz.
O namorado permanece preso preventivamente. A investigação passou a considerar, além da dinâmica da morte, informações sobre a relação entre os dois e possíveis episódios de controle excessivo e violência psicológica.
Segundo o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Márcio Gutiérrez, depoimentos colhidos durante a investigação apontaram uma postura de controle por parte de João no relacionamento.
A polícia também afirmou que houve uma conduta considerada não colaborativa por parte do investigado durante o avanço das diligências.
A apuração também examina questões financeiras envolvendo o casal, incluindo o uso de cartões bancários pertencentes a Isabelle e possíveis divergências entre os dois.
Nesse contexto, a Polícia Civil investiga a possibilidade de crimes relacionados à violência psicológica contra a mulher e ao artigo 122 do Código Penal, que trata de induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio.
Polícia investiga o que aconteceu depois da morte
Outro ponto que integra o pedido de prisão preventiva envolve acontecimentos registrados depois da morte de Isabelle.
Segundo a investigação, João teria retornado ao condomínio no dia seguinte e procurado o celular da estudante. Também teria orientado funcionários da portaria a impedir a entrada de familiares de Isabelle no prédio.
O apartamento onde o casal vivia também teria sido limpo por uma pessoa contratada posteriormente e colocado à venda, conforme informações reunidas pela polícia.
Além do celular de Isabelle, aparelhos pertencentes a João e outros dispositivos eletrônicos foram apreendidos. O material está sendo submetido a análises que podem ajudar a reconstruir as comunicações e os acontecimentos relacionados ao caso.
A Polícia Civil também considera o comportamento posterior à morte como parte do conjunto de elementos que precisam ser esclarecidos, inclusive para verificar eventual tentativa de interferência na investigação.
Mãe recebeu mensagem antes da morte
A mãe de Isabelle, Isorlanda Caracristi, relatou que não foi informada sobre a morte da filha na noite em que o corpo foi encontrado.
Como não conseguia estabelecer contato com Isabelle, ela foi até o condomínio no dia seguinte. Foi então que tomou conhecimento da morte da estudante.
A família também informou que Isabelle havia enviado uma mensagem para a mãe pouco antes de subir para o rooftop. Por volta das 19h, a jovem escreveu: “mãe, te amo”.
O conteúdo das mensagens enviadas antes da morte está entre os elementos que vêm sendo examinados pelos investigadores. A polícia busca estabelecer a sequência dos acontecimentos e compreender o contexto das horas anteriores à queda.
Sete pessoas já haviam sido ouvidas, mas investigação avançou
A apuração é conduzida por equipes da 2ª Delegacia de Polícia Civil da Capital, da Delegacia de Defesa da Mulher e do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa.
Sete pessoas já haviam prestado depoimento no inquérito, incluindo João, conforme o material inicial da investigação. Informações apresentadas posteriormente pela Polícia Civil indicaram que o número de depoimentos já havia aumentado para dez durante a coletiva de quarta-feira.
As autoridades continuam cruzando os relatos com os dados extraídos de celulares, outros equipamentos eletrônicos e imagens do sistema de segurança do condomínio.
A Polícia Civil também informou que novos depoimentos foram programados para os próximos dias. O objetivo é esclarecer não apenas a dinâmica da queda, já analisada pela perícia, mas principalmente os acontecimentos que antecederam a morte.
Perícia encerra uma etapa, mas caso continua sob investigação
A conclusão apresentada pela Pefoce estabelece uma resposta para uma das principais questões técnicas do caso: os vestígios analisados são compatíveis com uma precipitação voluntária e não indicam que Isabelle tenha sido empurrada ou arremessada por outra pessoa.
Isso não encerra, entretanto, a investigação sobre a possível influência de terceiros nos acontecimentos anteriores. A Polícia Civil mantém a apuração sob a perspectiva de gênero e investiga a existência de violência psicológica, possível induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio e eventual obstrução da Justiça.
João Munhoz teve a prisão preventiva mantida pela Justiça após audiência de custódia e foi posteriormente encaminhado para uma unidade prisional em Aquiraz. A defesa contesta as acusações e sustenta que a morte de Isabelle foi um suicídio, negando participação de João no ocorrido.
O caso permanece sob segredo de Justiça, enquanto os investigadores aguardam a conclusão das análises dos aparelhos eletrônicos, das mensagens, das imagens de segurança e dos demais elementos reunidos no inquérito.