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Publicado em 17/09/2026, às 10h34 Internet Redação
O Banco Central reduziu novamente a taxa básica de juros da economia brasileira. Em decisão unânime tomada nesta quarta-feira (16), o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano.
Foi o quinto corte consecutivo promovido pelo Copom desde o início do atual ciclo de redução dos juros. Com a decisão, a Selic acumula queda de 1,25 ponto percentual e chega ao menor nível desde março de 2025. A redução já era esperada pelo mercado financeiro.
A decisão ocorre em um cenário de inflação mais comportada, mas ainda cercado por riscos. O ambiente internacional continua pressionado pelas tensões no Oriente Médio, enquanto o fenômeno climático El Niño pode provocar efeitos sobre a produção de alimentos e dificultar a trajetória de queda da inflação.
O próprio Copom destacou que o cenário externo permanece incerto e exige cautela dos países emergentes diante da volatilidade dos preços de ativos e das commodities.
Quinto corte consecutivo
A nova redução mantém a trajetória de flexibilização iniciada pelo Banco Central neste ano.
A Selic permaneceu em 15% ao ano por um longo período, antes de o Copom iniciar a sequência de cortes. Desde então, a taxa vem sendo reduzida gradualmente, sempre em movimentos de 0,25 ponto percentual.
Com o corte desta quarta-feira, a taxa passou de 14% para 13,75% ao ano.
A redução ocorre em meio à desaceleração da inflação e a sinais de moderação da atividade econômica. O Copom, entretanto, sinalizou que os próximos passos dependerão da evolução dos indicadores e do comportamento dos preços.
A próxima reunião do comitê está prevista para novembro, depois das eleições de outubro.
Inflação ajudou a abrir espaço para o corte
Um dos principais fatores considerados pelo Banco Central foi o comportamento recente do IPCA, índice oficial de inflação.
Em agosto, o indicador registrou deflação de 0,32%, ou seja, uma queda média dos preços em relação ao mês anterior. Foi o menor resultado para agosto desde 2022 e a primeira variação negativa do IPCA em um ano.
No acumulado de 12 meses até agosto, a inflação ficou em 4,22%, abaixo dos 4,44% registrados até julho. O resultado também ficou abaixo do teto de 4,5% estabelecido pelo sistema de metas.
A queda, porém, não significa que todos os preços tenham diminuído. O resultado foi influenciado principalmente pela redução das tarifas de energia elétrica, pela queda de alguns alimentos e pela retração nos preços de transportes.
A conta de luz residencial caiu 7,63% em agosto, influenciada pelo bônus de Itaipu. Alimentação e bebidas também registraram deflação, de 0,34%.
El Niño preocupa o Banco Central
Apesar da melhora recente, o cenário para os próximos meses ainda apresenta riscos.
Um deles está relacionado ao El Niño, fenômeno climático que pode afetar as condições de produção agrícola e, consequentemente, pressionar os preços dos alimentos.
Esse efeito é especialmente relevante para a política monetária porque uma eventual alta persistente dos alimentos pode dificultar a continuidade do processo de desinflação.
A preocupação aumenta porque o resultado negativo do IPCA em agosto teve influência de fatores específicos, como o bônus de Itaipu. Portanto, parte da deflação não necessariamente representa uma tendência permanente de queda dos preços.
Guerra no Oriente Médio também entra no radar
O cenário internacional é outro fator de preocupação para o Copom. As tensões envolvendo o Oriente Médio têm impacto sobre os preços das commodities, especialmente do petróleo. Uma eventual alta prolongada da commodity pode aumentar custos de produção e transporte e pressionar a inflação em diferentes setores.
Além disso, o Banco Central acompanha a política monetária de outras grandes economias.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve elevou os juros nesta quarta-feira para uma faixa entre 3,75% e 4%, em sua primeira alta desde julho de 2023. A decisão americana reduz a diferença entre os juros brasileiros e americanos e pode influenciar o comportamento dos fluxos de capital e do câmbio.
Esse cenário explica parte da cautela adotada pelo Banco Central mesmo diante da desaceleração recente da inflação brasileira.
Inflação ainda está acima da meta central
Embora o IPCA acumulado em 12 meses esteja abaixo do teto permitido pelo sistema de metas, o índice ainda está acima do objetivo central perseguido pelo Banco Central.
A meta é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Isso significa que o limite inferior é de 1,5%, enquanto o limite superior é de 4,5%.
Com os 4,22% registrados nos 12 meses encerrados em agosto, a inflação está dentro do intervalo de tolerância, mas ainda distante da meta central de 3%.
Essa diferença ajuda a explicar por que o Copom vem promovendo cortes graduais, em vez de uma redução mais acelerada da taxa básica.
O que acontece com o crédito quando a Selic cai?
A Selic funciona como uma referência para diversas taxas de juros praticadas na economia brasileira.
Quando o Banco Central reduz a taxa básica, o custo de captação das instituições financeiras tende a cair. Com o tempo, isso pode contribuir para reduzir as taxas cobradas em operações de crédito.
Na prática, a queda pode favorecer consumidores e empresas que precisam contratar financiamentos, empréstimos ou outras modalidades de crédito.
Mas o efeito não acontece imediatamente e não significa que todas as taxas bancárias cairão na mesma proporção.
Os bancos também consideram fatores como risco de inadimplência, custos operacionais, impostos, margem financeira e condições de mercado ao definir os juros cobrados dos clientes.
Consumo e investimentos podem ser estimulados
Juros menores também podem estimular a atividade econômica. Quando o crédito fica menos caro, famílias tendem a ter melhores condições para financiar compras e empresas podem encontrar um ambiente mais favorável para investir, ampliar produção e contratar.
Esse movimento pode ajudar a aquecer a economia. Por outro lado, existe uma relação direta entre estímulo à atividade e inflação. Se a demanda crescer muito em um momento em que a oferta de produtos e serviços não acompanha o ritmo, os preços podem voltar a subir.
Por isso, o Banco Central precisa equilibrar dois objetivos: reduzir os juros para permitir uma economia mais dinâmica e, ao mesmo tempo, evitar que a inflação volte a ganhar força.
O que acontece com os investimentos?
A redução da Selic também afeta quem investe. Aplicações de renda fixa que acompanham diretamente ou indiretamente a taxa básica tendem a oferecer retornos menores quando os juros caem.
É o caso de investimentos pós-fixados atrelados ao CDI, por exemplo, que acompanha de perto a Selic.
Ao mesmo tempo, juros menores podem tornar investimentos de maior risco relativamente mais atrativos, já que a diferença de retorno em relação à renda fixa pode diminuir.
O comportamento, entretanto, depende das características de cada aplicação, dos riscos envolvidos e das expectativas para os juros futuros.
Mercado prevê inflação acima do teto
Mesmo com a melhora observada nos últimos meses, as expectativas do mercado para a inflação permanecem acima do teto da meta.
De acordo com o boletim Focus, pesquisa semanal realizada pelo Banco Central com instituições financeiras, a projeção para o IPCA de 2026 está em 4,9%.
A previsão representa uma diferença significativa em relação à meta central de 3% e também supera o limite superior de 4,5%.
O cenário mostra por que o Banco Central mantém uma postura cautelosa na condução dos juros, mesmo diante da sequência de cortes.
Economia deve crescer menos em 2026
A atividade econômica também entra na equação. O Banco Central reduziu os juros em um momento em que os indicadores mais recentes apontam para uma moderação gradual da economia brasileira.
O mercado financeiro projeta crescimento de aproximadamente 1,89% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, abaixo da estimativa de 1,98% feita quatro semanas antes.
O Banco Central, por sua vez, trabalha com uma previsão de crescimento de 2% para o ano.
A diferença entre as projeções mostra que há incerteza sobre o ritmo de expansão da economia nos próximos meses.
Por que a Selic é tão importante?
A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira e serve como uma das principais ferramentas utilizadas pelo Banco Central para controlar a inflação.
Quando os preços estão pressionados, o BC pode elevar os juros para encarecer o crédito e estimular a poupança. A intenção é reduzir o consumo e os investimentos financiados, diminuindo a pressão da demanda sobre os preços.
Quando o cenário permite, o movimento pode ser invertido. Com juros menores, o crédito tende a ficar mais acessível, o consumo pode ser estimulado e as empresas podem encontrar melhores condições para investir.
O desafio está em encontrar um nível de juros que permita a atividade econômica avançar sem comprometer o controle da inflação.