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Publicado em 25/04/2026, às 06h00 Imagem gerada por IA Anderson Barbosa
Natural de Natal, o farmacêutico clínico e servidor público estadual José Batista, de 44 anos, carrega no corpo e na memória as marcas de uma trajetória extrema. Conhecido como “Zé da Farmácia”, ele transformou a própria dor em missão: dedicar a vida a ajudar outras pessoas no enfrentamento da obesidade — um inimigo que ele conhece de perto e quase o venceu.
Casado e pai de três filhos, José chegou ao limite há cinco anos, quando a balança marcou 207 quilos. O peso não era apenas físico — era também o cansaço constante, as limitações diárias e a sensação de estar perdendo, pouco a pouco, a própria vida. Ainda assim, em meio às dificuldades, ele resistiu. Dividiu a rotina exaustiva de trabalho com o desejo de entender o próprio corpo e mergulhou nos estudos de farmacologia, hormônios e fisiologia.
Antes de se especializar na área, trabalhou como gari. Foi nas ruas, sob sol forte e enfrentando o desgaste daquele corpo grande e pesado, que começou a forjar a disciplina que mais tarde se tornaria sua principal aliada.
"A disciplina construída na dureza da rotina foi decisiva para eu reescrever minha história", disse José.
A obesidade sempre esteve presente, influenciada por fatores genéticos. O quadro se agravou após sua entrada no serviço público, quando chegou ao peso extremo. Mais do que uma questão estética, o impacto foi funcional e emocional.
“Eu percebi que não conseguia mais cuidar de mim. Coisas básicas, como minha própria higiene, já exigiam ajuda de outras pessoas”, relembra.
Em um dos momentos mais marcantes, ele resume:
“Eu não fui ao fundo do poço. Eu era o fundo do poço”.
Além das limitações físicas, José enfrentou o peso do preconceito e do julgamento social. Piadas, olhares e críticas eram constantes. A autoestima foi abalada, vieram o isolamento emocional, dificuldades com o álcool e o agravamento de problemas de saúde como diabetes e hipertensão.
“Você não vive. Você sobrevive dentro de um corpo que te limita todos os dias”.
A virada não veio com motivação, mas com dor. Durante um momento com o filho mais velho, José sofreu uma queda ao não suportar o próprio peso somado ao da criança.
"Ali eu chorei. Muito. Foi quando entendi que não dava mais”.
A partir desse episódio, iniciou um processo de reconstrução. Primeiro, buscou apoio espiritual. Depois, fortaleceu laços com pessoas próximas. “Essa luta não é solitária. Ninguém chega a lugar nenhum sozinho”, reconheceu.
Cinco anos depois, o resultado é uma transformação que vai além da perda de peso. Hoje, José pesa 133 quilos — quase metade do que já pesou — e segue determinado a avançar ainda mais, com a meta de ficar mais próximo dos 100 quilos. No processo, ele recuperou a autoestima, estabilizou doenças crônicas e reconquistou a autonomia.
Hoje, encara a obesidade com consciência e responsabilidade. “Eu ainda me considero um obeso em evolução. Essa é uma doença que sempre vai estar ao meu redor. A diferença é que hoje ela não manda mais em mim”, destacou.
Com a experiência que acumulou, ele assumiu uma nova missão: ajudar outras pessoas a enfrentarem a obesidade com base em ciência, estratégia e verdade. Sem atalhos ou promessas fáceis.
“Todos os dias eu preciso vencer essa batalha. E é isso que eu ensino: não é sobre um dia. É sobre todos eles”, pontuou.
Sobre o futuro, ele é direto:
"O céu é o limite. Eu só preciso de saúde e força para não voltar para onde eu estava”.
E deixa um recado para quem enfrenta o mesmo desafio: “A obesidade me derrubou e me deixou no chão. Ela quase me parou. Hoje, eu uso a obesidade como combustível para me erguer, para levantar outras pessoas e seguir adiante”.
"Nesse processo de mudança, de luta contra a obesidade, o aliado principal, claro, é a força mental que o ser humano tem que ter e a consciência subjetiva de que, primeiro, só ele mesmo, ou seja, só você mesmo, pode fazer algo por você. Então, a primeira coisa é a gente criar essa consciência de que precisa, urgentemente, sair da inércia do sedentarismo", disse José Batista, sobre o que ele fez, de fato, para perder peso sem utilizar fórmulas milagrosas ou medicamento injetáveis que atualmente também são usados no manejo da obesidade e sobrepeso.
"A gente tem que iniciar práticas esportivas, procurar bons profissionais para ajustar uma dieta — uma dieta que seja personalizada para você, obedecendo ao cenário viciante, doentio e mórbido que é a obesidade. Então, você pega um paciente obeso: não adianta você querer fazer a dieta de “chuchu”... não, você tem que fazer uma dieta que venha trazendo esse paciente para outro cenário, que seja adaptativa. E aí, aos poucos, você vai ajustando e apertando na medida em que for necessário", ressaltou.
Ainda segundo José, é preciso abandonar hábitos deletérios, como bebida alcoólica, qualquer outro tipo de droga recreativa e cigarro. É importante nessa luta, nessa batalha. Atrelado a isso, frequentar academia, puxar ferro, Ir para a academia e puxar ferro também é um fator fundamental para que o processo de mudança ocorra de forma sólida e saudável", acrescentou.
"E, claro, e evidentemente, algum ou outro medicamento entra para ajudar. E aqui eu não estou nem falando das “canetinhas”, porque, quando eu comecei meu processo, nem se falava nelas. Trata-se de ajustar padrões bioquímicos, algum hormônio que esteja deficitário, para trazer, aos poucos, o corpo saudável novamente à tona", finalizou.
A Organização Mundial de Saúde afirma: a obesidade é um dos mais graves problemas de saúde que temos para enfrentar. A estimativa é de que 2,3 bilhões de adultos ao redor do mundo estejam acima do peso, sendo 700 milhões de indivíduos com obesidade, isto é, com um índice de massa corporal (IMC) acima de 30.
Dados de 2025, disponíveis no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do Ministério da Saúde, mostram que o Rio Grande do Norte possui o segundo maior índice de adultos obesos dentre todos os estados do Brasil.
Os números apontam que 42,09% da população potiguar adulta possui algum grau de obesidade, índice inferior somente ao do Rio Grande do Sul, que é de 43,06%, e muito semelhante ao dos estados do Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul, que são de 42,07% e 42,01%, respectivamente. O Maranhão é a unidade federativa do país com menor percentual de obesos adultos: 27,06%.
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