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Publicado em 05/09/2026, às 09h30 Reprodução/Viaje Natal José Nilton Jr.
Quem chega a Natal pode encontrar muito mais do que praias e paisagens à beira-mar. No coração da capital potiguar, ruas, praças, igrejas e prédios centenários ajudam a contar uma história que atravessa mais de quatro séculos. É no Centro Histórico que diferentes tempos da cidade se encontram.
Entre construções que resistiram às transformações urbanas, paredes cobertas de grafite, bares tradicionais e espaços dedicados à cultura, o visitante percorre um roteiro marcado por acontecimentos políticos, religiosos e sociais que ajudaram a construir a identidade de Natal.
Considerada o marco zero de Natal, a Praça André de Albuquerque carrega uma das histórias mais simbólicas da cidade. O espaço recebeu o nome em homenagem ao revolucionário André de Albuquerque, personagem ligado à Revolução de 1817.
Ferido durante os conflitos, ele foi levado à Fortaleza dos Reis Magos e, posteriormente, arrastado, ainda ensanguentado, até a Igreja de Nossa Senhora da Apresentação. O episódio teria dado origem ao antigo nome pelo qual a praça ficou conhecida: Praça Vermelha.
Ao longo do tempo, o espaço assumiu diferentes funções. Já foi cemitério, palco de execuções públicas e cenário de manifestações políticas. Hoje, cercada por igrejas, estabelecimentos comerciais e construções históricas, a praça mantém, em meio à movimentação cotidiana, marcas de diferentes períodos da história potiguar.
A poucos passos dali está a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, considerada a igreja mais antiga do Rio Grande do Norte.
A inauguração ocorreu em 25 de dezembro de 1599, durante a missa que marcou a fundação da cidade. Desde então, o templo atravessou diferentes períodos da história de Natal e testemunhou transformações profundas na sociedade potiguar.
Durante o domínio holandês, entre 1633 e 1654, a igreja chegou a ser utilizada pelos protestantes. O templo também está ligado à história dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, entre eles o padre Ambrósio Francisco Ferro, martirizado junto a outros fiéis por se recusarem a abandonar a fé católica.
Se a história está presente nas pedras e nos casarões, a cultura contemporânea ganha força no Beco da Lama. A Rua Vaz Gondim, como é oficialmente conhecida, tornou-se um dos tradicionais pontos de encontro da boemia natalense. Bares, botecos e pequenos restaurantes dividem espaço com manifestações artísticas e culturais.
O apelido remete ao século 19, quando a passagem era estreita e frequentemente tomada pela lama. Com o passar das décadas, porém, o lugar ganhou outro significado para a cidade. O beco tornou-se espaço de encontro de intelectuais, artistas e boêmios.
A revitalização realizada pela Prefeitura em 2019 ajudou a renovar o espaço. As paredes ganharam cores e grafites que homenageiam personalidades como o folclorista Câmara Cascudo e celebram elementos da identidade potiguar.
O resultado é um cenário em que o passado não está separado do presente. No Beco da Lama, a história aparece pintada nas paredes, enquanto a vida cultural se manifesta nas mesas dos bares e no movimento das ruas.
A caminhada pelo Centro Histórico também passa pela memória de um dos maiores estudiosos da cultura brasileira: Luís da Câmara Cascudo.
O Memorial e Instituto Câmara Cascudo preservam parte da trajetória do folclorista potiguar. O prédio que abriga a instituição desde 1987 foi construído em 1875 para sediar a Tesouraria da Fazenda. O espaço passou a funcionar como uma homenagem à vida e à obra de Cascudo, além de valorizar o folclore e a cultura popular.
O Instituto Câmara Cascudo está instalado na casa onde o intelectual viveu por quase quatro décadas. O imóvel preserva objetos, documentos, livros e mobiliário de época, criando uma espécie de retrato de uma vida dedicada à pesquisa e ao conhecimento.
A atmosfera boêmia ganha continuidade no Espaço Cultural Ruy Pereira, conhecido por muitos natalenses como Bar de Zé Reeira. Tradicional ponto de encontro, o espaço recebe manifestações culturais e artísticas e também passou por revitalização, em 2020. As intervenções melhoraram a infraestrutura, com iluminação especial e calçadas mais acessíveis.
Assim como no Beco da Lama, os grafites ocupam as paredes e ajudam a construir uma identidade visual própria para o local. O espaço presta homenagem a Ruy Pereira, paraibano que recebeu o título de Cidadão Natalense. Mais uma vez, Natal transforma um endereço do cotidiano em lugar de memória, convivência e expressão cultural.
Na Praça Augusto Severo, o roteiro histórico encontra um dos principais símbolos das artes cênicas do Rio Grande do Norte: o Teatro Alberto Maranhão.
Inaugurado em 1904, o edifício apresenta arquitetura art nouveau e características inspiradas na arquitetura francesa do século 19. O nome homenageia o ex-governador Alberto Maranhão, cujos restos mortais estão sepultados no próprio local.
Ao longo de sua trajetória, o teatro recebeu nomes importantes do teatro, da dança e da música nacional e se consolidou como um dos espaços culturais mais importantes de Natal.
Mais de um século depois de sua inauguração, o prédio permanece como testemunha da vida artística da capital e como parte fundamental do patrimônio cultural potiguar.