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Publicado em 03/10/2026, às 06h00 Capela de Cunhaú em ruínas, após o massacre, e depois de restaurada - Reprodução Anderson Barbosa
O Rio Grande do Norte presta homenagens neste sábado, dia 3 de outubro, aos Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, os primeiros santos potiguares canonizados pela Igreja Católica. Estamos falando de uma história que começou com muito sangue derramado em duas comunidades da Grande Natal e terminou diante da Basílica de São Pedro, no Vaticano.
A homenagem é destinada aos 30 homens e mulheres (entre eles alguns jovens e crianças) assassinados em 1645. Nesta matéria especial, o BNews RN revisita os episódios que marcaram a história religiosa potiguar, uma trajetória de fé e devoção por quase quatro séculos — de Cunhaú e Uruaçu até o Vaticano.
Os fatos ocorreram em 1645, período de conflitos provocados pela ocupação holandesa no Nordeste brasileiro. O território que hoje corresponde ao Rio Grande do Norte era palco de disputas políticas, militares e religiosas.
Foi nesse cenário que ocorreram dois massacres, episódios de extrema violência que deram origem à devoção aos chamados Protomártires do Brasil: o primeiro, em 16 de julho, no Engenho Cunhaú, em Canguaretama; o segundo, em 3 de outubro, na região de Uruaçu, atualmente pertencente a São Gonçalo do Amarante.
As duas carnificinas deixaram dezenas de mortos. Anos depois, a Igreja Católica identificaria 30 vítimas — entre elas dois sacerdotes — como mártires e iniciaria o processo que, séculos mais tarde, terminaria com a canonização do grupo.
Era domingo, 16 de julho de 1645. No Engenho Cunhaú, então um dos principais núcleos de ocupação da região, moradores se reuniram na Capela de Nossa Senhora das Candeias para a celebração da missa. À frente da cerimônia estava o padre André de Soveral.
Segundo os registros utilizados pela Igreja no processo de canonização, a capela foi cercada e invadida por soldados holandeses e indígenas aliados. Os fiéis foram mortos dentro do templo. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) registra que 69 pessoas participavam da celebração. Entre as vítimas estava o próprio padre André de Soveral.
O episódio transformou Cunhaú, hoje município de Canguaretama, em um dos principais pontos ligados à história dos mártires no Rio Grande do Norte.
A violência não terminou em Cunhaú. Em 3 de outubro de 1645, outro grupo de moradores foi levado para a região de Uruaçu, às margens do rio de mesmo nome, em área que atualmente pertence a São Gonçalo do Amarante. Pelo menos 80 pessoas estariam no local. Entre elas o padre Ambrósio Francisco Ferro e o leigo Mateus Moreira, dois dos nomes que posteriormente seriam reconhecidos oficialmente como mártires.
Os relatos preservados pela Igreja apontam que os prisioneiros foram pressionados a abandonar a fé católica antes de serem mortos. Mateus Moreira se tornou o personagem mais conhecido. Segundo a tradição católica, enquanto sofria as agressões que antecederam sua morte, ele pronunciou a frase que se tornou símbolo da devoção aos mártires: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento".
Os massacres de Cunhaú e Uruaçu envolveram um número de vítimas superior aos 30 nomes que posteriormente foram reconhecidos pela Igreja. O grupo canonizado, no entanto, é formado pelos padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, além de Mateus Moreira e por outras 27 pessoas que também foram mortas.
Entre os 30 reconhecidos, 27 eram brasileiros natos, um português, um espanhol e um francês. O grupo passou a ser conhecido como Protomártires do Brasil. O termo ganhou destaque durante a visita do papa João Paulo II a Natal, em 13 de outubro de 1991, quando o pontífice participou da missa de encerramento do XII Congresso Eucarístico Nacional.
Apesar de a memória dos episódios permanecer entre os católicos potiguares por séculos, o processo formal de reconhecimento dos mártires só começou no século XX. A causa de beatificação foi aberta em 1988, durante o arcebispado de dom Alair Vilar. O monsenhor Francisco de Assis Pereira foi o postulador responsável pelo processo. O processo avançou durante a década de 1990 e chegou ao Vaticano.
Em 5 de março de 2000, os 30 mártires foram beatificados pelo papa João Paulo II, na Praça de São Pedro, no Vaticano. A cerimônia marcou a primeira grande etapa do reconhecimento oficial da Igreja e consolidou o título de Protomártires do Brasil.
A etapa seguinte demoraria mais 17 anos. Em março de 2017, o papa Francisco aprovou a canonização dos beatos André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Mateus Moreira e dos outros 27 mártires. A cerimônia foi marcada para 15 de outubro daquele ano.
Naquele domingo, a Praça de São Pedro recebeu a cerimônia que transformaria definitivamente a história dos mártires em parte do calendário oficial da Igreja Católica, quando o papa Francisco canonizou os 30 Mártires de Cunhaú e Uruaçu.
Em homenagem ao morticínio, foi erguido um monumento na localidade de Uruaçu, próximo aonde ocorreu o martírio, denominado 'Monumento aos Mártires', que foi inaugurado no dia 05 de dezembro de 2000.
O local abrange uma área de dois hectares, doada pela família Veríssimo, proprietária da fazenda. O Monumento aos Mártires foi projetado pelo arquiteto Francisco Soares Junior, tendo capacidade para receber 20 mil peregrinos. Atrás do palco há um painel medindo 30 metros.
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