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Publicado em 25/05/2026, às 10h05 Caroline Morais/Ministério da Saúde Malu Machado
O hormônio essencial para pessoas com diabetes vivas entrou definitivamente no radar de fisiculturistas saudáveis em busca de hipertrofia acelerada.
Aplicada sem indicação médica e fora dos consultórios, a substância esconde um perigo invisível: em doses incorretas, pode derrubar os níveis de açúcar no sangue a ponto de levar ao coma e à morte súbita.
A discussão sobre o tema ganhou força no último final de semana, após a repercussão da morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, em São Paulo.
No apartamento do jovem foram encontrados medicamentos com indícios de serem anabolizantes. Embora a causa do óbito ainda dependa de exames do Instituto Médico Legal (IML), o próprio influenciador já havia relatado nas redes sociais que utilizava insulina e que chegou a passar mal com uma crise grave de hipoglicemia semanas antes, após aplicar o hormônio em um período de restrição alimentar.
Sem comentar o caso específico, o endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo, alerta que o uso subterrâneo é bem mais frequente do que se imagina.
Dizer que a insulina serve apenas para controlar o açúcar é ignorar sua outra faceta metabólica. "A insulina é um anabolizante", resume o Dr. Clayton Macedo.
Dentro do organismo, ela atua em duas frentes que interessam ao ganho de massa bruto:
No entanto, o médico reforça que o hormônio só é seguro para quem tem deficiência real. Para quem já produz a substância normalmente, o excesso gera um acúmulo severo de gordura (efeito lipogênico).
No meio do fisiculturismo, a droga costuma ser usada na fase de "bulking" (ganho de volume), onde atletas aplicam versões de ação rápida combinadas com a ingestão imediata de açúcar antes ou após os treinos para mascarar o efeito colateral imediato. É uma técnica perigosa e sem qualquer respaldo da medicina.
O risco mais urgente do uso da insulina em pessoas saudáveis é o choque hipoglicêmico. Quando a glicose despenca, o corpo reage em um efeito cascata assustador:
Diferente dos esteroides anabolizantes tradicionais e do GH (hormônio do crescimento), a insulina é considerada um "doping invisível". Como a versão sintética é idêntica à produzida pelo corpo humano e dura apenas de 5 a 10 minutos circulando no sangue, os exames laboratoriais tradicionais de urina ou sangue não conseguem flagrar o uso.
Para tentar contornar esse ponto cego, um estudo publicado na revista científica Sports Medicine - Open, conduzido por pesquisadores da Itália e da Eslovênia, avaliou 92 fisiculturistas e 45 indivíduos de controle.
Nas academias, a insulina raramente é usada sozinha. Ela faz parte de um "combo" que inclui esteroides anabolizantes, diuréticos e estimulantes. Essa mistura é uma bomba-relógio para o sistema cardiovascular:
O Dr. Clayton Macedo relata um aumento expressivo no atendimento de pacientes jovens com arritmias graves após o uso dessas substâncias, inclusive de "implantes hormonais" estéticos.
A utilização de hormônios e esteroides para fins estéticos ou de desempenho esportivo é expressamente proibida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Anvisa. No caso da insulina, não há absolutamente nenhuma indicação médica para quem não tem diagnóstico de diabetes.
Para piorar o cenário de risco, o mercado subterrâneo faz com que atletas utilizem doses cavalares e recorram a substâncias de uso exclusivamente veterinário, que são mais potentes e fáceis de adquirir ilegalmente.
De acordo com os especialistas, o grande perigo atual reside no alcance das redes sociais, onde influenciadores exibem corpos fisiologicamente inatingíveis sem o uso de drogas, atraindo jovens para um mercado perigoso antes mesmo que eles conheçam os riscos reais à própria vida.