Cidades
Publicado em 20/08/2026, às 11h45 Elí Bernardo/ BNews RN Lavínia Manso
Trabalhadores terceirizados que atuam na rede estadual de saúde do Rio Grande do Norte iniciaram uma greve após o atraso no pagamento dos salários e denunciam que a redução do efetivo já estaria afetando serviços de higienização em hospitais públicos. Em entrevista ao BNews RN, Ricardo Paiva, diretor do Sindicato dos Profissionais de Enfermagem do Rio Grande do Norte (Sipern), afirmou que algumas unidades estariam operando com apenas 30% dos trabalhadores responsáveis pela limpeza.
Segundo Paiva, a mobilização atinge profissionais que atuam no Hospital da Polícia, Hospital Maria Alice Fernandes, Hospital Giselda Trigueiro, Hospital João Machado, Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) e Hemocentro do Rio Grande do Norte (Hemonorte). De acordo com o diretor do sindicato, a redução da equipe pode comprometer o funcionamento de setores como enfermarias, unidades de terapia intensiva (UTIs) e centros cirúrgicos.
Sem eles estarem presentes ou, pelo menos, se o efetivo deles estiver defasado, não tem como ter algumas cirurgias. Alguns desses hospitais fazem cirurgias eletivas. Setores de UTI, centro cirúrgico, setores com enfermarias vão ficar sujos”, afirmou Ricardo Paiva.
A paralisação também afeta outros serviços de apoio fundamentais para o funcionamento cotidiano das unidades estaduais, como alimentação, recepção e manutenção. Embora esses trabalhadores não estejam diretamente envolvidos no atendimento médico, a interrupção ou redução das equipes pode provocar reflexos em diferentes setores dos hospitais.
De acordo com a Sesap, cerca de R$ 6 milhões foram transferidos na sexta-feira (14) para as empresas responsáveis pelos serviços terceirizados. Parte das empresas realizou os pagamentos, enquanto outras ainda não haviam regularizado a situação dos funcionários.
A categoria afirma, porém, que os problemas vão além dos salários atrasados. Entre as reclamações estão também o não pagamento do vale alimentação, férias pendentes e a ausência de depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Os trabalhadores cobram que os recursos repassados pelo Estado cheguem efetivamente às contas dos funcionários.
Ricardo Paiva afirmou que os trabalhadores estão mobilizados desde domingo e que o Sipern cobra providências do secretário de Saúde, da empresa Justiz e do Governo do Estado.
É por isso que nós estamos nas ruas desde domingo, pedindo ao secretário de Saúde, pedindo à empresa Justiz e pedindo ao Governo do Estado que pague esses trabalhadores que estão sem poder botar comida na mesa, com seus filhos passando necessidade, sem poder pagar seus aluguéis e sem poder viver uma vida digna”, afirmou.
O episódio ocorre poucas semanas depois de outra mobilização envolvendo trabalhadores terceirizados da saúde. Em julho, a categoria já havia realizado cobranças por salários atrasados e outros direitos. Na ocasião, a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) informou ter repassado mais de R$ 4 milhões a seis empresas terceirizadas, com pagamentos adicionais previstos nos dias seguintes.
Mesmo após os repasses, trabalhadores relataram que os valores não chegavam às contas. A recorrência dos atrasos levou representantes da categoria a defender mudanças no modelo de contratação da saúde pública estadual, incluindo a realização de concursos públicos e a redução da dependência de empresas terceirizadas.
O diretor do Sipern resumiu a reivindicação da categoria como uma cobrança por condições mínimas de vida.
O que nós pedimos é dignidade e que o governo pague esses trabalhadores. É só isso que nós queremos”, declarou.
A atual greve acontece em um cenário de pressão sobre os investimentos públicos na saúde do Rio Grande do Norte. Um levantamento realizado por laboratório vinculado ao Ministério Público apontou que o Estado aplicou 7,04% das receitas provenientes de impostos e transferências em ações de saúde até junho.
O percentual foi o menor entre as 27 unidades da Federação no período analisado e ficou abaixo do mínimo constitucional de 12% ao ano destinado às ações e serviços públicos de saúde.
A categoria afirma que a regularização dos pagamentos é necessária para que os profissionais possam retornar integralmente aos postos e garantir o funcionamento adequado dos serviços de apoio nos hospitais estaduais.