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Cidades

Tarifaço dos EUA trava exportações e coloca pesca oceânica do RN em alerta máximo

Exportações em queda e frota parada marcam a crise da pesca no Rio Grande do Norte após tarifas impostas pelos EUA  |  Reprodução/Freepik

Publicado em 23/12/2025, às 12h28   Reprodução/Freepik   Giovana Gurgel

Exportações em queda, frota parada e incerteza sobre 2026. Esse é o cenário enfrentado pela indústria pesqueira do Rio Grande do Norte após a imposição de tarifas pelos Estados Unidos, principal destino do pescado potiguar.

O impacto atinge diretamente as empresas ligadas ao Sindicato da Indústria da Pesca do Rio Grande do Norte (Sindipesca) e já provoca redução de operações, férias coletivas e paralisação de embarcações.

Depois de um primeiro semestre positivo em 2025, com produção elevada e mercado aquecido, o setor entrou no segundo semestre em ritmo de contenção.

As tarifas começaram a valer em julho e, apesar da expectativa inicial de reversão rápida, a medida segue em vigor, comprometendo o escoamento da produção justamente no período mais forte da safra, entre outubro e abril.

Segundo o presidente do Sindipesca, Arimar França, o mercado interno não tem capacidade para absorver o volume produzido, o que amplia prejuízos e pressiona ainda mais as empresas.

Arimar França – Foto: José Aldenir/Agora RN

Dependência dos EUA expõe fragilidade do setor

Atualmente, 12 empresas exportadoras integram o Sindipesca, dentro de um total de 17 associadas, que incluem também indústrias de processamento. Juntas, elas geram mais de 5 mil empregos diretos e, em um ano regular, movimentam cerca de 50 milhões de dólares em exportações. Para 2025, a estimativa é de queda de aproximadamente 50% nesse valor.

O principal produto é o atum fresco de padrão nobre, destinado majoritariamente ao mercado americano, especialmente à culinária japonesa. Também têm relevância o meca, conhecido como peixe-espada, e outros pescados oceânicos. Fora do circuito de sushi e sashimi, esses produtos perdem valor de forma drástica, o que inviabiliza economicamente a operação.

A situação se agrava com a ausência de alternativas consolidadas. Desde 2018, o Brasil está impedido de exportar pescado para a União Europeia por questões sanitárias, o que elimina o segundo principal mercado internacional do setor.

Mercados alternativos não absorvem produção

Parte do pescado congelado e da lagosta continua sendo destinada à Ásia, sem impacto direto do tarifaço. No entanto, a logística do peixe fresco, que exige entrega em até 48 horas, limita a expansão nesse mercado, além da forte concorrência de produtores locais.

Na América Latina e na América Central, os países concorrentes avançam sobre o espaço deixado pelo Brasil nos Estados Unidos. Já no mercado interno, São Paulo concentra o maior consumo de atum fresco, com cerca de 300 toneladas por mês, volume insuficiente diante da produção do Rio Grande do Norte e de outras bases do Nordeste.

O excesso de oferta pressiona preços e amplia perdas. Congelar o pescado não resolve, já que o valor de venda não cobre os custos de produção.

Entraves regulatórios ampliam a crise

Além das barreiras comerciais, o setor enfrenta dificuldades regulatórias. O budião, peixe costeiro relevante para exportação, passou a integrar listas ambientais mais restritivas, gerando novas exigências. Outro entrave envolve a ova de peixe-voador, exportada há mais de 15 anos para a Ásia e recentemente barrada por falta de ordenamento pesqueiro.

Para o Sindipesca, faltou organização prévia do poder público, o que resultou em prejuízos diretos para as empresas. Há também críticas à atuação de órgãos federais de fiscalização ambiental, apontados pelo setor como excessivamente restritivos e pouco abertos ao diálogo.

Crédito limitado e incerteza para 2026

Algumas empresas conseguiram acessar linhas emergenciais de crédito do governo federal, nos moldes das adotadas durante a pandemia, mas o alcance foi restrito. As mais fragilizadas, segundo o sindicato, ficaram de fora.

O cenário para 2026 é de total incerteza. Sem solução diplomática com os Estados Unidos, reabertura do mercado europeu e maior previsibilidade regulatória, o risco de perdas irreversíveis aumenta.

Para o setor, a sobrevivência depende de diálogo, estabilidade e decisões rápidas. Sem isso, parte da indústria pode não resistir até o próximo ano.

Classificação Indicativa: Livre


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