Cidades
Publicado em 01/08/2026, às 08h00 Ilustração gerada por IA Jussier Lucas
Calor mais intenso, ventos mais fracos, reservatórios perdendo água mais rapidamente e reflexos que podem chegar até o preço dos alimentos. Esses são alguns dos efeitos esperados para o Rio Grande do Norte com a atuação do El Niño, fenômeno climático que deve atingir seu pico entre outubro e dezembro deste ano e permanecer influenciando o clima até 2027.
Embora a expressão "Super El Niño" tenha ganhado espaço na imprensa, o chefe da Unidade de Meteorologia da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (EMPARN), Gilmar Bristot, faz uma ressalva: tecnicamente, a classificação utilizada pelos meteorologistas é outra.
Segundo Gilmar Bristot, o fenômeno ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal, alterando a circulação atmosférica em diversas partes do planeta.
"O El Niño já provoca mudanças importantes na circulação atmosférica. Eu não utilizo a expressão 'Super El Niño'. O que as previsões indicam é um El Niño muito forte, principalmente entre outubro, novembro e dezembro", explica.
De acordo com o meteorologista, o aquecimento anormal das águas modifica o comportamento dos ventos e dos sistemas atmosféricos, alterando o regime climático em diferentes regiões do mundo.
Ao contrário do que muita gente imagina, a principal consequência imediata para o estado não deverá ser a redução das chuvas.
Isso porque o período de maior intensidade do fenômeno coincide justamente com a estação seca no Rio Grande do Norte, quando normalmente já há pouca atuação de sistemas meteorológicos capazes de provocar precipitações.
"O auge do fenômeno acontece entre outubro e dezembro. Como esse já é um período seco no estado, o impacto sobre as chuvas neste momento não será significativo", afirma Bristot.
Se a chuva não deve ser o principal problema em 2026, o mesmo não pode ser dito em relação às temperaturas.
Segundo a EMPARN, o El Niño deverá provocar um bloqueio atmosférico sobre o Nordeste, reduzindo a intensidade dos ventos, especialmente no litoral potiguar.
Com menos circulação de ar, a umidade tende a permanecer por mais tempo sobre a faixa litorânea, aumentando a sensação de abafamento.
"Nós esperamos uma diminuição dos ventos e um aumento da temperatura entre um e dois graus. Além disso, a sensação térmica será maior porque haverá mais dificuldade para o corpo perder calor por meio da transpiração", explica o meteorologista.
O impacto deve ser mais perceptível na região litorânea. No interior, onde as temperaturas já costumam alcançar entre 38°C e 39°C durante esse período do ano, a mudança tende a ser menos significativa.
Embora o estado tenha encerrado o período chuvoso com uma situação considerada confortável, o aumento das temperaturas pode acelerar a evaporação da água armazenada nos açudes.
Hoje, os principais reservatórios potiguares armazenam cerca de 51% da capacidade total. Com o calor mais intenso, esse volume pode diminuir mais rapidamente até o início do próximo inverno.
Segundo Bristot, um pequeno aumento diário na evaporação representa uma perda significativa quando considerado o tamanho do espelho d'água dos grandes reservatórios.
"A evaporação pode aumentar e isso terá impacto importante nas reservas hídricas ao longo dos próximos meses", alerta.
Outro setor que deve sentir os efeitos do fenômeno é a pecuária.
Após um bom período chuvoso, muitos produtores ampliaram seus rebanhos graças à maior disponibilidade de pastagem. Agora, a preocupação é que a redução da umidade e o aumento da evaporação dificultem a manutenção desses animais.
Segundo o meteorologista, pequenos reservatórios podem secar mais rapidamente e a pastagem natural tende a perder qualidade durante o fim do ano.
Por isso, ele recomenda planejamento aos criadores.
"Se os produtores insistirem em manter o rebanho do tamanho atual sem planejamento, poderão enfrentar perdas significativas nos próximos meses", afirma.
Os efeitos do El Niño não devem ficar restritos ao campo.
A redução da produção agropecuária, tanto no Nordeste quanto em outras regiões do país, pode refletir diretamente nos preços dos alimentos.
Leite, queijo, hortifrutigranjeiros e outros produtos poderão sofrer reajustes caso a produção seja prejudicada pelos extremos climáticos.
"O Nordeste sempre paga a conta, quando chove e quando não chove. Se há problemas de produção aqui ou em outras regiões do país, a população acaba sentindo os efeitos no preço dos alimentos", observa Bristot.
Se os impactos previstos para este ano concentram-se principalmente no aumento das temperaturas, a preocupação dos meteorologistas está voltada para o próximo período chuvoso.
Segundo a EMPARN, os modelos climáticos indicam que o El Niño poderá permanecer ativo durante os primeiros meses de 2027, comprometendo justamente o início da estação de chuvas no Rio Grande do Norte.
Caso esse cenário se confirme, os reflexos poderão ser mais severos para a agricultura, os recursos hídricos e a economia rural.
Diante desse cenário, a EMPARN informa que continuará monitorando diariamente a evolução do fenômeno e repassará novas atualizações à medida que os modelos meteorológicos forem sendo atualizados. Além disso, o órgão pretende apresentar estudos e recomendações ao próximo governo estadual para auxiliar no planejamento de ações voltadas aos produtores rurais e à população.