Cidades
Publicado em 29/09/2026, às 08h38 SESAP Lavínia Manso
Mais de mil pessoas aguardam por transplantes no Rio Grande do Norte, onde 63% das famílias consultadas recusam autorizar a doação de órgãos de parentes falecidos. O índice supera a média nacional de 42%, segundo dados apresentados nesta segunda-feira (28) pela coordenadora da Central de Transplantes do estado, Rogéria Medeiros. A preocupação com a integridade do corpo e o tempo necessário para concluir o processo estão entre os principais motivos das negativas.
A maior fila é a de córneas, com 620 pacientes à espera. Outras 370 pessoas aguardam um rim e 30 precisam de transplante de medula óssea. Já a fila para coração está zerada desde julho, quando o único paciente que esperava pelo órgão foi transplantado.
O estado realiza transplantes de córnea, rim, coração e medula óssea. Quem necessita de um fígado precisa ser encaminhado a outras unidades da federação, como Pernambuco e Ceará, porque o Rio Grande do Norte não dispõe de equipe ou hospital credenciado para esse procedimento.
De acordo com Rogéria, após a autorização familiar, a organização da doação pode levar aproximadamente 24 horas. Nesse intervalo, as equipes realizam exames, verificam a compatibilidade, localizam os receptores e preparam a retirada e o transplante dos órgãos.
Esse período pode ser especialmente difícil para quem enfrenta o luto e deseja realizar o sepultamento. A coordenadora também relatou que o receio de alterações na aparência do corpo interfere na decisão, embora a retirada seja feita por cirurgia, seguida de sutura.
Na hora do velório, você não percebe, não tem a diferença”, afirmou.
Segundo ela, um único doador pode beneficiar de seis a dez pessoas, dependendo dos órgãos que possam ser aproveitados.
A orientação da coordenadora é que as pessoas manifestem à família, ainda em vida, o desejo de doar órgãos. Conhecer previamente essa vontade pode ajudar os parentes a decidir quando forem procurados pela equipe responsável.
Rogéria explicou que a autorização familiar continua necessária mesmo quando o potencial doador deixou registrado o interesse em doar. No caso de crianças, segundo a coordenadora, é preciso obter o consentimento do pai e da mãe.
Na doação de órgãos após morte encefálica, a confirmação do diagnóstico exige um protocolo com avaliações de profissionais diferentes e exame complementar. Depois, as equipes verificam quais órgãos podem ser doados e a compatibilidade com os possíveis receptores.
O intervalo entre a retirada e o transplante exige agilidade. Para o coração, Rogéria informou que essa janela é de quatro horas. Quando um órgão não é utilizado no estado, ele é ofertado inicialmente a outros estados do Nordeste, com possibilidade de ampliação da busca para o restante do país.
A coordenadora afirmou que a Central de Transplantes enfrenta déficit de profissionais e precisa de uma estrutura física maior. Apesar dessas limitações, os transplantes de córnea e rim cresceram na comparação entre os mesmos períodos de 2025 e 2026.
A captação de córneas também foi ampliada com um acordo de cooperação técnica firmado neste ano entre a Central de Transplantes e o Serviço de Verificação de Óbitos. O tecido, que concentra a maior demanda no estado, depende de doação de uma pessoa falecida.