Cidades
Publicado em 25/11/2025, às 08h58 Dados do Igarn mostram que os reservatórios do RN perderam quase 40% do volume em um ano, afetando o abastecimento e a produção agrícola. - Canindé Soares Dani Oliveira
O Rio Grande do Norte enfrenta um cenário hídrico alarmante. Em apenas um ano, os reservatórios monitorados pelo Instituto de Gestão das Águas do RN (Igarn) perderam quase 40% do volume acumulado, marcando uma das reduções mais expressivas da última década.
O estado, que depende diretamente da regularidade das chuvas para manter seu abastecimento, inicia uma nova fase de preocupação entre gestores, agricultores e comunidades rurais.
Os dados atualizados nesta segunda-feira (24) revelam que o volume geral dos 69 reservatórios está em 40,29%, contra os 66,95% registrados em novembro de 2024. No total, dos 5,29 bilhões de metros cúbicos possíveis, apenas 2,13 bilhões permanecem armazenados.
Situação atual dos reservatórios
O relatório do Igarn detalha que:
30 reservatórios estão com menos de 20% da capacidade.
19 unidades operam entre 20% e 40%.
54 dos 69 reservatórios não ultrapassam a marca de 50%.
Entre eles estão as duas maiores barragens do estado:
Armando Ribeiro Gonçalves (Açú) — 48,03% com mais de 2,37 bilhões de m³;
Oiticica (Jucurutu) — 14,77%, armazenando cerca de 742,6 milhões de m³.
Volumes mais críticos do RN
Alguns reservatórios apresentam situação extrema:
• Açude Itans (Caicó) — apenas 0,06% da capacidade, com 49.115 m³.
• Passagem das Traíras (São José do Seridó) — o menor índice percentual: 0,03%, equivalente a 17.210 m³.
As regiões que historicamente sofrem com estiagem voltam a registrar níveis severos de seca.
Monitor de Secas confirma piora no quadro climático
A Agência Nacional de Águas (ANA), por meio do Monitor de Secas, aponta que 83,83% dos municípios potiguares sofreram algum nível de seca em outubro:
• 37,13% estavam em seca grave;
• apenas 16,17% não apresentaram seca relativa;
• o Alto Oeste e o Seridó foram as regiões mais afetadas.
O quadro climático reforça o alerta sobre impacto no abastecimento humano, pecuária e agricultura irrigada.
Agro potiguar já sente os efeitos
A Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern) considera o nível dos reservatórios “crítico” e afirma que os reflexos no campo são imediatos. Entre os impactos apontados pela entidade:
Agricultura de sequeiro
→ Produtores relatam perdas no ciclo produtivo.
→ Irregularidade das chuvas reduziu produtividade.
Fruticultura irrigada
→ A queda do volume útil aumentou custos com bombeamento.
→ Maior gasto de energia para manter a irrigação.
O presidente da Faern, José Vieira, reforça a necessidade de planejamento:
O Rio Grande do Norte precisa avançar em políticas consistentes de gestão da água, capazes de proteger a fruticultura irrigada, assegurar a sobrevivência da agricultura familiar e permitir que a pecuária atravesse a estiagem com menos perdas.”
O que o governo tem feito
O Governo do RN reconheceu a situação de seca em 147 municípios em 1º de outubro e anunciou medidas emergenciais para 2025 e 2026:
Entre as ações anunciadas:
• Perfuração e instalação de 500 poços até abril de 2026;
• Construção de 2.500 cisternas;
• Recuperação e instalação de novos dessalinizadores;
• Programa da Emparn para produção de feno subsidiado;
• Distribuição de palma forrageira para alimentação animal;
• Entrega de sementes e mudas de qualidade.
• Além disso, a zona rural de 76 municípios está sendo atendida pela Operação Carro-Pipa.
Saiba mais sobre a crise hídrica no RN
A combinação de estiagem prolongada, reservatórios com volumes historicamente baixos e aumento dos custos produtivos coloca o estado em um dos períodos mais delicados da última década.
A continuidade ou agravo da situação dependerá diretamente das chuvas previstas para os primeiros meses de 2026 — e da capacidade de resposta das políticas públicas emergenciais.