Cidades
Publicado em 08/08/2026, às 11h00 Magnific Lavínia Manso
Uma mistura de bactérias, óleos vegetais e minúsculas bolhas de ar explica o aroma mais nostálgico da natureza, capaz de ser percebido pelo olfato humano em concentrações quase imperceptíveis
Basta a primeira gota tocar o chão seco para o ar mudar. Em segundos, um cheiro terroso toma conta do ambiente, provocando em muita gente uma sensação quase imediata de alívio. O fenômeno tem nome científico, história e, principalmente, explicação química, e chama-se petricor.
O termo foi cunhado em 1964 pelos pesquisadores australianos Isabel Joy Bear e Richard Thomas, em artigo publicado na revista Nature. A palavra une dois termos gregos, petra (pedra) e ichor (o fluido que, na mitologia grega, corria nas veias dos deuses). Na época, a dupla já apontava que parte do aroma vinha de óleos liberados por certas plantas durante períodos de seca, óleos que se acumulam em rochas e no solo até serem, enfim, expelidos pela chuva.
Décadas depois, a ciência complementou a descoberta com outro protagonista, a geosmina, composto orgânico produzido principalmente por bactérias do gênero Streptomyces. É esse composto o principal responsável pelo cheiro de terra molhada, e o nariz humano é surpreendentemente sensível a ele.
Por décadas, os cientistas sabiam o que causava o odor, mas não como ele se espalhava tão rápido pelo ambiente. A resposta veio em 2015, quando engenheiros do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), liderados pelo pesquisador Cullen Buie, usaram câmeras de alta velocidade para observar o impacto das gotas de chuva sobre superfícies porosas.
O grupo descobriu que, ao atingir solo ou asfalto, cada gota aprisiona pequenas bolhas de ar em sua base. Essas bolhas sobem até a superfície da gota, de forma parecida com o que acontece em uma taça de champanhe, e estouram ao entrar em contato com o ar. Ao explodir, liberam aerossóis carregados de geosmina e outros compostos, que se espalham rapidamente e, dependendo do vento, chegam ao nosso nariz antes mesmo da chuva atingir o corpo.
Chuvas leves e moderadas tendem a produzir mais aerossóis do que temporais intensos, segundo observações posteriores ao estudo do MIT. A porosidade do solo, o tempo de estiagem e a presença de microrganismos também influenciam diretamente a intensidade do aroma.
O petricor costuma ser mais perceptível após longos períodos sem chuva. Segundo cientistas, durante a estiagem, óleos vegetais e geosmina se acumulam no solo e nas rochas. Quando a chuva finalmente cai, todo esse estoque químico é liberado de uma só vez, o que intensifica o odor.
Uma pesquisa mais recente, publicada na revista Nature Microbiology por cientistas da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas (SLU) em parceria com o John Innes Centre, no Reino Unido, sugere que a produção de geosmina pelas bactérias Streptomyces não é acidental.
Segundo os autores, o composto funcionaria como um sinal químico para atrair colêmbolos, pequenos artrópodes de solo, que se alimentam das bactérias e ajudam a dispersar seus esporos por meio de fezes e do contato com o próprio corpo.
Se a hipótese se confirmar, o cheiro que despertamos em nós ao caminhar sob a primeira chuva seria, na origem, uma mensagem trocada entre bactérias e insetos microscópicos havia mais de 500 milhões de anos, muito antes de existir qualquer nariz humano para percebê-la.
Mas por que gostamos tanto desse aroma? Cientistas evolutivos levantam a hipótese de que a sensibilidade humana à geosmina não seria coincidência. Para populações nômades e ancestrais que dependiam da natureza para sobreviver, identificar rapidamente o cheiro de chuva significava localizar água fresca e áreas com maior chance de caça, especialmente em regiões áridas.
A sensação de bem-estar que muitas pessoas relatam ao sentir o petricor pode, portanto, ser um resquício dessa vantagem evolutiva, uma resposta quase automática de alívio diante de um sinal de sobrevivência.